— Você só pode estar completamente louco.
Vladimir quase sorriu, pois era a segunda vez em menos de duas horas que alguém lhe dizia isso.
— Muito pelo contrário, Gabriel — encarou o amigo com algo muito parecido com diversão refletido nos seus olhos azuis — talvez seja a decisão mais sensata que já tomei em anos.
Os dois formavam uma dupla bem peculiar: Stephanovit com os seus cabelos negros, postura austera e terno bem cortado, e Gabriel Peterson, com seus cabelos loiros, sorriso fácil e olhos castanhos.
— Vladimir, não é só por se tratar de um crime, que provavelmente arruinará a sua carreira e a boa imagem do escritório — tentava a todo custo enfiar um pouco de razão no amigo — mas uma completa sandice, você não conhece essa mulher, não deve confiar nela.
— Não preciso.
— Não sabe muito sobre casamento, não é?
— Sei, para meu total desgosto — respondeu.
— Deus, isso tem a ver com o seu pai e essa maldita imposição? — Gabriel perguntou, exasperado — Como pode ser tão i****a a ponto de fazer exatamente o que ele quer?
Poucas pessoas tinham coragem — ou petulância — o bastante para lhe tratar assim, mas Gabe era seu melhor amigo, e o conhecia a tempo demais para se deixar intimidar.
Eles haviam se visto pela primeira vez na secretaria da faculdade e tinham se transformado imediatamente em inimigos declarados — obrigados por uma ironia do destino, a dividir o mesmo quarto.
Peterson era seu oposto; engraçado, despreocupado, mulherengo e algumas vezes, completamente inconsequente. Porém, com o tempo — e a compreensão de que teriam que se aguentar por mais alguns anos — Vladimir descobriu no outro um homem extremamente inteligente e perspicaz, com um potencial incrível. Stephanovit havia se tornado a disciplina de Gabriel na época da faculdade, e o loiro, por sua vez, tinha sido responsável pelos melhores anos da sua vida — com direito a duas ressacas memoráveis.
— Não estou fazendo.
— Bem, ele exigiu que se casasse, uma coisa totalmente inviável — sorriu, mais debochado que bem humorado — palavras suas, não as minhas — justificou — e aqui está você, me dando a feliz notícia.
— Foi uma decisão que tomei por mim mesmo, o meu pai nunca teve poder para interferir na minha vida.
— Não entendo como exatamente está contrariando o velho — Gabe rebateu — é uma decisão importante, casamento, é uma coisa séria demais para se fazer apenas na tentativa de agradar um sádico.
— Ele não vai desistir, nem que para isso tenha que destruir tudo que construí no processo.
— O seu velho jamais faria isso, ele ama esse lugar.
— Ele ama ainda mais o controle, principalmente, o pouco que tem sobre mim.
— Temos uma definição muito diferente a respeito da palavra "pouco" — Peterson ironizou.
Ambos travaram uma luta de olhares — nenhum querendo realmente dar o braço a torcer.
— Eu vou me casar, Gabriel — e essa simples frase deixava bem claro que nada que o outro pudesse dizer, o faria mudar de ideia.
— Só espero que não se arrependa — o loiro desistiu, passou a mão pelo cabelo com resignação e encarou o amigo — de qualquer forma, se precisar de um advogado no fim dessa história, estamos aí.
— Quando foi que você se tornou o mais sensato de nós dois?
— Não faço a mínima ideia, mas estou odiando o papel de mãe zelosa.
Sim, definitivamente, Gabriel Peterson era o melhor amigo que tinha.
________
— Senhora... — começou Simon, o vigia do prédio do Central Park, assim que viu Perpétua entrar pelas grandes portas do saguão, mas se interrompeu.
Normalmente, ele a chamaria, a mulher iria parar e os dois bateriam um papo sobre basquete, UFC ou a nova escala da seleção brasileira — até mesmo a americana — enquanto esperavam o elevador que a levaria a cobertura. Porém, foi necessário apenas um olhar na moça para Simon entender que aquele não era um dia comum — o rosnado que ela soltou em agradecimento quando as portas do elevador se abriram, apenas uma confirmação.
— Maldito advogado arrogante — Perpétua repetiu, não pela primeira vez desde que o tinha encontrado no restaurante e recebido a feliz proposta.
