A Criança da Lua
Dezoito anos antes.
A manhã chegou silenciosa à alcateia.
A pequena menina ainda dormia no quarto do Alfa, enrolada em um cobertor enquanto a luz do sol atravessava as cortinas.
Ele estava sentado ao lado da cama.
Não tinha conseguido dormir direito.
Toda vez que fechava os olhos, lembrava do momento em que a encontrou.
A floresta.
O choro.
Aquela marca.
A lua envolvendo a cabeça de um lobo.
Ele se levantou e caminhou até a janela.
— O que você acha que ela é? — perguntou mentalmente.
Seu lobo demorou alguns segundos para responder.
— Não sei.
— Você nunca viu uma marca como aquela?
— Nunca.
O Alfa franziu a testa.
Isso o preocupava.
Seu lobo conhecia as histórias antigas da alcateia. Sabia reconhecer cheiros, marcas e sinais de outras famílias.
Mas aquela criança parecia não pertencer a lugar algum.
Um pequeno movimento atrás dele chamou sua atenção.
Ela havia acordado.
Sentou-se na cama e olhou para ele.
— Bom dia.
A menina não respondeu.
Ele se aproximou devagar.
— Dormiu bem?
Ela assentiu.
— Você lembra do seu nome?
Ela ficou em silêncio.
O Alfa percebeu que talvez nem soubesse.
— Tudo bem. Não precisa responder.
Ele se ajoelhou diante dela.
— Até descobrirmos de onde você veio, você vai ficar aqui.
A menina o encarou.
— Aqui?
Era a primeira palavra que ela dizia desde que havia sido encontrada.
O Alfa sorriu.
— Aqui.
Ela olhou ao redor.
— Com você?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Comigo.
A menina sorriu pela primeira vez.
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Os dias passaram.
A alcateia começou a se acostumar com a presença dela.
Ninguém sabia de onde tinha vindo, mas todos perceberam rapidamente que havia algo diferente naquela criança.
Ela era tranquila.
Observadora.
E parecia possuir uma conexão incomum com a floresta.
Quando alguém a levava para perto das árvores, ela ficava completamente calma.
Os pássaros não fugiam quando ela se aproximava.
Os animais pareciam não ter medo dela.
E havia outra coisa.
Ela nunca adoecia.
Mesmo quando ficava exposta ao frio ou se machucava brincando, sua recuperação era rápida demais.
O Alfa começou a observar aquilo.
Certa tarde, ela caiu enquanto corria pelo jardim.
Um pequeno corte apareceu em sua mão.
Ela começou a chorar.
O Alfa correu até ela.
— Deixe-me ver.
Ele segurou a mão dela.
O corte estava ali.
Mas, diante dos olhos dele, começou a desaparecer.
O Alfa ficou imóvel.
— Isso não é possível.
Seu lobo rosnou dentro de sua mente.
— Eu sabia que havia algo diferente nela.
O corte desapareceu completamente.
A menina olhou para a própria mão.
— Não dói mais.
O Alfa não respondeu.
Ele apenas a pegou no colo.
Naquela noite, chamou os anciãos.
Precisava descobrir quem era aquela criança.
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Os anciãos examinaram a marca.
Um deles ficou pálido.
— Onde você encontrou essa menina?
— Na floresta.
— Sozinha?
— Sim.
O ancião passou os dedos sobre o desenho da lua.
— Alfa... existem histórias antigas sobre uma criança marcada pela Lua.
— Que histórias?
O homem respirou fundo.
— Dizem que, uma vez a cada muitas gerações, a Lua escolhe uma criança.
O Alfa permaneceu em silêncio.
— Uma criança com uma loba branca.
Ele olhou para a menina, que dormia no sofá.
— E o que dizem sobre ela?
O ancião hesitou.
— Que seu sangue pode curar.
O Alfa sentiu um arrepio.
— E o que acontece quando ela completa dezoito anos?
O ancião levantou os olhos.
— Ela desperta.
Silêncio.
— E depois?
O velho fechou o livro que segurava.
— Depois disso... a Lua escolhe o destino dela.
O Alfa olhou novamente para a criança.
Naquele momento, tomou uma decisão.
— Então ninguém vai saber.
— Alfa?
— Se o sangue dela realmente pode curar, outras alcateias podem tentar encontrá-la.
Ele se levantou.
— A partir de hoje, ela é protegida pela minha família.
O ancião assentiu.
E assim começou o segredo.
A menina cresceria dentro daquela alcateia.
Aprenderia suas regras.
Seria treinada.
Conheceria os filhos do Alfa.
E, quando completasse dezoito anos...
A Lua finalmente revelaria por que havia escolhido aquela criança.