A aula terminou e todos começaram a guardar seus materiais. O barulho de cadeiras arrastando, conversas rápidas e passos apressados ecoou pela sala. Eleonora se levantou, pronta para sair e escapar dos olhares curiosos que a perseguiam desde cedo.
Mas a voz da professora cortou o som:
— Eleonora, querida, pode ficar um minuto? Quero falar com você.
Quando a sala finalmente ficou vazia, Eleonora cruzou os braços, tentando manter a postura de sempre confiante, altiva, independente.
— Eleonora… eu tenho percebido suas dificuldades nas últimas semanas. Não é falta de capacidade. Você é inteligente, mas está… dispersa.
Eleonora abaixou um pouco a cabeça, encarando as unhas impecáveis. Foi a primeira vez em muito tempo que não teve uma resposta pronta.
— Eu sei. — admitiu ela, num fio de voz. — Eu só… não tenho conseguido focar, estou me acostumando a rotina ainda.
A professora assentiu, compreensiva.
— Por isso, eu queria sugerir algo.Aulas de reforço. E acho que é melhor fazer com alguém da sua turma, alguém que entenda bem a matéria. Alguém… como o Adrian.
Eleonora levantou o olhar tão rápido que a professora quase riu.
Um misto de choque, desconforto e um toque de orgulho ferido apareceu claramente.
— Com o… Adrian? — ela repetiu, como se o nome fosse amargo.
— Sim. Ele é o melhor aluno da classe. E tem uma didática excelente. — A professora sorriu. — Aliás, ele provavelmente vai aceitar ajudar. Ele é responsável e educado…
Eleonora não conseguiu evitar revirar ligeiramente os olhos ao ouvir “educado”.
Mas respirou fundo.
Ela sabia que precisava melhorar.
Sabia também o quanto seus pais estariam decepcionados se descobrissem que ela estava indo m*l.
E, no fundo, sabia que Adrian irritante, arrogante e competitivo, realmente podia ajudá-la.
— Certo, professora. Eu… vou pedir a ele. — disse, mais contida. — Obrigada pela atenção.
A professora sorriu com aprovação.
— Ótimo. Tenho certeza de que você vai se sair muito melhor daqui pra frente.
Eleonora recolheu suas coisas e saiu da sala.
No corredor, apoiou-se brevemente na parede, respirando fundo.
Pedir ajuda ao Adrian.
Logo ele.
Ela fechou os olhos, resignada.
— Isso vai ser um inferno.
Mas levantou a cabeça, ajustou a postura e começou a caminhar.
Agora só faltava encontrar o próprio Adrian.
Eleonora atravessou o corredor com passos decididos ou pelo menos tentando parecer decididos. Por dentro, o estômago estava em um nó. Quanto mais se aproximava da área comum dos alunos, mais ouvia risadinhas e comentários abafados sobre a foto dela e de Adrian.
E lá estava ele.
Encostado na bancada de madeira, conversando animadamente com dois amigos e uma menina nova, bonita, risonha, inclinada perigosamente perto dele. Adrian parecia completamente à vontade, sorrindo daquele jeito que sempre irritou Eleonora desde que chegou ao internato.
Ela respirou fundo, segurou firme o material contra o peito e caminhou até eles.
Assim que Adrian a notou se aproximando, a voz dele diminuiu. A menina do lado dele também se virou, avaliando Eleonora de cima a baixo e claramente reconhecendo a “garota da foto”.
— Ashbourn. — disse Eleonora, com um sorriso pequeno e falso. — Precisamos conversar. A sós.
Os amigos trocaram olhares, já esperando alguma briga entre os dois. A menina olhou com ainda mais interesse, mordendo o lábio como se adorasse o drama.
Adrian arqueou uma sobrancelha, curioso e ligeiramente divertido.
— Claro, Montreuil.—
Ele se afastou dos amigos, cruzando os braços enquanto ela parava em frente a ele.
— O que foi agora? Quer reclamar da cor do meu casaco? Do jeito que eu respiro? — ele soltou, com um sorriso provocado.
Eleonora revirou os olhos.
— Não. A professora pediu que…—Ela respirou fundo, claramente irritada por ter que admitir aquilo.— Que você me ajudasse com a matéria. Aulas de reforço. Isso.