Apertou o botão do seu andar com tanta veemência e raiva, que uma senhorinha de cabelos brancos, roupas de estampa florida e um cachorro que mais parecia um rato gigante numa bolsa rosa, se encolheu no canto e apertou o animal junto ao peito, com receio.
Por mais que tivesse prometido a si mesma que não pensaria no assunto até chegar em casa, não pode evitar — o que acabou com o seu dia. Primeiro, havia chegado uma hora atrasada no seu compromisso — por culpa dele, rosnou novamente — depois, perdeu a paciência com o cliente — que estava cortejando a meses, na tentativa de lançar o seu próximo livro. E como a cereja no topo do bolo, brigou com o chefe sobre o número de tiragem da próxima publicação.
— Merda — soltou um suspiro.
É claro que todos esses casos teriam sido facilmente evitados — ela era uma diplomata nata — mas seu estado de espírito não ajudava.
— Licença — a senhora pediu, tão baixinho que Perpétua quase não a ouviu.
A meio caminho de um grunhido, a brasileira controlou-se e educadamente chegou para o lado, deixando a senhorinha passar. Até tentou sorrir, mas pela expressão da idosa, sabia que parecia mais uma maníaca, que uma menina amigável.
No tempo restante até o seu andar, Perpétua se acalmou. Estava agindo como uma i****a exagerada, o cara só tinha proposto uma alternativa i*****l, não tinha que aceitar.
Não era obrigada a absolutamente nada.
Com esse novo pensamento — e o coração mais leve — saiu pelo corredor.
Um homem n***o, careca, de mais de dois metros de altura e músculos que o compararia a um fisiculturista, estava na frente da porta do seu apartamento. Apesar do repentino frio de fim de tarde, ele usava jeans desgastado e uma regata branca — decorada com algumas manchas de alvejante aqui e ali.
O homem sorriu quando a viu — uma mistura de afeição e alívio.
Seu rosto não era exatamente bonito — o nariz torto já havia sido quebrado várias vezes para ajudar o conjunto da obra — porém, seu sorriso de dentes perfeitos e brancos, olhos escuros — doces demais para alguém tão grande — lhe tornava digno de uma segunda olhada.
Sem falar no bebê conforto que segurava na mão — numa confusão de pano rosa e amarelo, com estampas que variavam de coraçãozinho a unicórnios — uma bolsa rosa pink no ombro — grande o bastante para caber uma casa — e um ursinho azul na outra mão.
Existe coisa mais fofa no mundo que um homem grande com um bebê? Pensou, retribuindo o sorriso dele.
— King — nem pensou duas vezes, se jogou nos braços do grandalhão.
— Magrela — passou o braço que não estava ocupado com o bebê conforto, em volta dela.
Mesmo sendo uma mulher alta, a cabeça de Perpétua m*l chegava ao ombro dele.
Era perfeito.
A moça deixou-se envolver na montanha quente com cheiro de talco de bebê que era seu amigo.
— O quão r**m é?
— Um completo desastre, mas prefiro esperar os outros para contar tudo — a sua voz saiu abafada, porém, sentiu a sua concordância quando King assentiu.
A primeira coisa que Perpétua fez quando saiu do restaurante foi mandar uma mensagem de emergência para o seu seleto grupo de amigos, que dizia as exatas palavras:
DEFCON 4
Minha casa, 19h
Era um código que só tinha sido usado duas vezes desde a sua criação: quando Charlotte foi presa por participar de uma manifestação contra um laboratório que gostava de usar animais como cobaias, e no nascimento da Apple.
Nem era preciso enfatizar que a medida era mais que necessária depois do seu encontro com um certo advogado.
É claro que a decisão final seria sua, mas estava fora do seu elemento, à situação era mais que incomum — para não dizer bizarra. E, definitivamente, precisava da opinião dos outros mosqueteiros.
A porta do elevador apitou e depois se abriu. Em meio a um redemoinho de sacolas, pulseiras que balançavam e tilintavam, uma mulher minúscula — de no máximo 1,60cm — pele clara, cabelos ruivos até a cintura, trajando um suéter de tricô verde musgo, saia longa colorida de retalhos — parecendo ter sido costurada por crianças órfãs, o que não seria impossível vindo de quem vinha — e sandálias pretas de tiras, apareceu.
— Charlotte — Perpétua suspirou, sem hesitar a recém-chegada jogou os braços em volta dos amigos e os apertou como se pudesse protegê-los do mundo.
