Scarlett
Corro pela casa com o coração disparado. Estou em choque com meu próprio comportamento — dormir com Dylan. O pânico me consome enquanto penso no que Patrick fará se descobrir.
Arranco os lençóis da cama e os jogo na lavanderia. Abro todas as janelas, desesperada para que o ar fresco apague qualquer vestígio dele. Cada cheiro, cada dobra nos lençóis, cada marca invisível me faz sentir exposta. Quando finalmente me convenço de que limpei todos os rastros da visita de Dylan, volto à tarefa que Patrick me deu. Minhas mãos tremem enquanto remexo as caixas, desfazendo as malas em um ritmo frenético, como se a velocidade pudesse afogar a culpa.
A vergonha e o medo se misturam como veneno na minha garganta. Mas, mesmo afogada nesse turbilhão, uma parte de mim não consegue se arrepender por completo. Aqueles breves momentos com Dylan... a forma como ele me segurou, a ternura do seu toque, o desejo silencioso que ardia nos olhos dele. Por um instante, eu fui vista. Desejada. Mulher.
Patrick nunca me olhou assim. Ele me observa com olhos frios, calculistas, como se estivesse sempre me avaliando, pronto para julgar. Dylan... Dylan me segurou como se eu fosse feita de luz.
Mas Patrick é meu marido. Eu fiz uma promessa. E agora preciso me deitar na cama que arrumei — ou, nesse caso, arrumar a casa como ele mandou. O relógio corre contra mim. Se ele perceber que as coisas foram feitas às pressas, se notar qualquer detalhe fora do lugar, vai querer saber o motivo. E eu não posso lhe dar um motivo.
No final da tarde, preparo a lasanha. Assim que a coloco no forno, volto a desfazer as últimas caixas. Quando finalmente termino de organizar os livros da sala, ouço a porta da frente se abrir.
Meu estômago se revira. Meus nervos estão à flor da pele, mas coloco um sorriso no rosto. Corro até o saguão para recebê-los.
— Bem-vindo de volta — digo, esforçando-me para parecer alegre, mas não teatral. Patrick nota as menores mudanças em tudo.
Ele sorri e beija minha bochecha. Um leve suspiro escapa dos meus lábios. Ele ainda está de bom humor. Por enquanto.
— Consegui uma carinha sorridente na minha ortografia, mamãe! — Daniella ergue o papel com orgulho.
— Que maravilha, querida! Como foi o treino?
Ela dá de ombros. — Ótimo. O que tem para o jantar?
— Lasanha — respondo, forçando leveza.
Patrick fareja o ar. — Tem alguma coisa queimando?
Congelo.
— Ah, não. — Corro para a cozinha. O cheiro de fumaça invade minhas narinas antes mesmo que eu veja. Esqueci a lasanha no forno. O pânico toma conta.
Abro o forno com mãos trêmulas. A massa está queimada, enegrecida. — Não, não, não...
— Espero que isso não seja o jantar — diz Patrick com desdém.
Não preciso olhar. Seu tom já mudou. A tensão cresce como uma nuvem elétrica. Ainda assim, me viro. Sei que ele exige contato visual.
— Desculpe. Me distraí e perdi a noção do tempo.
A escuridão cresce em seus olhos. — Distraída, é? É assim que chama agora?
O tapa vem rápido. A dor explode no meu rosto. Cambaleio, batendo contra o balcão.
— Mulher inútil e incompetente! — ele grita. — Não consegue fazer nada certo?
Levanto as mãos para me proteger, mas é inútil. Outro golpe. Sinto o mundo girar. Um grito escapa dos meus lábios enquanto caio no chão.
— Mamãe!
Quero protegê-la. Daniella corre até mim, mas Patrick está ao meu lado, furioso, os punhos cerrados.
— Você não faz nada o dia todo! Uma refeição decente, é pedir demais?
— Eu estava desfazendo as malas — gaguejo. — Me perdi no tempo...
— Você não vale nada! — O chute atinge meu estômago. A dor me rouba o ar.
— Pare com isso! — grita Daniella , com os punhos pequenos batendo na perna dele. — Deixe a mamãe em paz!
Ele se vira para ela, levantando a mão.
— Não! — Grito, agarrando o braço dele. — A culpa é minha! — Olho para minha filha. — Vá para o seu quarto, querida.
Ela hesita, olhos arregalados.
— Patrick. — Digo seu nome com firmeza, atraindo-o de volta a mim. — Por favor, não machuque ela. A culpa foi minha. Eu vou melhorar. Prometo.
Ele me encara, peito arfando. Por um segundo, penso que vai me atingir de novo.
— É melhor você não estragar tudo de novo, Scarlett — rosna, ajeitando a gravata. — Vou sair. E nem pense em fugir. Se fizer isso... sua pirralha paga. Entendeu?
Ainda no chão, aceno.
— Entendi.
Ele sai. A porta bate atrás dele como um trovão.
Demoro a me levantar. Daniella corre para mim, tremendo, soluçando.
— Shh, está tudo bem, querida — sussurro, abraçando-a com força. — Ele se foi. Você está segura.
Mas eu sei. Sei que isso é apenas temporário. Patrick voltará. E se tiver bebido, será pior. Ou talvez encontre outra mulher para descontar sua raiva... e isso seria, ironicamente, a nossa única sorte.
Lágrimas ardem. Odeio minha própria covardia. Odeio o fato de ainda estar aqui. Mas Patrick sabe exatamente onde atacar: Daniella .
Respiro fundo. Preciso ser forte. Por ela. Por nós.
— Ele te machucou de novo...
— Sinto muito, querida — sussurro. — Vou consertar isso. Eu juro.
Penso em Dylan.
Eu vou te fazer feliz, Scarlett. Eu prometo.
Considero ligar. Pedir ajuda. Mas ajuda de Dylan pode significar sangue. Assassinato. E então... eu apenas trocaria uma prisão por outra?
Abraço minha filha com força, decidida. Ninguém vai nos salvar. Eu vou nos salvar.
— Deixe-me preparar o jantar pra nós, ok?
Ela fungou. — Tá bom...
Faço macarrão com queijo. Tento manter a voz leve durante a refeição, mas Daniella m*l come. Sei o que ela vê em mim. Uma mulher fraca. Uma mãe que falha.
Depois do jantar, limpo tudo. Ventilo o cheiro de queimado. Coloco um filme para distraí-la. Ela se aconchega, mas está distante. Quando ela finalmente dorme, vou ao banheiro e encaro meu reflexo.
A mulher que me encara não é mais eu. Ou talvez seja o pior de mim. O hematoma escurece meu rosto. Patrick não quer que eu saia porque não quer que ninguém veja o monstro que ele é. Que eu permito.
Penso em Daniella . Na mulher que ela pode se tornar se tudo isso continuar.
Pego o celular. Abro o navegador. Começo a digitar: “abrigo de mulheres…”
Mas paro nas primeiras letras. Patrick verifica meu telefone.
A imagem dele erguendo a mão contra minha filha queima em minha mente.
Coloco o celular de lado. E me odeio.
Minha alma grita.
Mas amanhã... amanhã eu preciso fazer algo. Porque, se não for por mim, tem que ser por ela.