Capítulo 39. Pós evento

1018 Words
Ao longo do evento, o silêncio entre os dois virou uma barreira quase visível. Adrian conversava com investidores, engenheiros e aliados de seu pai; postura impecável, sorriso calculado, olhar sempre firme mas nunca na direção de Eleonora. Eleonora, por sua vez, circulava pelo salão ao lado da mãe, cumprimentando convidados, sorrindo para fotos, elogiando o design do carro, sendo a filha perfeita… enquanto fingia não perceber quando o olhar dele, inevitável, pousava nela por um segundo e desaparecia tão rápido quanto vinha. Era como se os dois dividissem o mesmo espaço, a mesma luz, o mesmo ar… mas vivendo em mundos completamente separados. Quando o evento finalmente se aproximou do fim, os convidados foram se despedindo. Os pais de Adrian e Eleonora recebiam elogios pelo lançamento grandioso. Eleonora respirou fundo, ajeitou o coque perfeito embora algumas mechas já tivessem escapado e caminhou até os pais de Adrian para se despedir. — Sr. e Sra. Ashbourn, obrigada pela noite — disse ela com sua educação impecável, mesmo cansada. — O evento estava impecável. A mãe de Adrian, sorrindo calorosamente, segurou as mãos dela. — Ah, querida, obrigada por vir. Ficamos tão felizes em ter vocês aqui… O pai de Adrian acenou, satisfeito, já chamando um funcionário para buscar algo no carro. Eleonora sorriu, prestes a se afastar. Mas a mãe de Adrian continuou, como se fosse a coisa mais natural do mundo: — Aliás, vocês não vão para casa hoje. Eleonora piscou. — Como assim ? — Não! — riu a mulher, como se fosse óbvio. — Os Ashbourn e os Montreuil precisam de uma noite juntos como quando vocês eram crianças. Já mandei arrumarem os quartos. O coração dela deu um salto. — Eu… desculpe, mas… não estava sabendo. — Ah, querida — aproximou-se a mãe de Adrian, baixando a voz e passando o braço pelo dela de modo quase cúmplice — esses dois homens vivem decidindo tudo de última hora. Ontem mesmo eles combinaram que iam aproveitar para revisar uns contratos cedo amanhã. E já que vocês estudam no mesmo internato, achei que seria ótimo para os dois descansarem juntos. Juntos. A palavra ecoou na cabeça de Eleonora com força demais. Ela tentou manter o sorriso. — Claro… sera ótimo, Clara. — disse, mesmo que seu estômago tivesse acabado de despencar. A mãe de Adrian apertou sua mão, carinhosa. — Adrian ficará feliz em ter você lá. Faz tempo que vocês não passam uma noite assim não é? Eleonora quase engasgou na própria respiração. — É… faz. Foi nesse momento que ela sentiu antes mesmo de ver o olhar de Adrian se aproximando. Ele vinha vindo com o pai, claramente pronto para ir embora, mas congelou quando ouviu a última frase. Os olhos dele encontraram os dela. Eleonora desejou, por um instante absurdo, sumir no carpete do salão. O pai de Adrian riu, orgulhoso: — Estão prontos? Vamos para casa. Vai ser bom ver vocês dois juntos de novo. Adrian apenas arqueou uma sobrancelha, devagar. Não disse nada. Mas o olhar dizia tudo: Isso vai ser complicado. Muito complicado. A mansão dos Ashbourn estava iluminada de forma acolhedora lustres dourados, paredes altas, tapetes enormes. O grande salão da família tinha vista para a piscina externa, e o cheiro de pizza recém-chegada já preenchia o ar. Todos estavam acomodados de forma descontraída, como se o evento glamouroso tivesse ficado a quilômetros dali. Caixas de pizza abertas sobre a mesa de centro, taças de vinho na mão dos adultos, refrigerante para os jovens. Adrian estava sentado em uma das poltronas, postura impecável mesmo sem querer impressionar ninguém enquanto Eleonora ocupava o sofá lateral, as costas retas, mãos sobre o colo e o vestido impecável já trocado por algo mais confortável que a mãe havia trazido para ela. Até assim, linda era pouco para descrever Eleonora. — Então — começou o pai de Eleonora com um sorriso leve — como está sendo a vida no internato? Adrian respirou fundo. Eleonora também. — Está… bem organizada — ele respondeu primeiro, cordial, quase profissional. — A rotina é pesada, mas eficaz. Temos bons professores, ótimos materiais. É útil para manter o foco. — Ah, mas claro que é fácil para você — riu o pai dela, dando um tapa amigável no ombro de Adrian. — Você sempre foi brilhante. Aposto que deve ser um dos melhores lá dentro. Adrian apenas fez um aceno modesto de cabeça. A mãe dele completou com orgulho: — Ele é o melhor da turma, na verdade. Os pais de Eleonora sorriram satisfeitos até que o pai dela fez a brincadeira que mudou sutilmente o clima: — Tadinha da minha filha então. Deve estar sendo difícil acompanhar o ritmo desse prodígio, não é, Leo? Eleonora congelou. O rosto dela caiu alguns milímetros, quase imperceptível. Mas não para Adrian. Ela tentou rir tentou, mas saiu uma coisa tensa, baixa. — Ah… eu dou conta, as vezes não, mas tudo bem — murmurou, olhando para baixo. A mãe de Eleonora interferiu, rindo: — Ela sempre foi ótima aluna, Richard. — Nem tanto quanto podia ser… — o pai disse, ainda em tom de brincadeira. — Agora com o Adrian por perto, quem sabe ela não aprende a se concentrar? O desconforto dela era tão claro que parecia elevar a temperatura da sala. E Adrian não pensou duas vezes. — Sr. Montreuil — ele disse com um tom calmo, mas firme — Eleonora tem ido muito bem. Ela está se ajustando rápido à rotina. Mais rápido do que muitos veteranos, inclusive. Eleonora ergueu os olhos para ele surpresa. Adrian continuou: — Ela tem potencial de sobra. E tem se esforçado. Não precisa acompanhar ninguém além dela mesma. O pai de Eleonora abriu um sorriso grande, satisfeito: — Olha só! O menino virou até defensor dela! Hahaha! Muito bom, muito bom. A mãe de Adrian sorriu também. Mas Eleonora… Ela apenas desviou o olhar, mordendo discretamente o canto do lábio, tentando esconder a emoçãoou o alívio que passou pelo rosto. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas Adrian viu. E pela primeira vez naquela noite… Ele pareceu não saber para onde olhar em seguida.
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