Ivy A luz da sala se derrama pelas paredes como um fiapo de ouro cansado, daqueles que já viram demais, sabem demais, e ainda assim permanecem, sobrevivendo ao que deveria ter sido esquecido. Eu fico ali, parada, com o corpo aceso de lembranças que não pedi, segurando o celular que Lucas acabou de deixar sobre a mesa. Minha mente pulsa, pesada, e o ar parece mais denso, como se a casa inteira tivesse prendido a respiração. Eu respiro fundo. Deixo os dedos tocarem a madeira fria da mesa, procurando um pouco de raiz, um pouco de firmeza no meio da maresia que me toma de assalto. Porque é isso que o passado faz comigo: me desestabiliza pelas margens, pela pele, pela memória. E, como um fantasma que nunca pediu permissão, o nome dela volta. Karen. A minha “amiga”. A madrasta de Nicolas.