— Oh, vai ficar tudo bem — sua voz era suave, quase cantada.
Perpétua queria confiar, no entanto, a muito havia parado de acreditar em contos de fadas e finais felizes.
— Vamos entrar — não podia desabar e entregar-se ao conforto conveniente — não pega bem todos nós abraçados aqui, no meio do corredor, com uma menor de idade envolvida — tentou dar um sorriso tranquilizador, mas fracassou miseravelmente.
— Ok — concordou King.
E enquanto Perpétua remexia na bolsa atrás da chave da porta, Charlotte fazia caretas para a pequena Apple, vez ou outra falando a estranha língua dos bebês.
Perpétua morava em um loft.
A porta de entrada dava de frente para a cozinha aberta, com uma grande ilha de mármore, eletrodomésticos em inox, armários envidraçados, utensílios coloridos e berrantes, para contrastar com as paredes brancas. Apenas uma bancada e alguns bancos altos a separava da "sala" — que se resumia a um grande sofá cor pastel, um tapete branco muito felpudo e vários pufes espalhados pelo centro do cómodo. As paredes laterais que não eram tomadas por janelas que iam do chão ao teto, estavam cheias de prateleiras e mais prateleiras de livros. Num canto aconchegante nos fundos, se via por trás de uma poltrona de couro desgastada com encosto alto, uma lareira. Uma escada em caracol de ferro forjado levava até o segundo andar.
Perpétua amava o seu apartamento, pois tinha sido responsável por cada pedacinho dele. Praticamente havia idealizado no lugar todas as estantes e cores, na primeira vez que o tinha visto. Teve que trabalhar igual a uma escrava e sobreviver à base de iogurte — e comida roubada dos amigos — durante meses para pagar a entrada do imóvel. Vendeu a alma ao d***o — ou Loki — para convencer o proprietário a ceder o loft a uma estrangeira.
— Elizabeth está a caminho — avisou King, referindo-se à esposa.
— Temos tempo — Perpétua jogou-se no sofá, exausta.
— Vou preparar algo para comermos — disse King, dirigindo-se à cozinha.
— Algo que não esteja morto, por favor — gritou Charlotte, do tapete da sala, onde brincava com a pequena Appel, que tinha rapidamente tirado do bebê conforto.
O gigante respondeu de volta, mas a distância dispersou as suas palavras, mas o conhecendo como o conhecia, a brasileira sentiu um sorriso florescer no seu coração.
Essa rixa entre os dois amigos havia começado na primeira vez que o grupo tinha jantado junto — anos atrás. Charlie por ser uma vegana convicta havia quase colapsado ao assistir King comer, sendo ele um orgulhoso carnívoro.
Uma parte de si sentia vergonha em admitir, mas no lugar de ajudar — ou mediar a situação — Perpétua havia chorado de rir. Foi desleal e desprezível, no entanto, uma das melhores noites da sua vida.
Vou sentir saudades desses putos. O pensamento a assustou, para evitar que ele transbordasse em forma de lágrimas, Perpétua os trancou.
— Como está a loja? — perguntou a amiga.
Há 3 anos a loira tinha aberto uma confeitaria, na verdade, uma delicatessen especializada em cupcakes com produtos 100% naturais. Nada de agrotóxicos, ou porcarias industrializadas. No início a ideia pareceu-lhe cara demais, e fantasiosa, porém, a sua Charlie não era burra, e com o tempo Perpétua teve que morder a língua quando um grande número de clientes ricos — e fiéis — começaram a entrar pela porta com cada vez mais frequência.
— Uma loucura como sempre, aprendi uma nova receita que mistura mirtilo, chocolate e bourbon.
E a sua amiga tinha um talento especial para criar iguarias com sabores inigualáveis.
— Isso não me parece combinar muito bem.
— Ainda não combina, me falta encontrar a medida perfeita de cada ingrediente, mas quando achar vou acrescentar ao cardápio vegan e quem sabe arrebanhar mais algumas ovelhas inocentes — um sorriso brilhante e malicioso terminou a frase.
A porta abriu-se — pondo fim à conversa das duas — e um homem alto e ruivo, entrou.
O seu terceiro mosqueteiro.
