POV – LORENZO ROSSI
O cheiro de ferro e antisséptico no quarto médico da base era sufocante, mas eu não conseguia me afastar da cama de Vittoria. O medo que senti quando a vi cair foi uma agonia física, um vazio n***o que ameaçou engolir tudo o que eu construí. Ali, segurando a mão dela, eu entendi: não existia Conselho, não existia Chicago e não existia Lorenzo sem a mulher que se jogou na frente de uma bala por mim.
Meu medo de assumi-la para protegê-la quase a matou. Que ironia amarga. Minha prudência foi a arma que os Vanchini usaram.
Vittoria abriu os olhos lentamente. O efeito da anestesia estava passando, e a primeira coisa que ela fez foi apertar minha mão.
— Você ainda está aqui... — ela sussurrou, a voz frágil, mas os olhos mantendo aquele fogo indomável.
— Eu nunca mais vou sair do seu lado, Vittoria — respondi, levando sua mão aos meus lábios e fechando os olhos por um segundo. — Eu fui um i****a. Tentei lutar contra o que sentimos por medo de te perder, mas o medo de viver sem você é mil vezes pior. Eu te amo. Eu assumo isso diante de qualquer exército, de qualquer máfia. Você é minha parceira, minha vida.
Vittoria sorriu, um sorriso real que iluminou o quarto sombrio. — Demorou um tiro para você admitir, Arquiteto... Mas eu aceito a confissão.
— Agora — eu disse, levantando-me e sentindo a frieza do líder retornar, mas desta vez movida por um propósito muito mais pessoal —, eu preciso terminar o que eles começaram.
— Eu vou com você — ela disse, tentando se sentar.
— Vittoria, você acabou de sair de uma cirurgia! — exclamei, mas o olhar dela me calou.
— Eu sou uma Vitale, Lorenzo. Eu não recebo justiça sentada em uma cama de hospital. Eu a busco.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Lorenzo tentou protestar, mas ele sabia que era inútil. Maya, após muitas reclamações médicas, me ajudou a trocar o vestido ensanguentado por um conjunto tático de seda e Kevlar que protegia o curativo no meu ombro. Eu estava pálida, mas a adrenalina era o melhor analgésico do mundo.
Descemos para os níveis inferiores da base, o setor de "interrogatório". O som dos gritos já era audível antes mesmo de as portas de aço se abrirem.
Lá dentro, a cena era um quadro de horror e eficiência. O atirador estava amarrado a uma cadeira metálica no centro da sala. Dante Moretti estava encostado na parede, limpando uma lâmina com um lenço de seda, enquanto Helena observava tudo com uma calma perturbadora, anotando reações em seu tablet. Vitor e sua nova parceira, Katerina Volkov, estavam na frente do prisioneiro. Katerina usava luvas de couro e tinha uma expressão de tédio mortal.
— Ele é resistente, Lorenzo — Vitor disse, virando-se para nós. — Mas a Katerina tem métodos russos que ele não está apreciando muito.
— Deixem-me falar com ele — eu disse, dando um passo à frente.
Lorenzo colocou a mão na minha cintura, um gesto de apoio e posse que ele não escondia mais. O atirador levantou a cabeça, o rosto inchado. Quando ele me viu, seus olhos se arregalaram.
— Você... você deveria estar morta — ele cuspiu sangue no chão.
— Eu sou o seu pior pesadelo, porque eu sobrevivi — respondi, aproximando-me dele. — Quem te enviou? Sabemos que foram os Vanchini, mas como vocês souberam a posição exata da varanda? Aquele setor estava bloqueado nos planos oficiais do museu.
O homem riu, um som seco e assustador. — Vocês acham que são espertos... O Conselho de 12... O Conselho de 20... Vocês estão preocupados com os inimigos lá fora...
— Fale logo! — Lorenzo rugiu, agarrando o homem pelo colarinho e o suspendendo da cadeira. A fúria do Arquiteto era algo magnífico e terrível de se ver.
— O ataque... não era para matar você, Lorenzo Rossi — o homem engasgou. — Era para testar a sua reação. Para ver quem você protegeria. Os Vanchini não estão agindo sozinhos. Eles têm um novo aliado. Alguém que conhece a história das suas famílias melhor do que vocês.
POV – LORENZO ROSSI
O silêncio que se seguiu foi cortante. Olhei para Vittoria, depois para Vitor e Helena. Nossas famílias eram unidas há gerações. Não havia traição interna; o amor e a lealdade entre os Rossi, Duarte e Vitale eram a base de tudo. Se havia alguém que nos conhecia tanto, não era um traidor, mas um fantasma.
— De que aliado você está falando? — perguntei, minha voz saindo num sussurro perigoso.
— O "Velho do Rio" — o homem sussurrou, tremendo agora. — Ele disse que o Conselho de 20 é uma afronta. Que os jovens herdeiros esqueceram as raízes do sangue. Ele está fornecendo aos Vanchini toda a inteligência sobre as fraquezas de vocês. Ele sabe sobre a Maya, sabe sobre a Helena... e agora ele sabe que a Vittoria é o seu coração, Lorenzo.
