capítulo 07 - Melanie

1113 Words
Melanie narrando - Boa tarde. minha voz saiu surpreendentemente firme. - O que vão querer? Biro se recostou na cadeira, sem me olhar , as garotas me olhando de cima a baixo sem pressa. Um sorrisinho no canto da boca. -Olha só… Umas delas disse, alto o suficiente pra mesa toda ouvir. - Ela fala bonito quando quer. As duas riram.Eu baixei os olhos pro bloquinho. - Os pedidos, por favor. - Manda dois pastel carne e frango , e uma rodada de Heineken. A voz dele soou baixa e rouca , sem olhar . - Um pra mim né gato . - Pra tu uma p***a , ce vê oque tu quer aí. - Nossa... ela falou como se tivesse sido atingida. - Quero porção bem caprichada , tipo bem cheinha igual tu . Ela riu colocando a mão na boca. E a outra escondeu o rosto no peito dele , gargalhando junto com os outros , só ele e o Guga que mantinha sério. -Mel traz um bolinho de bacalhau pra mim e uma coca faz favor . O pedido dele me manteve profissional, só fui anotando , por fim usei frente e verso , pediram várias coisas . - Só um minuto já trago. Virei as costa ouvindo uma delas falando vê se não demora mas nem respondi . Mostrei tudo pro patrão e ele foi logo separando tudo de fritar, conferindo vendo se tinha tudo enquanto fui pegando as bebidas e os copos . Levei tudo na bandeja com muita atenção pra não derrubar, coloquei com cuidado mesmo sentindo minhas mãos tremendo. -Ih, calma aí, garçonete… ela riu. - Tá nervosa? - Só trabalhando . respondi, sem levantar os olhos.Sai pra pegar as outras coisas . Voltei com os pastéis e as porções , coxinhas , torta e um pedaço de pizza logo em seguida. -Aqui. Qualquer coisa é só chamar. Quando eu já ia me virar, a mão dele fechou no meu pulso.O contato gelou minha espinha inteira. - Ei… Biro falou baixo, agora olhando direto pra mim. - Nem perguntou se tá tudo certo. O barulho ao redor parecia distante. Eu puxei o ar devagar, como Angelina tinha me ensinado nos dias ruins. - Tá tudo certo com o pedido ? Mais alguma coisa? Ele inclinou a cabeça parecia se diverti com a cena . -Tá vendo? Aprende rápido. Soltei meu braço com cuidado, sem fazer cena. Guga pigarreou. - Deixa a menina trampar, po . O clima pesou. As garotas se remexeram, desconfortáveis. - Relaxa ai fio que meu papo não é contigo não. Tô falando com a gorda aqui , tu virou oque dela, advogado ? tô entendendo legal não , qual e a tua ? Ele disse irritado , a voz saiu alta grossa . - Tá tudo bem ... falei olha do pro Guga. - Qualquer coisa se precisar , pode pedir. Falei tentando ser o mais gentil possível, era só mais um dia comum pra mim , nessa altura do campeonato ser chamada de gorda já faz parte do meu cotidiano. No dia seguinte ... O celular despertou dez pra cinco da manhã, eu tava só o pó da radiola. A lanchonete fechou quase duas da manhã, sim, o Biro e o pessoal dele foram os últimos a sair. Chegou mais gente, mas garotas, e foi ainda pior do que antes. Não deixei abater. Só fui fingindo não ouvir. Afinal, eu preciso desse emprego mais que tudo nessa vida. Hoje era um novo dia. Levantei devagar me espreguiçando , estalei o pescoço oque deu um alivio de imediato. O chão gelado me deu um choque de realidade. Lavei o rosto na pia, me encarei no espelho por dois segundos o suficiente pra respirar fundo e vestir a armadura invisível de sempre. Prendi o cabelo num coque alto , passei um café ralo e engoli em dois goles com um pão dormido que sobrou na lanchonete e patrão deu pra quem quisesse trazer . A rua ainda tava meio vazia, um silêncio estranho do morro acordar de vez. O céu começava a clarear, rosado, bonito . No caminho, repassei mentalmente a lista de tarefas, como se isso pudesse organizar também o que tava bagunçado aqui dentro. Cheguei na casa , a minha entrada foi liberada por um dos meninos da segurança , entrei tentando não fazer barulho , soltei o ar quando passei a porta da sala e não tinha ninguém, graças a Deus. Pedi mentalmente a Deus que desse tudo certo hoje, que seja um dia de paz . Fui direto pra cozinha, coloquei a bolsa num cantinho e comecei a abrir as janelas, deixando o ar da manhã entrar. O cheiro de whisky velho ainda pairava no ambiente. Quando virei pra bancada, vi um papel aberto as letras grandes rabiscada me chamaram atenção. “Deixa essa casa um brinco. Mais tarde tem festa. Faz uns aperitivo, quero tudo pronto.” Respirei fundo, dobrei o bilhete e deixei em cima da mesa. Festa logo hoje dia da semana . Meu corpo inteiro reclamou, mas a mente tratou de empurrar o cansaço pro fundo da gaveta onde eu guardo tudo que não posso sentir agora. Arregacei as mangas a casa não estava bagunçada nem suja pelo menos isso , mas na certeza eu vou limpar tudo . Menos o cômodo proibido, o quarto dele. E onde eu passo longe. Comecei pelo básico varri , passar pano, recolher copo esquecido na sala , cinzeiro cheio . Cada barulho ecoava mais alto do que devia naquela casa grande e silenciosa. A cada porta que eu abria, o medo bobo de dar de cara com alguém me fazia prender a respiração por um segundo. Enquanto isso fui fazendo uma lista mental dos aperitivos alguma coisa simples que rendesse. Abri a geladeira, conferi o que tinha. Dava pra improvisar. Tive a ideia de fazer uma tábua de frios , saladas , patezinho .Era umas dez horas quando estava quase tudo pronto. Ouvi o barulho da porta . Travei , num descuido senti a ponta da faca entrar no dedo. Prendi o gemido com a dor , precionando a dedo , gotas de sangue sujaram a pia eu tratei logo de abrir a torneira e limpar a sujeira. Ouvi os passos logo após a batida da porta. - Ajeita essas carnes , e jaja os cria vão trazer as bebida e pra ajeitar tudo no freezer de fora. - Tá bom pode deixar . Falei sem virar . - Tu tá aprontando oque aí gorda sebosa ta comendo escondido? neguei com a cabeça. Virei de frente pra ele ver , que eu não tinha nada na boca .
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