Mais tarde, a casa voltou a ganhar movimento normal, como se aquela manhã mais leve tivesse sido só um intervalo.
Felipe precisou sair para uma reunião importante. Vestiu o terno com pressa controlada, deu um beijo rápido em Luiza antes de sair e disse que provavelmente voltaria tarde.
— Você vai ficar bem? — ele perguntou no automático.
— Vou sim — ela respondeu com um sorriso leve. — Vou ver minha mãe um pouco.
Ele assentiu, confiante, e saiu.
Luiza ficou alguns segundos parada na porta depois que o carro dele foi embora.
E então respirou fundo.
Pegou o celular.
— Meninas… vocês quere. me encontra no studio preciso conversar?
Mônica respondeu quase na hora.
Lorena também.
O combinado foi simples, como sempre era quando era “o lado dela que respirava”.
Mas dessa vez não foi na casa da mãe.
Foi no estúdio.
Quando chegaram, o espaço parecia outro mundo dentro da cidade.
A música começou baixa, depois subiu. As luzes mais quentes, o ambiente mais solto. Luiza abriu algumas cervejas, colocou petiscos simples na mesa e tirou os sapatos quase automaticamente, como se o corpo lembrasse antes da mente.
As amigas já conheciam aquele lado dela.
Mas sempre reagiam do mesmo jeito — como se ainda fosse um contraste difícil de entender.
Mônica se jogou no sofá, olhando em volta.
— Eu não sei como você consegue viver assim… — ela falou, meio rindo, meio séria.
Luiza virou a garrafa na mão, encostando na bancada.
— Assim como?
Lorena respondeu primeiro, sem filtro:
— Você é muito carinhosa, muito amiga… mas também é muito… como eu vou dizer… livre demais pra viver nesse tipo de vida.
Luiza deu um sorriso curto.
— Classe alta, família importante… — Mônica completou. — Esse mundo todo que você tá dentro agora.
Luiza ficou em silêncio por um segundo.
Depois deu de ombros, como se a resposta já estivesse pronta há muito tempo.
— Eu não posso ser tudo o que eu sou o tempo todo.
As duas se olharam.
Luiza continuou, agora com mais sinceridade, mas sem dramatizar.
— Em alguns lugares… eu escolho uma versão minha. Mais calma. Mais… adequada. Porque se eu for inteira do jeito que eu sou aqui… nem tudo encaixa.
Lorena franziu a testa.
— Mas isso não te cansa?
Luiza respirou fundo, olhando para o copo na mão.
Por um instante, a imagem da casa veio na cabeça. De Felipe. Da rotina. Do jeito como ele a via.
E ela respondeu mais baixo:
— Cansa… às vezes. Mas eu aprendi a dividir.
Mônica ficou em silêncio por um tempo, depois falou:
— Você não devia precisar se dividir pra caber na vida de ninguém.
Luiza não respondeu de imediato.
Só sorriu de leve, mas não foi um sorriso feliz.
Foi um sorriso de quem já aceitou uma parte da própria realidade.
E ali, no estúdio, com música alta e amigas ao redor, ela dançou de novo.
Riu de novo.
Brindou.
Mas em algum momento, entre um gole e outro, entre uma música e outra…
ela olhou rápido para o celular.
Sem mensagem.
Sem chamado.
E por um segundo curto, quase imperceptível…
se perguntou se a versão dela que ele conhecia era suficiente pra ele continuar acreditando que conhecia ela inteira.
Mais tarde, Luiza voltou pra casa.
O carro parou em frente ao portão e, por alguns segundos, ela ficou ali dentro, só observando a luz da casa acesa. Era uma luz quente, familiar… mas naquela noite parecia um pouco mais séria.
Ela respirou fundo.
Pegou a bolsa e entrou.
A porta abriu com o toque da chave, e o som da casa a recebeu primeiro: silêncio organizado, o tipo de silêncio que dizia que ele já estava ali.
Felipe já tinha chegado.
Luiza fechou a porta devagar.
— Cheguei… — ela disse baixo, mais para anunciar do que para chamar.
Não veio resposta imediata.
Ela tirou os sapatos, deixou a bolsa na cadeira e caminhou pela sala. A casa estava arrumada como sempre, mas havia algo diferente no ar. Talvez o cansaço dele. Talvez o dela.
Quando virou o corredor, viu Felipe.
Ele estava sentado no sofá, sem paletó, camisa com as mangas dobradas, o olhar perdido por alguns segundos antes de levantar para ela.
— Oi — ele disse.
Simples.
Sem sorriso automático.
Luiza percebeu na hora.
— Você chegou cedo… — ela comentou, tentando manter leve.
Ele assentiu devagar.
— A reunião terminou mais rápido.
Silêncio.
Ela deu alguns passos mais para dentro da sala, deixando a bolsa em cima da mesa.
— Eu fui ver minha mãe… — ela disse, como tinha avisado antes. — Depois fiquei um pouco com as meninas.
Felipe observou ela em silêncio por um instante.
— No estúdio? — ele perguntou.
Luiza hesitou meio segundo.
— Sim.
Ele assentiu de novo, mas dessa vez o olhar ficou mais atento.
Não era desconfiança.
Era observação.
— E você ficou bem? — ele perguntou, depois de um tempo.
A pergunta veio diferente da habitual.
Menos automática.
Mais presente.
Luiza ficou um segundo parada, como se estivesse avaliando a própria resposta.
— Fiquei… — ela respondeu por fim. — Foi bom. Eu precisava disso.
Felipe inclinou levemente a cabeça.
— Entendi.
Mais silêncio.
Mas agora não era confortável como antes.
Luiza sentiu isso.
Ela se aproximou um pouco mais do sofá.
— Você tá estranho… — ela disse baixo, sem acusar.
Felipe soltou um suspiro leve pelo nariz.
— Não estranho… só pensando.
Ele fez uma pausa.
Depois olhou direto pra ela.
— Eu fiquei pensando no que você me disse hoje de manhã.
Luiza não respondeu de imediato. Só esperou.
Felipe continuou:
— Sobre você precisar caber menos… e eu precisar te ver mais.
O coração dela deu um leve aperto, mas ela manteve o rosto calmo.
— E?
Ele passou a mão pelo cabelo, devagar.
— E eu percebi que eu realmente não sei tudo sobre você, Luiza.
Silêncio.
Dessa vez, não foi desconfortável.
Foi honesto.
Ela respirou fundo, como se estivesse escolhendo não fugir da conversa.
— Ninguém sabe tudo sobre ninguém… — ela disse.
Felipe olhou pra ela por mais um segundo.
— Mas eu devia saber mais do que sei.
Luiza ficou quieta.
E naquele instante, a casa inteira pareceu esperar a resposta dela.