Lembranças

1115 Words
Lembranças* Cauã O rádio estalou na minha cintura antes mesmo de eu terminar de dar o repasse na contenção do setor três. A voz do Léo veio cortada pela interferência, mas com um peso incostumável. — Patrão... o Mostro tá mandando você subir pra mansão agora. Negócio é sério. Não fiz perguntas. No morro, quando a ordem vem direto do velho, você não questiona, você cumpre. Arrancai a moto pela ladeira principal, cortando os becos sob um céu denso, carregado de nuvens pretas que ameaçavam desabar a qualquer segundo. O vento frio batia no meu rosto, mas o calor da premonição no meu peito era incômodo. Eu já sabia o que tinha acontecido antes mesmo de cruzar o portão de ferro. Assim que entrei na sala espaçosa da mansão, o silêncio era gélido, pesado, quase sufocante. Meu pai estava parado perto da janela grande, de costas, olhando para o nada. Ele nem se deu ao trabalho de se virar quando escutou os meus passos. — Ela se foi — a voz do velho saiu seca, sem tremor, sem pausa, como se estivesse me dando o relatório de uma carga perdida. — O coração da sua madrasta parou há vinte minutos. Preciso resolver o velório e a burocracia do enterro antes que o dia amanheça. Eu estanquei no meio da sala. Antes que eu pudesse articular qualquer resposta, um soluçar abafado quebrou o silêncio do casarão. Olhei em direção à escada de madeira maciça. Lorena vinha descendo os degraus aos prantos, os passos incertos, uma das mãos segurando o corrimão como se aquilo fosse a única coisa impedindo o corpo dela de desabar. O rosto pequeno estava vermelho, inchado, os olhos marejados transbordando uma dor pura e crua que parecia grande demais para o corpo de uma garota de apenas dezessete anos. Ela vestia um moletom largo e parecia tão pequena, tão absurdamente vulnerável, que por um segundo a sala pareceu grande e hostil demais para ela. Do lado de fora, a tempestade finalmente desabou. O barulho da chuva forte golpeando os vidros da mansão começou a ecoar, transformando a sala em um cenário ainda mais sombrio. O chiado do rádio na cintura do meu pai cortou o choro dela. — Seu Antônio, o pessoal da funerária acabou de encostar na garagem. — Libera o acesso — o velho respondeu, sem hesitar um segundo. Eu recuei dois passos, me encostando no canto da parede perto da entrada, me mantendo na sombra como sempre fiz. Acompanhei a cena em silêncio absoluto. Dois homens de preto entraram carregando uma maca dobrável e subiram as escadas rápido. Meu pai dava as ordens com a frieza de um general no campo de batalha, indicando o caminho, sem deixar transparecer uma única gota de lágrima pelo falecimento da mulher que compartilhou a cama com ele nos últimos anos. Lorena observava tudo da ponta do sofá, encolhida, cravando as unhas no próprio braço para tentar segurar os gritos de desespero que travavam na sua garganta. Minutos depois, os homens desceram a escada. Sobre a maca, um corpo cobria-se por uma espécie de lona cinza e impermeável. A imagem era dura, c***l, sem nenhum tipo de delicadeza. A vida de uma pessoa reduzida àquele volume inerte sendo transportado pelo meio da sala. Quando os homens cruzaram a porta de saída, meu pai pegou o casaco sobre a poltrona e se virou para Lorena. — Fique aqui — a voz dele foi firme, mas sem aspereza, quase paternal, daquele jeito carinhoso que ele só usava com ela e que sempre me fazia franzir o testa. — Vou cuidar de tudo na funerária e organizar o sepultamento. Volto quando tiver tudo resolvido. Em seguida, o velho virou a cara na minha direção. A expressão dele mudou no mesmo milissegundo. O olhar amolecido sumiu, dando lugar ao homem duro e implacável de sempre. Ele me encarou no fundo dos olhos, sustentando uma autoridade que não admitia contestação. — Você fica — ordenou, a voz como uma sentença. — Cuida da Lorena. Não sai desta casa por nada. Entendeu? Ele nem esperou minha resposta. Não deixou margem para argumentos, recusas ou perguntas. Girou sobre os calcanhares e saiu. O estalo do clack da porta pesada se fechando ecoou pela sala como o disparo de uma arma em um recinto fechado. O som do trinco selou o isolamento daquela casa. No exato instante em que o eco da porta sumiu, a estrutura da Lorena ruiu por completo. As pernas dela simplesmente cederam. Ela se encostou na parede lateral da escada e escorregou até o chão, desabando em prantos dolorosos, altos, de rasgar o peito. O choro dela se misturava ao barulho da chuva caindo furiosa do lado de fora, criando uma sinfonia de dor que impregnava cada centímetro daquele ambiente. Eu continuei parado no meu canto. Por alguns longos segundos, o meu primeiro impulso foi dar as costas. Deixá-la ali com o próprio luto. Afinal, eu era o irmão postiço distante, o cara que passou anos mantendo a cara fechada e levantando muros invisíveis entre nós. Eu não sabia como consolar ninguém. A mim, ensinaram a engolir a dor, a trancar a fraqueza no fundo do peito e seguir em frente. Mas a verdade é que a cena que eu estava presenciando quebrou algo muito fundo dentro de mim. A armadura pesada que eu passei a vida inteira construindo para me proteger do afeto estalou. Ver a garota que sempre teve tudo, a princesa da casa, reduzida àquele pedaço de desespero no chão frio da sala, fez surgir um aperto sufocante no meu peito. Um sentimento estranho, denso e avassalador que eu não consegui controlar. A passos incertos, quase vacilantes, comecei a caminhar na direção dela. Cada passo parecia pesar uma tonelada. O assoalho de madeira nem sequer estalou sob o peso do meu corpo. Um trovão alto e ensurdecedor ecoou do lado de fora, iluminando a sala com um clarão rápido através da janela, seguido pelo estrondo que fez as estruturas da mansão vibrarem. Lorena nem sequer se mexeu; continuou com o rosto escondido entre os joelhos, o corpo todo sacudindo pelos soluços incontroláveis. Acheguei perto. Sem dizer uma única palavra, sem emitir nenhum som, dobrei os joelhos e me permiti sentar no chão frio de madeira, exatamente ao lado dela. Apertei as costas contra a mesma parede em que ela estava encostada. Ficamos ali, lado a lado, separados por poucos centímetros de espaço, ouvindo a tempestade do lado de fora e o som do choro dela. Pela primeira vez na vida, estive ao alcance da mão de Lorena sem a sombra do meu pai entre nós. E pela primeira vez na vida, não tentei me afastar.
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