— Eu? Te ajudar?
— Parece que finalmente reconheceram meu talento. — ele provocou. — Deve ter sido difícil pra você dizer isso, hein?
— Eu estou falando sério, Adrian.—o tom dela estava mais firme. Sem pose, sem jogo.— Não estou pedindo por diversão. Eu preciso melhorar. Então… se você puder…, mas se não puder também fala logo.
— Uau, Montreuil pedindo minha ajuda. Isso devia entrar nos jornais também.
— Sabe o quê? Esquece. Não deveria ter pedido nada. — Eleonora virou para sair, já se arrependendo de ter dado brecha pra ele.
Foi nessa hora que Adrian percebeu.
O olhar dela não era só de raiva: havia orgulho ferido.
E um pedido real.
Ele segurou o braço dela de leve antes que ela desse o primeiro passo.
— Ei… Eleonora.
Ela parou.
— Eu tô só brincando. — disse num tom muito mais suave do que antes. — Eu ajudo você, sim.
Eleonora virou o rosto devagar, desconfiada.
Adrian completou:
— Sério.Quando quiser. Onde quiser. Eu te ajudo.
Ela respirou fundo, ainda irritada, mas agora mais controlada.
— Ótimo. — murmurou. — Te encontro depois da aula de história. Na sala de estudo.
Ele sorriu um sorriso genuíno, sem sarcasmo dessa vez.
— Combinado.
Eleonora deu as costas e saiu, elegante como sempre, mas o coração batendo mais rápido.
Adrian ficou parado por alguns segundos, observando-a se afastar.
Ao entrar na biblioteca, o aroma de madeira encerada e livros antigos os envolveu. A maioria dos alunos já tinha ido embora; apenas alguns permaneciam estudando em mesas distantes. Adrian escolheu uma mesa no fundo, onde ninguém os incomodaria, e puxou a cadeira com uma expressão que misturava tédio e diversão.
— Pode sentar, princesa — disse, girando a caneta entre os dedos.
— Não me chama assim — Eleonora respondeu automaticamente, mas sentou-se. — Vamos começar logo, eu não tenho a noite toda.
Adrian abriu o caderno dela e franziu o cenho.
— Meu Deus… você realmente não entendeu nada dessa matéria, né?
— Se eu fosse boa nisso, não precisaria de você. — Ela cruzou os braços. — Agora cala a boca e me ajuda.
Ele riu baixinho, aquela risada que parecia provocá-la de propósito.
— Você é inacreditável.
— E você é insuportável — ela rebateu, mas olhou para o caderno com determinação. — Vamos, Adrian.
Ele se aproximou mais do que o necessário, inclinando-se para apontar as partes importantes do texto. O perfume leve dele se misturou ao cheiro dos livros. Eleonora percebeu a proximidade, mas não recuou.
— Aqui, ó — Adrian indicou, a voz mais baixa, quase num tom que ele nem percebeu usar. — Você precisa entender isso primeiro. Depois tudo fica fácil.
— Você está falando de mim ou da matéria?
— Dos dois.
Depois de alguns minutos de explicação, Eleonora realmente começou a entender. Ela, ainda que contragosto, reconheceu isso.
— Tá… acho que agora fez sentido. — Ela mordeu o lábio inferior, pensativa. — Valeu.
— Não precisa agradecer — Adrian disse, se recostando na cadeira com um sorriso convencido. — Ver você admitir que eu sou útil já é suficiente.
— Eu não admiti nada — ela rebateu, mas a resposta veio rápida demais, defensiva demais.
— Você é tão previsível.
— E você acha que já me entendeu? — Ela apoiou o queixo na mão. — Que fofo.
— Fofo? — Ele repetiu, incrédulo. — Você me chamou de fofo?
— Sim…
— Eu devia te fazer errar na prova só por isso.
— Então eu conto pra professora que você é um péssimo tutor — Eleonora rebateu com um sorriso doce demais para ser inocente.
— Tá — ele murmurou, fechando o caderno dela. — Amanhã a gente continua?
— Amanhã — confirmou.
Ela se levantou recolhendo seus cadernos.
— Boa noite, Eleonora — Adrian disse, baixinho.
— Boa noite, Ad.