Capítulo 4 Ironia

1628 Words
Carolina passou a manhã deliberando ordens sobre o casamento da irmã, foi uma das primeiras a chegar no salão da festa, tudo tinha que estar organizado até as quinze horas, seu horário no salão onde a irmã estava. Enquanto Íris era massageada e acalmada, Carol colocava todos sob o julgo do casamento perfeito da sua irmã caçula e única. Neusa apareceu para o almoço e não foi surpresa que Bruno viesse a tira-colo. Ela ofereceu-lhe um sorriso educado quando ele sentou-se ao seu lado na mesa e beijou-lhe a bochecha. Bruno era um bom homem, um rapaz agradável, seria um marido e um pai maravilhosos, mas não para ela. Carol podia estar apaixonada por Pedro, mas não se via largando o direito para ser babá ou dona de casa. Foi um almoço muito agradável e gostoso, uma lasanha feita com cordeiro, Neusa havia escolhido um restaurante incrível. A conversa durante o almoço era de quem não via a hora de ter o filho casado. — Sentimos tanto sua falta, por que não volta para São Bernardo? — Neusa perguntou com sinceridade genuína. — Seria bom que os filhos deles tivessem a tia por perto, Íris quer ter quatro filhos. Carolina sorriu, adoraria ser tia em tempo integral, mas não se via abandonando seu cantinho, a cobertura tinha a sua cara, amava o bairro e se sentia em casa. — Neusa de São Paulo para cá leva pouco menos de duas horas. Bobeou eu estou aqui, mesmo em dias de trânsito caótico. — Ah, mas tem tantos escritórios de advocacia aqui também e não tem trânsito. — Neusa — Seu Jorge olhou para a esposa gentilmente. — Carolina tem sua própria vida, não tem? — Ela arrumou um namoradinho lá, nada sério, mas eu a queria aqui. — Pedro e eu estamos muito felizes juntos. — Então, estou feliz por você — falou Neusa — Mas se quiser voltar, você tem a minha casa. — Obrigada. — Carol suspirou, amanhã estaria em casa. Como poderia explicar à mãe de Bruno que, por mais que valorizasse a amizade dele, era impossível amá-lo como um homem? Era estranho falar de t***o com quem queria ser sua sogra. Quando se despediram, Bruno a levou novamente ao salão de festas, e num impulso, a beijou com firmeza e desejo. Ela se debateu, até que ele, relutante, a soltou. — Bruno, você está louco? Você sabe que eu... — Em nome dos velhos tempos, Carolina? — Eu não quero mais, p***a! Você acha que me agarrando, eu vou querer? — Eu te amo, esse cara aí só te usa, eu caso com você, arrumo o melhor escritório pra você em São Bernardo e nunca mais falamos disso. — Bru, nós já estivemos juntos e eu não sinto amor o suficiente pra você querer casar. — Por favor... — Ela entrou no salão lhe virando às costas. Ao sentar-se, checou seu iPhone e viu uma mensagem de Pedro. Ligou para ele, precisava ouvir aquela voz. — Oi. — Está sentindo muita falta de mim, ou está correndo tanto que nem lembra de mim? — Acabei de almoçar, estava tão concentrada na lasanha que te esqueci por um tempinho — permitiu-se mentir, e o ouviu dar uma gargalhada — Como foi seu dia? Ele foi bastante evasivo e Carol decidiu sondar. — Bruno me pediu em casamento, ele acha que eu morar em São Paulo é um erro, e esse assunto te incomoda? — ela perguntou tensa. — Deveria me incomodar? — Pobre de mim, achei que sentiria um pouquinho de ciúme. — Eu o entendo, que homem não ficaria encantado ao te ter, ou devastado ao te perder? — ela engoliu em seco, podia ver que ele realmente não se importava — Não vai me responder, Carolina? — Você quer uma resposta obscena ou quer que eu diga o que sinto? — A última opção leva a uma coisa difícil de lidar. — Ele deu uma leve risada. — Como vai o caso? — ela mudou de assunto. — O promotor é dos bons, vai ser complexo. — Difícil demais? — Carol olhou para as flores que começavam a enfeitar o ambiente. — Difícil, não impossível — respondeu Pedro. — Achei que você não soubesse perder. — Eu não perco nada quando tenho interesse de ganhar. — Não trabalhe demais, meu querido — ela sorriu mexendo numa pétala, será que ela valeria uma luta para ele? E por que isso era importante? Levantou-se rapidamente depois de desligar o telefone, sentiu uma tontura imediata. O estômago embrulhou e ela pensou na lasanha. Era uma maravilha ficar enjoada justamente no dia do casamento. E em um clique notou que não estava menstruada, havia escolhido o vestido vinho por conta de seu fluxo. Não seria possível, seria? Foi até a esquina, entrou na farmácia e pegou um teste de gravidez e o guardou na bolsa. Se preocuparia com aquilo mais tarde. O