O Sonho que Corou a Manhã
Alice acordou com o coração acelerado e o rosto em chamas.
Por alguns segundos, ficou imóvel na cama, encarando o teto, tentando entender onde estava. O quarto era o mesmo. A luz suave da manhã entrava pela fresta da cortina. Chad dormia aos pés da cama, completamente alheio ao turbilhão dentro dela.
Mas o sonho ainda estava ali.
Vivo demais.
Ela levou a mão ao peito, sentindo o coração bater rápido, diferente. Não era medo. Era algo novo, quente, quase elétrico. Fechou os olhos por um instante e, contra a própria vontade, a lembrança voltou.
No sonho, Olyver estava perto. Muito perto.
Não havia pressa, nem palavras. Apenas o olhar dele — intenso, azul, cheio de algo que ela agora sabia nomear: desejo. Ele se aproximava devagar, como sempre fazia na vida real, respeitando um limite invisível… até que não havia mais limites.
No sonho, ele a beijava.
Não como um gesto tímido ou cuidadoso, mas com intenção. Com entrega. A boca dele encontrava a dela de um jeito que fazia sentido, como se seus corpos já se conhecessem havia muito tempo. Beijos que não eram apenas na boca, mas que se espalhavam, despertando sensações que ela tinha acabado de descobrir nas páginas do livro.
Pescoço. Orelha. O calor da proximidade. A respiração dele misturada à dela.
Nada era vulgar. Nada era agressivo.
Era intenso.
Era vivo.
Alice abriu os olhos de repente, sentando-se na cama.
— Meu Deus… — murmurou.
Passou as mãos pelo rosto, tentando esfriar as bochechas. Estava vermelha como nunca. Cherry, pensou, quase rindo de si mesma. O apelido veio à mente automaticamente, e isso só piorou.
Ela se levantou devagar, foi até o banheiro e lavou o rosto com água fria. No espelho, seus olhos estavam brilhando de um jeito diferente. Havia ali curiosidade, sim — mas também algo que a assustava um pouco: vontade.
— É só um sonho — disse para si mesma. — Só isso.
Mas não parecia “só”.
Quando saiu do banheiro, ouviu passos na sala. Olyver estava acordado. O cheiro de café fresco denunciava isso. Alice parou no meio do corredor, o coração disparando de novo.
Como olhar para ele depois daquilo?
Ela respirou fundo e seguiu.
Olyver estava na cozinha, de camisa clara e mangas dobradas, mexendo algo no fogão com uma concentração tranquila. Ao vê-la, sorriu imediatamente.
— Bom dia — disse ele, com aquela voz baixa que sempre a desarmava.
— B-bom dia — respondeu Alice, desviando o olhar quase no mesmo instante.
Ele franziu levemente a testa.
— Está tudo bem?
Ela assentiu rápido demais.
— Está. Eu só… acordei meio… — ela fez um gesto vago com a mão.
Olyver desligou o fogão e se virou completamente para ela, atento.
— Sonhou? — perguntou.
Alice congelou.
— Como você sabe? — perguntou, surpresa.
— Você sempre fica assim quando tem sonhos intensos — respondeu ele com naturalidade. — Fica quieta, evita olhar nos olhos.
O rosto dela esquentou ainda mais.
— Eu… — começou, mas a voz falhou.
Olyver se aproximou um pouco, mas parou a uma distância segura.
— Se não quiser falar, tudo bem — disse ele rapidamente.
Alice fechou os olhos por um segundo. Lembrou-se do livro. Das páginas que diziam que sentir não era errado. Que pensar não era pecado. Que o corpo e a mente também aprendiam dormindo.
— Eu sonhei com você — disse, enfim, sem abrir os olhos.
O silêncio caiu entre eles, denso, mas não pesado.
— Comigo? — perguntou Olyver, com cuidado. Não havia presunção em sua voz, apenas atenção.
Alice assentiu, ainda sem coragem de encará-lo.
— Foi… diferente — continuou. — Não foi um sonho r**m. Mas me deixou… muito envergonhada.
— Alice… — ele começou, mas parou, esperando que ela continuasse.
Ela abriu os olhos devagar.
— Eu li no livro — disse, quase num sussurro. — Que prazer também está nos beijos. Na boca. No pescoço. No jeito de tocar… de sentir.
Olyver respirou fundo, visivelmente atento a cada palavra.
— E no sonho… — ela engoliu em seco — você me beijava assim.
O rosto dela estava completamente vermelho agora. Cherry, sem dúvida.
— Com desejo — concluiu, a voz baixa.
Olyver não se moveu por alguns segundos. Quando falou, sua voz estava diferente. Mais grave. Mais contida.
— Obrigado por me contar — disse ele. — Isso não é fácil.
— Eu fiquei com medo de você achar estranho — confessou Alice. — Ou achar que eu… que eu estava pensando coisas erradas.
— Não existe errado no que você sente — respondeu ele imediatamente. — Sonhos são espaços seguros da mente. Eles mostram curiosidade, não obrigação.
Ela finalmente olhou para ele.
— Você não ficou desconfortável?
— Fiquei honrado — disse ele, com sinceridade. — Mas também quero que você saiba algo importante.
Ela esperou.
— Um sonho não cria uma expectativa — continuou ele. — Você não me deve nada por ter sonhado comigo. Nem beijos, nem toques, nem explicações.
Os olhos dela marejaram levemente.
— Eu acordei com medo de olhar para você — admitiu. — Achei que você fosse perceber… sei lá… no meu rosto.
Olyver deu um meio sorriso suave.
— Eu percebi que você estava corada — disse. — Mas isso só me diz que você está descobrindo coisas sobre você mesma.
Ele fez uma pausa.
— E isso é bonito.
Alice soltou um suspiro que nem sabia que estava segurando.
— Eu não sei lidar com isso ainda — disse. — Com esse tipo de vontade. Com imaginar.
— Não precisa lidar sozinha — respondeu ele. — E não precisa agir sobre isso se não quiser.
Ela assentiu.
— Mas… — acrescentou, hesitante — o sonho não me assustou. Só me deixou confusa.
— Confusão faz parte do aprendizado — disse Olyver. — Especialmente quando a gente passa tanto tempo reprimindo sentimentos.
Alice sentou-se à mesa, ainda um pouco trêmula. Olyver colocou uma xícara de café à sua frente, com cuidado.
— Obrigada — murmurou.
— Alice — disse ele, chamando-a pelo nome completo — tudo o que acontecer entre nós, se acontecer, vai começar acordado. Com conversa. Com consentimento. Com você se sentindo segura.
Ela levantou os olhos para ele, sentindo o coração aquecer.
— Eu sei — respondeu. — E isso… isso me dá coragem até para sonhar.
Ele sorriu.
— Então continue sonhando — disse. — Mas lembre-se: a realidade também pode ser gentil.
Alice levou a xícara aos lábios, ainda vermelha, ainda sensível. O sonho não tinha sido um sinal de pressa.
Tinha sido apenas um reflexo.
De uma mulher que começava, finalmente, a permitir que o desejo existisse — sem culpa, sem medo, sem obrigação.
E Olyver, ali à sua frente, entendia que o maior gesto de amor naquele momento não era beijá-la como no sonho.
Era respeitar o tempo que ela precisava para acordar para si mesma.