Elijah Narrando
Acordei cedo demais, antes mesmo do despertador tocar.
Era um hábito antigo. Meu corpo funcionava no relógio da empresa, não no do descanso. Levantei devagar para não fazer barulho. Melinda ainda dormia, ou pelo menos eu acreditava que dormia. Ela estava no quarto, eu no sofá, como havíamos combinado. Uma distância pequena, mas respeitosa. Necessária.
Fui para o banheiro, fiz minha rotina matinal no automático. Banho rápido, barba bem feita, camisa social bem passada. Enquanto me vestia, pensei nela. Sempre nela. Imaginei que, quando eu voltasse à noite, ela estaria sentada no sofá, cabelo meio preso, alguns fios soltos caindo no rosto, os óculos apoiados na ponta do nariz enquanto folheava algum livro antigo de romance. Aquela imagem me acompanhava sem pedir permissão.
Saí de casa ainda muito cedo. O prédio estava quase vazio. Apenas a equipe de segurança e algumas funcionárias da limpeza circulavam silenciosamente. Cumprimentei todos com um aceno de cabeça e segui direto para a empresa.
A Montgomery Industries era silenciosa naquele horário. Gosto disso. O silêncio me organiza. Fui direto para minha sala, deixei o paletó na cadeira e liguei o computador. Antes de qualquer reunião, antes de qualquer planilha, abri meu e-mail e escrevi para o investigador particular que eu mantinha em contrato.
Assunto: Maison Carter.
Pedi uma investigação completa. Histórico profissional, relações pessoais, movimentações financeiras. Tudo. Alguma coisa estava errada, e eu não ignorava sinais. Melinda não fica triste daquele jeito por nada. E eu não acredito em coincidências.
Enviei o e-mail e comecei o dia.
Reuniões atrás de reuniões. Relatórios financeiros, projeções de crescimento, análise de riscos, contratos internacionais. Ser diretor financeiro não era glamour; era responsabilidade. Cada decisão minha podia impactar centenas de famílias, milhares de empregos. Eu levava isso a sério. Sempre levei.
No horário do almoço, encontrei alguns diretores no restaurante executivo da empresa. Conversa protocolar, números, metas. Depois, meu tio Edgar se juntou a nós. Ele tinha aquele sorriso irônico que nunca vinha sem uma provocação.
— Seu pai não está nada feliz com esse seu namoro. — comentou, casualmente, enquanto mexia no prato.
Levantei os olhos devagar.
— Ele acha que é armação sua. — completou, sorrindo.
Dei um meio sorriso frio.
— O problema do meu pai é achar demais, falar demais e trabalhar de menos.
Meu tio riu, satisfeito.
Eles adoram isso. Na minha família, qualquer comentário desagradável sobre outro vira entretenimento. Rivalidade é o idioma oficial. Sempre foi assim. Um querendo o lugar do outro, um esperando o erro do outro. Impressionante como conseguimos transformar sangue em competição.
Voltei ao trabalho.
Passei a tarde inteira analisando balanços, renegociando contratos, ajustando números. Era bom estar ocupado. Mantinha minha mente longe de perguntas que eu ainda não queria fazer.
No fim do expediente, meu celular vibrou.
Mensagem do investigador.
Abri imediatamente. Ele confirmou que já havia iniciado a investigação sobre a madame Maison Carter. Histórico nebuloso, relações suspeitas, especialmente com homens poderosos. Ele disse que em breve teria algo concreto.
Fechei os olhos por um segundo.
Alguma coisa estava muito errada.
Saí da empresa já escurecendo. No caminho para casa, meu pensamento voltou para Melinda. Imaginei o sorriso dela, leve, aquele jeito doce de ocupar os espaços sem fazer barulho. Pensei no jantar que poderíamos ter, simples, talvez ela cozinhando, reclamando que a cozinha era grande demais.
Quando cheguei ao apartamento, algo estava diferente.
Silêncio.