Eu senti um calafrio percorrer minha espinha. O "Velho do Rio" era uma lenda urbana no submundo brasileiro, um ex-estrategista de guerra que supostamente morreu há décadas, mas que tinha laços com a fundação das nossas famílias.
— Isso é impossível — Vittoria disse, a voz firme. — Ninguém sobrevive tanto tempo nas sombras sem ser notado.
— Ele não está nas sombras — o prisioneiro sorriu, revelando dentes quebrados. — Ele está em todos os lugares. E ele mandou um aviso: A Noite de Gala foi apenas o jantar. O prato principal será servido quando o Conselho estiver "completo". Ele quer que vocês recrutem todos os 20. Ele quer colher a safra inteira de uma vez.
Katerina deu um passo à frente e, com um movimento rápido e preciso, quebrou o pescoço do homem. O corpo dele pendeu sem vida na cadeira.
— Ele já disse o que precisávamos — ela disse, limpando as mãos com indiferença. — Agora temos um nome. E um problema maior do que os Vanchini.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Voltamos para a sala principal do Conselho. O clima de celebração da gala tinha sido substituído por uma tensão de guerra iminente. Lorenzo não me soltou por um segundo. Ele me levou até a mesa central e, diante de todos os membros presentes — Vinícius, Maya, Arthur, Isabella, Caleb, Aurora, Vitor, Katerina, Dante e Helena — ele bateu a mão na mesa.
— Atenção todos — a voz dele ecoou, absoluta. — A partir de hoje, as regras mudaram. Vittoria e eu somos uma unidade. Qualquer ataque a ela é um ataque direto a mim. E sobre esse "Velho do Rio"... nós vamos caçá-lo. Mas faremos exatamente o que ele quer. Vamos completar o Conselho de 20.
— Lorenzo, isso é perigoso — Davi disse, entrando na sala acompanhado de uma mulher de postura atlética e olhar aguçado. — Se ele quer que nos unamos para nos destruir, estamos facilitando o trabalho dele.
— Não, Davi — respondi por Lorenzo. — Estamos criando um exército que ele não pode prever. Ele conhece os herdeiros, mas ele não conhece os nossos pares. Ele não conhece a Katerina, o Caleb, o Julian ou o Dante. Ele conhece o nosso passado, mas nós somos o futuro.
— Falando em futuro... — Lorenzo olhou para a mulher ao lado de Davi. — Davi, apresente-nos.
POV – DAVI DUARTE
Eu estava em silêncio até agora, processando a informação chocante sobre o Velho do Rio. Mas eu tinha trazido a minha parte da solução.
— Esta é Sloane Wick — anunciei. — Ela é a melhor especialista em contrainteligência e guerrilha urbana que já serviu na Interpol antes de se tornar uma "consultora" privada. Nós trabalhamos juntos em uma extração no México. Ela é o meu par.
Sloane deu um passo à frente, avaliando o grupo com olhos clínicos. Ela não parecia impressionada com o luxo da base, mas sim com a eficiência tática dos membros.
— Se esse "Velho" conhece vocês, ele provavelmente já mapeou essa base — Sloane disse, sua voz direta e sem rodeios. — O primeiro passo é mudar todos os protocolos. O segundo é encontrar o rastro financeiro desse aliado dos Vanchini. Ninguém financia uma guerra dessas com dinheiro invisível.
Lorenzo acenou positivamente. O Conselho de 20 agora tinha 17 membros (contando com Sloane entrando como par de Davi).
POV – LORENZO ROSSI
A noite estava acabando, mas uma nova clareza surgia. Olhei para Vittoria, que apesar de ferida, mantinha-se de pé, orgulhosa. Eu a puxei para um beijo curto, mas carregado de promessas, na frente de todos. Não havia mais segredos. Não havia mais receio.
— Vinícius, leve a Maya para descansar. Vitor, Katerina, comecem a varredura nos arredores da base com o Dante. Davi e Sloane, quero um novo plano de segurança até o amanhecer.
Todos se dispersaram. Ficamos apenas eu e Vittoria na sala circular.
— Você está bem? — perguntei, acariciando o rosto dela.
— Agora eu estou, Lorenzo — ela respondeu, encostando a cabeça no meu peito. — Pela primeira vez, sinto que o Conselho não é apenas um negócio. É o nosso legado.
— O Velho do Rio cometeu um erro — eu disse, olhando para o horizonte de Chicago através do vidro reforçado. — Ele acha que nos conhece porque conhece o nosso sangue. Mas ele não sabe do que somos capazes de fazer para proteger quem amamos. Ele quer os 20? Ele terá os 20. Mas nós seremos a última coisa que ele verá antes de Chicago o engolir.
Eu não tinha mais medo de perder Vittoria, porque agora eu lutaria com cada grama do meu ser para mantê-la. O medo se transformou em combustível. E o Arquiteto tinha acabado de desenhar o plano para a destruição de seus inimigos. O amor não era uma fraqueza; era a fundação inquebrável que o Conselho de 20 precisava para se tornar eterno.