Christopher Reedus era irmão gêmeo de Charlotte, mas não eram idênticos. O formato do rosto de Chris era mais quadrado, a boca mais carnuda e o nariz acentuado. No entanto, apesar dos estilos completamente diferentes — ele tinha uma obsessão estranha por ternos Armani — eram muito iguais na forma de falar e se portar. Chegando até mesmo a terminar frases e pensamentos um do outro.
— Cheguei! — ele foi em direção a Perpétua, lhe deu um beijo estalado na boca como boas-vindas — e trouxe tequila — para provar as suas palavras, levantou uma garrafa envolvida em papel pardo.
— Não vamos beber, Christopher — Charlie repreendeu o irmão.
— Claro que vamos, é um Defcon 4 — a encarou com descrença fingida, como se ela tivesse dito algo absurdo demais para ser pronunciado — o que o advogado disse?
— Vamos esperar Elizabeth chegar, não vou repetir essa droga duas vezes.
— Tão r**m assim?
— Fico feliz que tenha trago a tequila.
— Merda — Chris praguejou.
Minutos depois, o quarto mosqueteiro chegou.
— Não estou atrasada — declarou Elizabeth ao fechar a porta atrás de si.
Era tão alta quanto Perpétua, e n***a, mas aí terminava toda a semelhança entre as duas. Os cabelos de Beth eram lisos e lhe descia pelas costas em ondas grossas e escuras. Os seus olhos castanhos esverdeados, e o nariz fino, a única herança da inquestionável miscigenação dos seus antepassados. Lábios grossos, com uma pinta discreta na maçã do resto direita. Vestia uma calça social cinza, que combinava harmoniosamente com a camisa branca e salto agulha preto. A bolsa enorme vermelha que trazia no ombro era o único ponto extravagante do seu look.
Uma perfeita loba de Wall Street, elegante, distinta e fantástica.
— Levando em conta que chegou depois do Chris — cantarolou Charlotte.
— Não enche pirralha — como estava sentado ao lado de Perpétua no sofá, ele simplesmente deu um empurrão com o pé na irmã.
— O rango está pronto — gritou King da cozinha, e enquanto o grupo ia a seu encontro, o gigante colocou vários pratos e travessas com comida o bastante para satisfazer uma infantaria inteira, em cima da bancada.
A sua esposa contornou a mesma e quando se aproximou o bastante do marido, o segurou pela gola da blusa, lhe deu um beijo quente demais para ser feito em público.
— Deus, procurem um quarto! — Chris pegou uma batata frita e jogou nos dois, mas foi sumariamente ignorado — temos uma criança no recinto.
— E como você acha que ela foi feita? — rindo, King passou a mão sugestivamente pela b***a de Elizabeth.
— A cegonha, claro — respondeu Charlotte, prontamente.
— Em uma linda noite estrelada de verão, inocente e casta — Christopher completou.
— Não foi durante a noite, e nunca choveu tanto num dia, mas foi no verão — disse Beth, maliciosa — ficamos presos num engarrafamento por quase duas horas.
— Deus, vocês transam bem a luz do dia? — Charlie colocou as mãos na boca, com nojo fingido.
— Pior, dentro de um carro? — Chris imitou a perfeição a encenação da irmã.
— Pervertidos — foi a contribuição de Perpétua ao diálogo.
— Vocês vão para o inferno por isso — sentenciou Charlie.
— Quem nunca? — King perguntou.
— Quem nunca!? — Beth, Christopher e Charlotte, repetiram em uníssono, depois caíram na gargalhada.
Tudo mudou muito rápido, em um momento Perpétua estava rindo — feliz por simplesmente estar com eles — no outro, em prantos. Não conseguia parar ou controlar-se, por mais que tentasse.
Alguém a envolveu num abraço, outra pessoa enlaçou a sua cintura e encostou a cabeça nas suas costas. O gesto de carinho — e proteção — deveria lhe trazer conforto, porém, só fez aumentar a torrente de lágrimas.
— Vai ficar tudo bem, querida — Chris sussurrou em seu ouvido, os seus braços fortes e familiares a apertaram ainda mais — estamos aqui.
Mas por quanto tempo? Uma voz perversa lhe soprou a pergunta.
A sua vida era ali, seus amigos, trabalho, sonhos. Tudo que a definia morava ali, naquela pequena cidade que nunca dormia. Apenas não tinha forças para começar do 0 e virar as costas para tudo que conhecia.
— Como pude ser tão estúpida? — porque não existia outra palavra para descrever aquele ato de rebeldia e vingança.
