Melanie narrando
O sol da tarde bateu no rosto assim que pisei na rua, quente demais. Passei pelos meninos da segurança de cabeça baixa ouvindo risadinhas , acelerei o passo , além de quase atrasada , eu sentia que todo mundo me olhava como se soubesse oque tinha acontecido.
Andar me ajuda a organizar a cabeça, mesmo quando o pensamento insistia em voltar pros olhos frios dele, pras palavras cuspidas como veneno. Eu empurrei tudo pra um canto da mente. Cheguei em casa em poucos minutos , o cheiro me avisou antes mesmo de abrir a porta. Álcool , comida azeda, fumaça. Minha mãe estava jogada no sofá, a televisão ligada alto num programa qualquer, uma garrafa vazia no chão e outra, quase cheia, na mão dela . O cabelo desgrenhado, a roupa suja, largada .
-Cheguei… falei baixo, mais por hábito do que por esperança. Ela murmurou alguma coisa incompreensível, virou o rosto pro outro lado e mesmo meia apagada levou a garrafa à boca, não tem jeito eu tô meio que cansada de lutar contra , de ter que ser a
" Mãe " dessa casa . Passei direto pra cozinha. Abri a geladeira quase vazia, achei um pouco de arroz frio de ontem e fiz um ovo rápido, em silêncio. Comi em pé mesmo, sem sentir gosto de nada, só pra não cair de fome no trabalho. Tomei um banho corrido, a água gelada escorrendo pelo corpo como se lavasse não só o suor, mas a manhã inteira. Vesti a camiseta da lanchonete, amarrei o cabelo num r**o simples e me olhei no espelho.
- Só mais um turno… sussurrei.
Antes de sair, olhei pra minha mãe ela estava na mesma posição, não deu tempo de fazer nada , eu espero que quando chegar pelo menos a louça ela tenha lavado . Fechei e sai o mais rapido que pude , poucos minutos do meu horário. Agora é correr contra o tempo, porque é só pauleira o resto do dia . Cheguei na lanchonete faltando dois minutos , suando igual tampa de marmita. Angelina já estava encostada no balcão, o avental amarrado e o sorriso que parecia luz em dia nublado.
- Ei, Mel! ela abriu os braços. - Pensei que tu não vinha.
- Vim … respondi, sorrindo .Ela me olhou com atenção demais.Não perguntou nada, só passou o braço pelos meus ombros.
- Hoje a rua vai encher. Respira. -Qualquer coisa, cola em mim. Assenti. Do lado de fora, as mesas já começavam a ocupar a calçada. So foi o tempo de colocar o avental e a touquinha , guardei a bolsa atrás do balcão , cumprimentei o Patrão com boa tarde , que ele m*l respondeu ,mas não liguei já sou acostumada com ele . Peguei o bloquinho, a caneta, e fui pro meu posto. As primeiras piadas vieram cedo, como sempre. Olhares atravessados, comentários que eu fingia não ouvir. Cada pedido anotado era uma pequena vitória. Cada “obrigada” sincero, um lembrete de que ainda tem gente educada nesse lugar .
A tarde passou e na correria eu nem percebi , so senti o alivio do calor , o sol ja tinha abaixado bem , mas o movimento era cada vez mais intenso. Eu atendia meio que no automático. Quando eu pensei que ia dar uma aliviada no movimento pra pelo menos tomar uma água, encostei no balcão olhando as mesas todos atendidos, risada solta , a música de fundo era um forro do natanzinho alegrando o pessoal. Olhei pro patrão agora de avental no ombro , a cara de poucos amigos tinha dado espaço pra meio sorriso comentando do jogo com um cliente . O ar ficou pesado de repente , e não era coisa da minha cabeça. Eu senti antes de ver.
As risadas diminuíram , a conversa deu aquela engasgada coletiva, como se alguém tivesse baixado o volume do mundo por um segundo. Biro entrou primeiro. Passo largo, peito estufado, o jeito de quem sabe que todo mundo repara. Atrás dele, a tropa de sempre os homens dele rindo alto, fazendo barulho demais só pra chamar atenção. E com eles, duas garotas. Arrumadas demais pro lugar, short curto, maquiagem impecável, gargalhadas forçadas. Aquelas risadas que não têm alegria, só função. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. As mãos começaram a tremer. O bloquinho quase escapou dos meus dedos. Senti o estômago afundar, como se alguém tivesse me dado um soco .
Ele passou os olhos pelo salão… e me encontrou. Foi rápido. Um segundo, talvez menos. Mas foi o suficiente. O olhar dele não tinha surpresa. Nem raiva. Tinha controle, Frio,Calculado. virou o rosto logo em seguida . Sentou espalhado, ocupando tudo. As garotas se acomodaram do lado dele, uma em cada braço, rindo alto demais.
Eu fiquei parada, dura.
- Mel… Angelina me cutucou de leve .-Deixa que eu vou. Assenti na hora. Não discuti. Não consegui nem agradecer. Ela pegou o bloquinho e foi com a caneta na mão. O coração batendo tão forte que parecia querer sair pela garganta de tanto medo . Fingi organizar os copos no balcão, qualquer coisa pra não ficar olhando.
Angelina chegou na mesa, falou alguma coisa, ouvi só pedaços. Biro respondeu curto.Ela voltou rápido demais.
- Mel… ela parou na minha frente, expressão tensa. - Ele tá te chamando.
-O quê? minha voz saiu fina, ridícula.
- Disse que quer ser atendido por você. ela fechou a cara. - Eu falei que podia anotar, que a casa tava cheia, mas ele… respirou fundo. - Ele insistiu. Eu sabia não era preferência. Era so pra fazer gracinha , me humilhar, rir de mim como sempre que vem faz . Era o jogo dele .
- Vai logo menina tá esperando oque ? o patrão falou perto de mim . Eu peguei meu bloquinho , caneta e fui . As risadas veio alta de novo. O único que não tava com deboche era o Guga, um vizinho meu , já me ajudou várias vezes avisando que tinha visto minha mãe caída em algum beco , e no dia que o Biro ia matar ela , foi ele também que foi me avisar. Não somos amigos , mas é o único que nunca me faltou com respeito sabe , não me traga como se eu fosse uma aberração.
- Se quiser... ela sussurrou assim que o patrao afastou um pouco .- Fingi que tá com dor . Olhei em volta. O patrão ria com o cliente abrindo a garrafa . As mesas cheias. A rua lotada. Se eu recusasse, ia ser pior. Eu sabia disso também.
-Não… engoli seco. - Eu vou.
- Tô aqui. Qualquer coisa, grita.Assenti.
Pareei ao lado da mesa. Bloquinho na mão. Postura reta.Profissional. Era nisso que eu me agarrava.