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712 Words
Luiza aprendeu cedo que amor também pode ser ajuste. Não no sentido leve da palavra, mas naquele ajuste silencioso, quase doloroso, de quem vai dobrando partes de si para caber no espaço que o outro oferece. E com Felipe… foi assim que começou. Ela ainda tinha 21 quando o conheceu. Ele já era um homem estabelecido, 33 na época, com a vida organizada, horários definidos, ideias claras sobre o que queria para o futuro. Luiza era diferente disso tudo — intensa, espontânea, cheia de música por dentro. No início, ele até gostava dessa energia dela. Mas depois vieram os comentários leves, quase inocentes. — Você fala alto demais quando está animada. — Esse tipo de festa não combina com você. — Você fica mais bonita mais… calma. E ela ouviu. Não de uma vez. Não como imposição. Mas como quem escuta algo repetidas vezes até começar a acreditar. Quando decidiu se casar com ele, aos 23, Luiza já tinha feito uma escolha interna muito antes do pedido oficial: ela ia “diminuir” o lado dela que sobrava. Não porque ele exigiu. Mas porque ela queria dar certo. E porque, no fundo, ela acreditava que amor bom era aquele que não balança demais. Conversa com a mãe veio numa tarde qualquer, na cozinha da casa dela. A mãe percebeu antes mesmo de Luiza falar. — Você tá mudando — disse, sem julgamento, só observando. Luiza ficou em silêncio por alguns segundos, mexendo no café. — Eu tô ficando mais… estável. A mãe franziu a testa. — Ou você tá se apagando? Ela respirou fundo. — Mãe… ele é bom pra mim. Ele me trata bem. Ele me leva pra jantar, me respeita. Eu não quero perder isso por causa de uma parte minha que… não combina com essa vida. A irmã, que estava ali perto, soltou sem rodeio: — Então você vai esconder quem você é? Luiza não respondeu de imediato. Porque a resposta já estava tomada dentro dela. — Eu vou controlar isso. Não vou deixar isso atrapalhar. E assim ela fez. Não foi uma mudança brusca. Foi lenta. Quase imperceptível. Luiza virou a esposa perfeita. A mulher que acorda cedo, organiza tudo, mantém a casa impecável, lembra de cada detalhe da vida dele sem precisar ser lembrada. A que sorri quando ele chega cansado, que segura a mão dele no jantar, que pergunta do dia dele como se nada mais existisse além disso. — Hoje o Júlio vai estar no jantar — ele avisou uma vez, pelo telefone, antes de chegar. — Tá bom, amor. Eu preparo tudo — ela respondeu, com aquela voz leve que ela aprendeu a usar. E sorriu. Porque com ele, ela sempre sorria. Não era mentira. Ela realmente o amava. Só que o amor dela tinha camadas que ele nunca tocou. Naquela noite, quando ele chegou, Luiza já estava pronta. Vestido simples, cabelo alinhado, mesa posta. O perfume leve que ele dizia gostar. A casa em ordem, como sempre. Felipe entrou tirando o paletó, cansado, mas relaxando ao vê-la. — Você sempre resolve tudo, né? — ele disse, beijando a testa dela. Luiza segurou a mão dele por um instante mais longo do que o necessário. — Eu gosto de cuidar de você. E era verdade. Ela gostava. Só não era tudo o que ela era. Durante o jantar, ela riu das histórias dele, comentou o dia, serviu vinho, ouviu o amigo dele falar sobre trabalho. Em alguns momentos, apertava levemente os dedos dele por baixo da mesa — um gesto pequeno, íntimo, automático. Felipe olhava para ela e pensava que conhecia sua esposa. Que ela era tranquila, doce, previsível no melhor sentido. Mas o que ele não via era o relógio interno dela contando o tempo. Horas até ela poder voltar a ser inteira. Horas até o estúdio. Onde a música não pedia permissão. Onde o silêncio não era regra. Onde Luiza não precisava caber. E naquela mesma noite, quando a casa finalmente apagou as luzes e Felipe dormiu ao lado dela, Luiza ficou acordada alguns minutos a mais. Olhou o teto. E pensou, sem dizer em voz alta: “Eu te amo… mas você não me conhece por completo.” Então fechou os olhos. E esperou o dia seguinte repetir tudo de novo.
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