Um silêncio pesado. Não o silêncio tranquilo de quem dorme ou lê, mas aquele que ecoa ausência. Entrei, larguei as chaves no aparador.
— Melinda?
Nada.
Andei pelo apartamento.
— Melinda?
Abri a porta do quarto. Vazio. O banheiro, organizado demais. A cozinha, limpa. O sofá arrumado.
Meu peito apertou.
Fui de cômodo em cômodo, com uma sensação estranha crescendo dentro de mim. Até que meus olhos pousaram no travesseiro que eu usava no sofá.
Havia um papel dobrado sobre ele.
Peguei com cuidado, como se fosse frágil demais para o mundo.
Reconheci a letra imediatamente.
“Elijah,
quando você ler isso, eu já vou ter ido.”
Meu coração falhou uma batida.
“Não foi fácil escrever, nem decidir. Mas ficar seria mais difícil ainda. O seu mundo é grande, poderoso, cheio de regras que eu nunca aprendi. Eu não caibo nele. Nunca coube.”
Engoli em seco.
“Você foi gentil comigo como ninguém jamais foi. Me protegeu sem saber. Me fez sonhar quando eu já tinha aprendido a não esperar nada. Por isso mesmo, eu preciso ir.”
Minhas mãos começaram a tremer.
“Eu preciso buscar o meu caminho, longe daqui, longe de tudo que pode te machucar por minha causa. Não tente me procurar. Não quero que isso vire um problema para você.”
O ar ficou pesado demais.
“Mesmo sendo um amor que não deveria existir, eu te amo. Vou te amar para sempre, do meu jeito silencioso, como aprendi a amar a vida inteira.”
As palavras ficaram borradas.
“Obrigada por tudo.
Assinado: Melinda”
As lágrimas caíram.
Sem aviso. Sem controle.
Ela foi embora.
E, pela primeira vez em muitos anos, eu entendi exatamente o que era perder algo que eu nem sabia que precisava tanto.
Desci pelo elevador sem sentir o chão sob meus pés. A carta ainda estava dobrada no bolso do paletó, pesada como se fosse feita de pedra. Assim que as portas se abriram no térreo, fui direto até o porteiro. Perguntei se ele viu uma jovem, dei as características da Melinda.
Ele franziu a testa, pensativo.
— Uma moça ruiva. — respondeu logo depois. — Magrinha de óculos, saiu bem cedinho. Pegou um táxi.
Meu peito apertou.
— Era ela. Você lembra o horário?
— Antes das oitos, confirmou. — Parecia apressada.
Pedi acesso às câmeras imediatamente. O chefe da segurança me acompanhou até a sala de monitoramento. Assistir às imagens foi pior do que eu esperava. Vi Melinda saindo do prédio com uma mala média em uma mão e uma caixa grande de livros na outra. Os óculos no rosto, o cabelo preso de qualquer jeito. Sozinha.
Ela entrou no táxi sem olhar para trás.
Anotei a placa.
Subi de volta ao apartamento apenas para confirmar o óbvio. O quarto estava vazio. Nenhuma roupa no armário. Nenhum livro sobre a mesa. Nenhum sinal de que ela tinha existido ali, além do espaço vazio que parecia gritar.
Peguei a chave do carro e saí.
Dirigi até a cooperativa de táxi com uma pressa que beirava o descontrole. Mostrei a placa, expliquei a situação. Em poucos minutos, chamaram o motorista.
— Eu deixei a moça na rodoviária interestadual. — ele disse, coçando a nuca. — Ela parecia nervosa, mas educada.
— Ela comentou o destino? — perguntei, já sabendo a resposta.
Ele balançou a cabeça.
— Não, senhor. Só pediu para descer lá dentro. Pagou em dinheiro.
Assenti, engolindo a frustração.
Rodoviária interestadual significava dezenas de caminhos. Centenas de destinos. Mil possibilidades.
Ela fugiu de mim.