casamento da irmã foi esplêndido, valsaram como dois pombinhos, saíram para a lua de mel. Carolina acenava para Íris quando uma onda de enjoo a invadiu, ela correu para o banheiro e decidiu fazer o teste de gravidez. Seguiu as instruções, fez uma prece silenciosa e esperou pelo resultado. Duas listras fortes e rosas! Ela estava grávida. Pegou o iPhone e marcou uma consulta em seu plano de saúde, pela manhã teria a certeza disso. Não ia se precipitar por um enjoo bobo e um teste de farmácia. Não voltou para São Paulo, ligou para o escritório e alegou uma virose. Colocou uma roupa simples e foi para o prédio onde sua consulta estava marcada. O grupo do w******p fervia, Lana estava noiva de Pedro, um jantar havia acontecido no mesmo dia do casamento da irmã. Por um momento, Carolina achou que o coração iria parar e que não poderia respirar, olhou para a porta do consultório e pensou no teste positivo que trazia na bolsa. Pedro falou com ela na hora do almoço, por isso zombou enquanto a tonta pensou que lhe fazia ciúmes. Ela era somente uma b****a fácil, é isso ela era fácil, ele nunca encontrou resistência, Carolina não saberia dizer d quanto tempo ficou sentada ali, até que a atendente lhe chamou. Não saberia dizer o que sentiu quando viu a tela do ultrassom, quase oito semanas de gravidez, soube que o antibiótico que tomara para o canal cortava o efeito do anticoncepcional, o timing do universo era c***l demais. Ela não sabia se ria ou chorava. Estava grávida de um homem noivo de outra mulher. Queria falar com sua irmã, e Íris não deveria voltar para São Bernardo antes do próximo sábado. O ideal era interromper a gravidez, mas sabia que não seria capaz de fazê-lo. Filho de mãe solo, a especulação sobre quem seria o pai da criança, todo mundo saberia que ela foi só o depósito de p***a mesmo. Riu desesperada ao pensar em Lana certa, logo ela veria sua barriga grande e zombaria ainda mais da situação. Alugou um Airbnb em São Bernardo, pegou as chaves ao meio dia, ficaria uma semana ali, precisava de força para enfrentar o que viria a seguir. E se Pedro pedisse que ela tirasse o filho? Suspirou triste, deitou na cama e dormiu pesadamente. Acordou com o toque insistente do Iphone. — Alô? — Quero desculpar-me por ontem . Eu fiquei fora de controle – Era Bruno. Carol começou a chorar, estava exausta e com medo. — Bruno... — Sim ou não? — Me dê tempo? Eu estou com um problema e provavelmente vou ficar em São Bernardo indefinidamente, não faltará oportunidades de conversar. — O que aconteceu? Ela desligou o telefone sem responder, olhou a tela do Iphone, nenhum sinal de Pedro. No grupo havia mais de seiscentas mensagens, ela ignorou e foi até a varanda. O enjoo pelo menos havia sumido. Ligou a TV e logou a Netflix, o toque do iPhone interrompeu sua busca por filmes. — Por acaso a acordei? — A voz rouca de Pedro tinha um quê de divertida — Tenho novidades. — Estava em um sono profundo — ela pensou na relação estranha deles. — Você pareceu surpresa ao atender. Foi muito tarde para a cama? Se divertiu no casamento? — Muito. E você? — Bem, ontem teve um jantar íntimo, e hoje passei o dia todo no tribunal, acabo de sair... Carolina fechou os olhos e custou para reabri-los. — Eu soube, o jantar é sobre o rolê com a Lana? — Rolê? Gostei, Sim, foi sobre isso. Então era verdade, e ele falava como se não ligasse para os sentimentos dela. — Devo lhe dar parabéns? Houve um segundo de silêncio. — Ainda não... A notícia ainda não é oficial. Carol jogou o iPhone pela janela numa atitude irresponsável e imatura, ligou o notebook, logou no ifood e desconectou do w******p. Pediu uma pizza, mandou um e-mail para o escritório e sumiu do radar, precisava pensar, precisava saber como agir para poder voltar para casa com dignidade. Foi para a casa da irmã e junto com Bruno a recepcionou na volta da Lua de Mel. — Carol eu tentei te ligar todos esses dias, o seu escritório está ligando para mim, me disseram que você sumiu. — Estou no centro de São Bernardo e estou sem telefone. Estou providenciando. — O que aconteceu? — Íris alisou o cabelo da irmã que sorriu como se não estivesse em uma visita ao inferno. — Deixe Carol viver — Wagner disse — Vamos comer algo. O marido arrastou a irmã e ela saiu à francesa. Foi para seu cantinho. Pediu comida e adormeceu. Acordou com Íris batendo na porta do apartamento. — Eu revirei São Bernardo e agora você vai me contar o que está acontecendo.
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