Quem é você?

1370 Words
Caverna do Kai, ou...Pequeno Covil. - Morretes/PR - 20/03/20, 21:10 - Corte Sul  Malakai Arzov Até poderia ter sido uma ótima ideia usar o coração humano para se aproximar. Mas seja lá o que ela pretendesse dele, estava óbvio que não era humana. Aquele cheiro picante a denunciara, sobressaindo sobre qualquer perfume ou chiclete de menta que ela tivesse tentado impregnar no corpo. O odor ocre do pânico da fêmea durara poucos segundos ao ser transformado em tristeza, demonstrando desistência. Do mesmo jeito que ele desistira da vida de alfa dos alfas, assombrado pela aparição de Ren, que nos momentos mais indesejados surgia fazendo comentários sarcásticos e absurdos. Ele percorreu a margem da cachoeira, encarando o corpo inerte sendo levado. Embora o cheiro dela ainda brincasse em sua narina, a desistência dela logo seria selada, caindo sobre metros de queda d'água. Kai se lembrou da brincadeira de advinha que Ren tanto gostava, mas agora adaptada a situação dele: O que é, o que é? É fêmea, tem um coração batendo, não é loba, lobisomem ou vampira, e cheira à feromônio sobrenatural ?  Uma charada que só revolveria se fosse atrás dela. Por isso, Kai entrou na correnteza, caindo logo depois da fêmea. O lobo fechou os olhos, sentindo as pedras escorregadias trombando esse seu corpanzil enquanto a água se embrenhava na pelagem densa, até que por fim, o fundo o saudou. Quando o corpo do lobo atingiu a profundeza máxima e escura, Kai abriu os olhos sobrenaturais dentro da água doce, e não demorou para encontrá-la. De alguma forma a fêmea ondulava uma corrente quase que magnética pra ele.  O lobo nadou até ela, tomando o corpo leve pelo dorso e levando os dois para superfície. Ele rugiu de dor e frio quando precisou voltar a forma humana dentro do gelo da cachoeira. As mãos logo apareceram no lugar das patas, permitindo que ele a pegasse. O alfa a acomodou no colo e caminhou para a caverna que havia atrás da queda da cachoeira, escondida por uma enorme pedra coberta de musgo.  Com uma das mãos a segurou, e a outra, empurrou a sua "porta empedrada", que pesava toneladas. Adentrando em seu lar improvisado,  Kai a colocou sentada encostada na parede de pedra, levando dois dedos onde a pulsação ainda batia, ainda que sutilmente. A mulher tinha a pele perfeita, e as roupas de couro estavam colada no corpo curvilíneo e esguio. O coração dela era um murmúrio fraco dentro do peito, enquanto um chiado baixo indicava que havia ingerido muita água.  Kai a colocou deitada e iniciou as massagens cardíacas, intercalando com a respiração boca a boca. O coração dela logo respondeu, batendo mais forte. Pronto, agora não haveria riscos de morte. O lobo não perdeu tempo, amarrando as correntes que costumava usar em si, nos pulsos finos. Depois se levantou, pegando uma toalha branca em cima de uma cômoda e envolvendo a própria nudez. Logo em seguida, sentou-se em frente a fogueira que teria de reacender para aquecer a caverna.  Não demorou nada para que o corpo da fêmea se sobressaltasse de volta à vida. Ela tossiu, regurgitando água doce. Porém, apesar dos cabelos agora colados em seu rosto e a aparência assustada, parecia nova em folha.  Definitivamente não humana, embora a forma como tremia levava-o a crer que ela poderia morrer de hipotermia se continuasse no frio. A fêmea olhou em volta, analisando a caverna que Ren apelidara de pequeno covil, já que onde estavam era tudo, menos um lugar digno de um alfa. Havia um guarda roupa surrado, uma cômoda lascada, uma mesa com duas cadeiras, e uma fogueira. Todos os móveis eram de madeira e estavam desgastados e úmidos, devido à proximidade da cachoeira. Só a cama era um vislumbre da realeza da qual ele fizera parte: toda adornada com arabescos e dosséis altos. Os lençóis eram negros e estavam desarrumados em uma nebulosa escura no meio do colchão. Ren sempre falava que ele não se parecia com rei. Afinal, era