20 - Elijah

1077 Words
Elijah Narrando Recebi o relatório completo ainda pela manhã. Li cada linha com calma, sem pressa, como quem aprecia um trabalho bem-feito. O atelier Maison Carter estava em ruínas. Mais de noventa por cento dos clientes haviam rescindido contratos, a reputação destruída pelo escândalo, fornecedores cobrando, processos trabalhistas antigos reaparecendo. A hipoteca do imóvel atrasada, dívidas empilhadas como peças mäl cortadas. Era só uma questão de tempo. Liguei para o meu advogado imediatamente. — Arremata as apólices — ordenei. — Todas que forem possíveis. Não quero negociação, quero posse. — Isso pode ser feito ainda hoje — ele respondeu. — Em poucas horas. — Faça. Quando os documentos chegaram, assinei um por um sem hesitar. Sorrindo. Não era prazer vazio, era a sensação de justiça sendo desenhada com linhas firmes. Agora, oficialmente, o atelier Maison Carter pertencia a mim. Depois do almoço, me preparei. Terno escuro, postura impecável, silêncio calculado. Fui até lá com meu advogado e um oficial de justiça. O prédio parecia menor do que eu lembrava. Fragilizado. Como tudo que é construído em cima de sujeira. Assim que entrei, a recepcionista me reconheceu. — Boa tarde, em que posso ajudar? — Oficial de justiça, estou procurando Maison Carter.— disse, sem elevar a voz. Ela engoliu seco e desapareceu pelo corredor. Minutos depois, Maison surgiu. Quando me viu, o sangue abandonou o rosto dela. Ficou pálida como papel. Eu não disse absolutamente nada. Apenas sustentei o olhar. O oficial de justiça deu um passo à frente. — Senhora Maison Carter, trago aqui a ordem de despejo — anunciou, profissional. — O imóvel e o atelier encontram-se, a partir deste momento, sob posse do novo proprietário. Ela me olhou, os olhos arregalados, procurando alguma reação. Continuei em silêncio. — Isso é um absurdo! — ela explodiu. — Eu posso renegociar a dívida, isso é só um mäl-entendido! — Não é — respondeu o oficial, firme. — A senhora tem alguns minutos para retirar apenas pertences pessoais. Caso se recuse, serei obrigado a acionar a polícia. Ela respirava rápido, os dedos tremendo. — Me dê um momento — pediu, quase num sussurro. Assenti com a cabeça e me sentei no sofá da recepção. Esperei pacientemente. Sem pressa. Sem prazer exibido. Alguns minutos depois, ela saiu acompanhada de duas funcionárias, carregando bolsas e caixas pequenas. Nenhuma delas olhou para mim. Maison, sim. Olhou. Cheia de ódio. De medo. De humilhação. Não disse nada. Quando a porta se fechou atrás delas, levantei-me. — Troquem as fechaduras agora — ordenei ao meu chefe de segurança. — Quero dois homens na porta. Vinte e quatro horas. — Sim, senhor. Olhei em volta uma última vez. Aqui ela não entra mais. No caminho de volta para a empresa, meu telefone tocou. O nome do meu pai apareceu na tela. Atendi. — O que você pensa que está fazendo? — ele rosnou, sem sequer cumprimentar. Respirei fundo, mantendo a voz controlada. — Justiça. — Você enlouqueceu! — Não — respondi frio. — Só estou fazendo a coisa certa. Desliguei antes que ele dissesse qualquer outra coisa. O silêncio voltou a ocupar o carro. E, pela primeira vez em muito tempo, ele não me incomodou. Quando voltei para o meu prédio já era noite, o pressentimento veio antes mesmo de eu sair do carro. Meu pai estava na recepção. Em pé. Reto demais. Olhar duro demais. Esperando. Olhei para o porteiro e fiz um gesto curto com a cabeça. — Pode subir — disse ao meu pai, antes mesmo que ele abrisse a boca. Ele não respondeu. Apenas entrou no elevador comigo. O silêncio ali dentro era pesado, carregado de tudo que nunca foi dito naquela família. Eu conhecia aquele olhar. Conhecia aquele jeito de respirar contido. Sabia que vinha briga. Assim que entramos no meu apartamento, ele não esperou nem que a porta fechasse direito. — Você passou de todos os limites, Elijah — ele disse, a voz baixa, perigosa. — Se aliar ao Edigar para Expor minha vida desse jeito? Tomar o atelier da Maison? Você enlouqueceu? Fechei a porta com calma. Tirei o paletó. Coloquei sobre a poltrona. Só então encarei aquele homem que biologicamente era meu pai. — Não mude o foco — respondi frio. — Eu sei exatamente o que você fez. Ele deu uma risada curta, cínica. — Do que você está falando? — Da Melinda — falei, direto. — Você exigiu que ela fosse demitida. Mandou aquela mulher nojenta pressioná-la. E depois, você a coagiu a ir embora. O rosto dele endureceu. — Não fale besteira. — Ela sumiu — continuei, sentindo o sangue ferver. — Sumiu no dia seguinte ao jantar. Chorando. Com medo. E eu sei muito bem de quem ela tinha medo. Ele avançou um passo. — Aquela garota não é nada, Elijah. Uma ninguém. Uma órfã que se aproveitou de você. Foi ali que eu perdi a paciência. — Cala a boca — rosnei. — Você não fala dela. Nunca mais. Ele me encarou, os olhos cheios de ódio. — Isso não vai ficar assim — ele ameaçou, a voz controlada. — Você mexeu com coisas grandes demais. Pessoas demais. Cruzei os braços, mantendo a postura firme. — Eu sei exatamente com quem mexi — respondi. — E não tenho medo. — Você acha mesmo que pode proteger essa garota? — ele provocou. — Acha que pode enfrentar tudo isso por causa de uma ruivinha qualquer? Dei um passo à frente, ficando bem perto dele. — Ela não é qualquer — falei baixo, cada palavra pesada. — E eu vou encontrá-la. Pode ter certeza disso. Ele me empurrou com o olhar, mas não tocou. — Se você continuar, vai se arrepender — disse. Sorri de lado. Um sorriso frio. — A única coisa que eu me arrependo — respondi — é de ter demorado tanto pra enxergar quem você realmente é. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Ele respirou fundo, ajeitou o paletó e se virou para sair. — Isso ainda não acabou — disse, antes de abrir a porta. — Nunca esteve acabado — respondi. Quando a porta se fechou, apoiei as mãos no encosto do sofá e fechei os olhos por um segundo. Meu coração batia forte, mas minha decisão estava tomada. Eu conhecia meu pai. Conhecia suas sombras. Suas ameaças veladas nunca vinham vazias. Chega de distância. Chega de investigar de longe. Era hora de ir atrás da minha ruivinha. De encontrá-la. E, principalmente, de protegê-la de perto.
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