Prologo

565 Words
Cauã A dor da perda é a primeira coisa que um garoto aprende quando nasce no topo do morro. Eu tinha só oito anos quando a minha mãe deu o último suspiro naquela mesma cama onde meu pai hoje definha. Lembro do silêncio que tomou a mansão, interrompido apenas pelo som do rádio estalando nos braços dos soldados lá fora. Naquela noite, meu pai me puxou pelo ombro com uma força que quase me machucou e disse que o choro era um luxo que o herdeiro do morro não podia se dar. Fui criado sob uma linha rígida, de ferro e comando duro. Enquanto os outros moleques da minha idade jogavam bola na viela ou soltavam pipa no lajeado, eu aprendia a desmontar uma Glock de olhos fechados, a ler o olhar de um traidor e a entender que o medo mantém o respeito, mas a disciplina mantém o poder. Meu pai nunca me tratou como um filho comum; eu era o seu sucessor, o futuro dono disso tudo. E aí, quando eu tinha doze anos, o velho trouxe o inesperado para dentro de casa: uma nova esposa. E, a tiracolo com ela, uma garotinha de quatro anos, de olhos castanhos expressivos e uma fragilidade que parecia ter saído de um mundo que não combinava em nada com o nosso inferno. Lorena. No começo, o que eu senti foi puro ciúme. Ela roubava a pouca atenção que meu pai me dava. Era risada alta na mesa de jantar, brinquedo espalhado pela sala e uma delicadeza que me irritava. Mas o tempo é um bicho traiçoeiro. À medida que os anos passavam, aquela irritação virou uma necessidade estranha e perturbadora de saber exatamente onde ela estava. A vida nos deu rasteiras sequenciais. A mãe dela adoeceu e se foi há um ano, deixando Lorena destruída. Eu fui o ombro em que ela chorou na calada da noite, o abrigo onde ela se escondia quando o luto pesava. Ela me pedia para ficar, quando eu sabia que precisava fugir. A comunidade olhava para a gente e via dois irmãos criados sob a proteção do mesmo teto. Só que eu nunca me senti irmão dela. Toda vez que eu a via crescer, o sentimento que eu achava ser proteção de irmão mais velho foi se transformando em algo sombrio, denso e perigoso. Uma possessividade doentia que me fazia querer arrancar a cabeça de qualquer moleque da favela que ousasse olhar para ela por mais de dois segundos. Agora, meu pai está acamado no andar de cima, contando os seus últimos dias, debilitado, mas ainda sustentando a sombra da sua autoridade sobre esta casa. O morro já é meu na prática e logo será no papel. Sou o homem mais temido desta favela, o comandante de centenas de homens armados. Mas a minha maior guerra não é contra os invasores ou contra a polícia. A minha maior guerra acontece toda vez que cruzo com a Lorena no corredor dessa mansão, sinto o cheiro de lavanda da pele dela e percebo que a menininha que eu devia proteger virou uma mulher que eu desejo com cada gota do meu sangue. Meu pai ainda respira no quarto ao lado. A favela ainda nos chama de irmãos. O segredo é um crime de lesa-pátria dentro da nossa própria família. Mas no nosso mundo, o que o Dono do Morro deseja... ele toma.
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