Uma forte tempestade caia na escuridão de uma pequena cidade no interior. Grande parte da população se encontrava em sua residência, muitos desfrutando um bom cobertor e chocolate quente. Lá fora, a chuva lavava as ruas desertas levando as folhas secas do outono. De madrugada, as luzes dos postes pareciam não iluminar quase nada. A rua trazia solidão e logo a pequena tempestade foi partindo ficando apenas pequenos pingos de chuva, que também fracos seguiram seu caminho, deixando a rua molhada e triste. No meio de tanto silêncio, um grito de dor ecoou de uma mulher deitada em um colchonete no chão.
-Mãe, eu não vou aguentar! -chorava ela entre um soluço e outro.
-Você consegue sim. Aguente firme! Use toda tua força... -falou a senhora tentando acalmá-la observando se a criança estava saindo.
-Estou passando m*l! Vou desmaiar... -a moça esperneava-se desesperada. - Tem alguma coisa errada mãe.... Tem alguma coisa...
-Agora não. Vamos lá, pelo amor de Deus! - continuava tentando acreditar que os reclames da filha não passavam de ansiedade.
A garota gemia, se contorcia e sem mais forças estava prestes a desistir de lutar.
-Estou vendo a cabeça, filha. Faz mais uma força, está vindo.
Mais alguns gritos de dor e enfim o bebê veio ao mundo.
-É um menino, filha... É um lindo garotinho! - disse com um suspiro de emoção e alívio.
A moça olhou comovida para a criança que chorava fracamente, ainda tentando se adaptar a sua vida extra-uterina. A senhora envolveu o bebê em uma toalha velha e terminou de fazer alguns improvisados cuidados, entregou-o para a filha enquanto limpava o corpo dela sujo de sangue e vérnix. A jovem olhou todo corpinho do recém-nascido e se fixou em seus pequenos olhos por um bom tempo. Duas lágrimas rolaram.
-Obrigada meu Deus...
-Descanse. Está precisando muito! - respondeu a velha grosseiramente.
Isabel continuou observando a criança fixamente segurando com delicadeza suas mãozinhas. Sentiu um perfeito bem-estar, sua angústia pareceu diminuir. Assim que decidiu se acomodar melhor e mudar sua posição, lhe veio uma intensa tontura. Encostou-se vagarosamente nas costas de uma cadeira.
-Mãe, me sinto muito fraca, minha cabeça está estourando! -reclamou quase fechando os olhos.
-Não fale nada filha! Você só está cansada por causa do parto! -tentou explicar a velha terminando de limpá-la com um pano.
-Me sinto estranha... Será que eu vou morrer? - disse tristemente entre suspiros fracos.
-Claro que não Isabel. Você é muito preocupada... Seu filho está aí nos seus braços, está ótima...
-Vejo estrelas... -estranhou a moça com os olhos quase fechados.
Antônia encarou a filha por alguns segundos. Isabel lentamente abaixou a cabeça, olhou exaustivamente para o bebê e estendeu um leve sorriso emocionado.
- Felipe!
A mulher fechou os olhos. Depois de um tempo em silêncio, novamente gemeu baixinho.
-Mãe, cuida dele para mim!
-Filha, por que está falando isso? Pare com essa besteira!
-A senhora não entende... Eu não estou bem.
A velha olhou novamente para filha e observou sua palidez. Antes que pudesse falar mais algo, a garota perdeu a consciência e teve sua primeira convulsão.
-Ai meu Deus! - gritou a mulher tratando de puxar a criança dos braços dela.
Desesperada colocou o bebê em cima de um colchão sujo e velho e retornou rapidamente a Isabel. Quando a crise acabou, deu fortes tapas no rosto da moça. Sem sucesso com a tentativa, gritou:
-Me espere Isabel! Por favor, aguente firme.
A senhora olhou rápido para o netinho choroso mastigando a própria mãozinha, não podia perder tempo. Saindo da lona que moravam, sem saber primeiro para onde ir, correu pelas ruas batendo nas portas das casas de todos os vizinhos suplicando por ajuda. Ninguém abriu.
Era Natal. Antônia chegou à conclusão que ninguém estava disposto a estragar aquele lindo dia com ela, famosa por muitas vezes fazer o mesmo escândalo para pedir dinheiro quando bêbada. Ao mesmo tempo estranhou a reação das pessoas, pois pareciam não a escutar por mais que ela gritasse absurdamente alto e esmurrasse com força as portas. O que estava acontecendo?
Todos os comércios estavam fechados, não havia nenhum carro ou pedestre na rua. Aflita, correu para um orelhão, porém estava quebrado. Sem saber mais o que fazer voltou ao encontro da filha e do neto.
-Filha... -gritou caindo sobre a moça desfalecida que parecia ter tido outra convulsão - Fala comigo... Por favor... Alguém... Por favor, alguém...
Ao não sentir o pulso de Isabel, Antônia a sacudiu, tentou fazer massagem cardíaca, respiração boca-a-boca como uma forma desesperada de talvez voltar sua vida. Ao ver que era inútil, chorou amargamente.
-O que aconteceu com você meu amor? -perguntou entre um suspiro e outro deitando sobre o corpo.
Após muito tempo chorando, a velha escutou um pequeno gemido seguido de um choro fraco do pequeno Felipe. Arrastando-se no chão arrasada, pegou o p***e e indefeso bebê para aquecê-lo.
Naquele momento, lhe veio um leve calafrio que cobriu um pouco sua tristeza. Meio confusa, continuou abraçada a criança, como se ela lhe trouxesse conforto. Um pouco impressionada com aquela sensação virou-se lentamente para ela e olhou pela primeira vez seus olhinhos.
-Meu... Deus!