— Você foi corajosa pra c****e! — o seu amigo a corrigiu — só fez aquilo que todos nós já sentimos vontade de fazer um dia.
— Verdade — concordou Beth — sempre tive vontade de pôr fogo no Robert.
Perpétua sorriu, ainda derramava lágrimas impertinentes, no entanto, o aperto no seu peito — uma mistura de medo, culpa e raiva — afrouxou.
— Viu? — Christopher segurou o seu rosto com gentileza, os seus olhos cheios de ternura a encararam — todos temos um distúrbio mental potencialmente perigoso.
— Deus, como eu amo vocês.
— Sabemos disso — Charlie mudou de posição ficando ao seu lado e lançou ao irmão um sorriso conspiratório — somos adoráveis, é realmente impossível não nos amar.
— Bem, agora podemos comer, ou vocês pretendem ficar nessa novela a noite toda? — essas foram as palavras de conforto de King.
— É, vamos fingir que somos civilizados enquanto você nos conta sobre a sua reunião com Stephanovich — disse Elizabeth.
Mais calma, Perpétua contou ao grupo todo o seu encontro — desde o chá de cadeira à infame proposta. Foi interrompida algumas vezes pelos comentários sarcásticos de Christopher e King. Elizabeth ouviu tudo sem pronunciar uma palavra, o que não se pode dizer de Charlotte, que se equilibrou precariamente entre o horror e a indignação, durante todo o relato.
— Isso é um completo absurdo — todos estavam sentados em volta da ilha, em estágios diferentes da refeição, Apple dormia no bebê conforto no centro dela.
Contar toda a história tinha levado quase uma hora.
— Digno de um romance vitoriano — Chris soltou um sorriso debochado.
— Não é engraçado, Christopher — Charlie o repreendeu — ela pode ser presa por isso.
— Claro que é, porque coisas assim não acontecem na vida real.
Verdade. Perpétua pensou, entretanto, permaneceu quieta.
— Ele pode ser um psicopata.
Quase certo que seja. Afinal, ele não tinha exposto todo aquele plano surreal sem esboçar qualquer reação? Como se tudo fizesse total sentido.
— Exato, você pode acabar presa no porão dele.
Bom argumento. Mas já tinha descartado a hipótese.
— É furada, magrela! — essa foi a sentença profunda de King.
O debate estava ficando feroz.
— Acho que deveria aceitar — o tom calmo e sensato de Elizabeth sobrepujou a dos outros.
— Sério? — perguntou Chris, os três mosqueteiros a encararam com descrença.
— Por quê? — as palavras não tremeram ao serem pronunciadas por Perpétua, mas o medo da resposta estava lá, escondido em algum lugar.
— O seu caso é muito sério, os estadunidenses realmente não são gentis ou justos quando se trata de imigrantes — a fitou nos olhos — e ele é o advogado mais brilhante que já conheci.
E vindo dela, era um grande elogio.
— Não significa que ela tenha que casar com ele — o seu marido rebateu.
— Concordo, mas talvez lhe dê uma chance de ganhar uma causa perdida.
Após a sua sentença, um silêncio pesado caiu sobre eles — a verdade nua e crua, os esmagando.
Apple — louvada seja — acordou e começou a chorar, quebrando o encanto macabro.
Mas já era tarde, o medo já havia se instalado no coração de todos.
O resto da noite passou por Perpétua como um borrão, igual quando tinha oito anos, e foi a um enterro pela primeira vez. Lembrava-se dos cheiros e toques, mas todas as frases ditas, ocorreram muito lentamente para serem compreendidas, rostos distantes demais para suas expressões serem absorvidas.
Como em um sonho.
Quando se despediu do último amigo — Chris, que quase teve que ser posto para fora — a brasileira respirou fundo. Ignorou a louça, tomou um banho extremamente quente, e se meteu debaixo das cobertas.
Não pregou os olhos naquela noite, parou de fingir que dormia às 5 horas da manhã. Às 6 horas levantou-se e ficou andando pelo loft como um fantasma — completamente perdida entre os seus pensamentos. Com a luz do Sol que entrava pelas frestas da cortina da janela, veio uma certeza.
Não iria voltar para o Brasil.
Às 8 horas em ponto, ela fez uma ligação.
— Aceito a sua proposta.
Três palavras tão poderosas que selaram o seu destino.