desleixado, agressivo, arrogante e egoísta. Características que não lhe davam orgulho, mas eram intrínsecas a cada atitude dele. E por falar no irmão morto... - O que vai fazer com ela, lobinho? – O espectro de Ren estava sentado no pedaço de tronco ao lado, observando a fêmea que ainda atordoada. – Daria uma boa escrava, se quer saber. Poderia lavar, passar... Também seria uma boa companheira de cama. Kai ignorou os comentários do irmão, atiçando o fogo com um pedaço de graveto. Hoje Ren estava com uma armadura, e seus cabelos negros e longos estavam amarrados em um r**o de cavalo, o rosto pintado de n***o nas bochechas. E embora parecesse estar pronto pra um duelo,  carregava um livro de contos de fadas na mão: O conto de La Bestia.  Ren se levantou de onde estava, agachando-se junto à fêmea que não podia vê-lo. Kai olhou de esguelha, observando o irmão o passar o espectro do indicador na bochecha dela. O alfa grunhiu em reposta.  - O que foi, Kai? Não me diga que já está marcando território... – Ren se levantou com uma risadinha, voltando para perto da fogueira novamente. – Vamos lá... É o que devia fazer, sabia? Encontrar algum tipo de alívio com alguém, nem que fosse com humana... – o irmão deu um cutucão espectral no ombro nu dele. – Quanto tempo faz, lobinho? - Me deixe, Ren. – sibilou a ordem o mais baixo que pode. Mas quando foi se virar para checar se a fêmea o havia escutado, os olhos dela estavam cravados nele. - Com quem está falando? – ela indagou, como se tivesse ciência da presença de Ren perto da fogueira. O irmão soltou uma exclamação.  - Gostei dessa fêmea! Kai ignorou os dois e suspirou, perdendo a paciência com Ren e franzido o cenho para a fêmea. Quem quer que ela fosse não tinha direito de saber nada sobre sua vida. Estava ali como uma prisioneira, e iria ser interrogada. - Quem é você? – Kai devolveu a pergunta que atiçara a sua curiosidade enquanto ia até um baú colocado debaixo da cama. - Vai me torturar? – Ela indagou pra ele.  Kai ergueu os olhos e respondeu: - Espero não ter de chegar a tanto. - Então, o que tem aí dentro? – a fêmea perguntou, indicando com um balançar de cabeça o baú que ele mexia. - Curiosa... – Ren balbuciou, assentindo. Kai tirou outra toalha do baú, jogando-a na direção da fêmea, que a pegou no ar mesmo com a mão presa. – O que ela é, Kai? Porque estou começando a achar que não é humana. O lobo dirigiu um olhar para o irmão, deixando claro que ele ainda não sabia, apesar de ter a mesma conclusão. - Quem é você? – Kai perguntou novamente, caminhando lentamente na direção dela. A fêmea secou superficialmente o rosto, e depois enrolou a toalha nos longos cabelos, sem se perturbar por ele.  - Esther. – respondeu sem olhá-lo. Um sorriso brincou no íntimo de Kai. As primeiras respostas eram sempre mentiras, e ele nem precisava enfiar as garras na cabeça dela para ter acesso às memórias, porque a íris ocular se aumentara gradativamente revelando a falsidade. - Resposta errada. – murmurou, dando meia volta para perto da fogueira. – O que você é? – o alfa mudou a pergunta, observando a surpresa nos olhos verdes da fêmea. - C-como assim? – O vestígio de preocupação a deixou receosa. Kai pegou a adaga, colocando a ponta da lâmina sobre o fogo. A prata crepitou em fagulhas. - Responda. - Sou uma pessoa...humana. – Ela murmurou. A paciência de Kai atingiu o limite. Com um rápido movimento a adaga foi atirada, passando no ar com um rastro de fumaça devido à queima. Antes que a fêmea pudesse esboçar reação, a lâmina já havia cortado a bochecha dela, se alojando com um baque seco na parede. Um filete de sangue carmim desceu pela bochecha perfeita, preenchendo o ambiente úmido com um cheiro ferroso e metálico. Mas logo depois, a ferida desapareceu gradativamente, sem deixar nenhum rastro ou cicatriz na pele. A fêmea suspirou, e finalmente respondeu: - Sou Rosalie Armstrong, uma meia vampira. 
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