10-Noivos?

1703 Words
Lunara Tokatli Eu permaneço parada. Apenas olhando. Por um instante, não sinto o salão, não sinto o som das tochas, nem o perfume das flores queimadas. Não sinto Harika, nem Osman, nem as centenas de olhos postos em mim. Sinto apenas ele. Kan Ruslan. O homem me encara sem qualquer hesitação. Um olhar frio, negrö, penetrante. O tipo de olhar que atravessa a carne, escava a alma e encontra aquilo que você tenta esconder. Ele parece ver mais do que deveria, mais do que qualquer estranho jamais viu. Eu não imaginava ver isso! Ele tem o rosto sério, quase esculpido. Uma barba rala, cabelos escuros, postura rígida e uma força evidente mesmo sem se mover. Não é o tipo de força exibida. É a força que se contém. Que observa. Que mede. Ele tem um rosto moldado, é alto e encorpado. E, ao lado dele, está um homem com traços semelhantes. É mais jovem. Mais inquieto e talvez menos fechado. Sei imediatamente que é o irmão. Kan Hamit. O meu corpo inteiro fica tenso, e por alguns segundos, eu simplesmente não desvio os olhos. Sinto algo estranho, desconfortável, quase como uma sensação antiga que tenta emergir do fundo da minha mente… mas não vem. Não sei por quê. Não sei o que é. E então, com esforço, eu volto a mim. — Chega, Lunara! — Murmuro dentro da minha própria cabeça. Desvio o olhar, finalmente. Olho para os demais. Muitos. Todos parados. Todos me esperando. Todos querendo me ver e ver I que vou fazer hoje. Então faço um aceno sutil, um movimento pequeno do queixo e dou o primeiro passo. E como se fosse um único corpo, todo o salão reage. Homens e mulheres cruzam o braço sobre o peito e fazem uma leve curvatura de reverência, reconhecendo a nova líder. Um gesto tradicional, antigo, que pertenceu a homens por séculos e, agora pertence a mim. Não sei explicar a dimensão do que sinto. Caminho devagar pelo tapete longo e estreito que corta o salão até o ponto central, onde minha cadeira aguarda. Alta, forte, de madeira escura e detalhes dourados. Um símbolo. Um peso. Era ali que o meu pai sentava sempre. Em todos os eventos, ele se fixava ali. Quase não saía do lugar. Ele gostava de ser o centro, de estar na atenção e poder. O silêncio é absoluto aqui. Ninguém respira alto. Ninguém sussurra. É como caminhar entre estátuas vivas. Meus passos ecoam como golpes. Lentos. Firmes. Solos. Quando chego ao final, viro-me de frente para todos. E no mesmo instante, o salão inteiro se endireita. Posturas rígidas. Olhares fixos. Alguns admiram minhas roupas, meus acessórios tradicionais, meu cabelo solto. Um escândalo sutil, mas aceitável. Outros, porém, mantêm o olhar neutro, impassível. Esse olhar eu conheço. É o olhar que diz: “Você é mulher. Vamos ver até onde aguenta.” Respiro fundo. Passei dias imaginando como seria falar aqui. Repeti palavras mentalmente. Treinei expressões no espelho. Escrevi rascunhos. Mas agora que estou diante deles, diante desses homens que sempre viram outro homem no meu lugar, as minhas mãos tremem por dentro. Mas eu não posso mostrar isso. Nunca. Então ergo o queixo e mostro postura. — Como todos sabem… — Digo, minha voz ecoando firme, clara. — O meu pai, Halit Tokatli, faleceu. Lutou por dias, mas seu corpo não resistiu, e ele foi levado e entregue à Allah. Alguns meninos do clã mais antigo abaixam a cabeça. Outros fecham os olhos em respeito. — Porém. — Continuo. — Antes de morrer, ele deixou muito claro qual era o desejo dele. Ele queria que eu ficasse no seu lugar. Que eu liderasse. Que eu fosse a voz do Norte. Que eu comandasse, decidisse, construísse. Que eu seguisse as raízes que ele plantou. O salão permanece imóvel. Nenhuma interrupção. Apenas o silêncio me ouvindo. — Foi feito um acordo com o conselho. — Digo. — Nada foi às escondidas. Tudo foi conversado e aceito. E quero dizer que estamos unidos nesta jornada. Estou ciente das responsabilidades e das dificuldades. Mas, como líder do Norte, darei tudo de mim para que continuemos crescendo, fortalecendo nossos negócios, expandindo nossas fronteiras e protegendo nossos aliados. Alguns acenam. Outros permanecem totalmente neutros, o que me diz que não estavam cientes do acordo. Já esperava isso. O conselho segurou certas informações até o momento certo. Respiro fundo. — É uma honra ser a primeira mulher na liderança. — Digo. — E prometo mostrar força, disciplina e coragem, assim como meu pai mostrou. Quero trabalhar com todos vocês, lado a lado. Nosso objetivo é um só: tornar o Norte a maior marca de poder da Turquia. Por um momento, ninguém reage. E então… As mulheres. As primeiras reverências vêm delas. Mulheres mais velhas, servas, esposas de líderes, guerreiras do clã, jovens aprendizes. Todas fazem a reverência profunda, cruzando o braço no peitö. Em seguida, alguns homens fazem o mesmo. E então, Iskander, líder do Conselho dá um passo à frente. Ele sorri. Um sorriso confiante, quase orgulhoso. — Nós, do Conselho… — Ele diz. — Estamos honrados em ver a linhagem Tokatli continuando firme na liderança. Halit sabia o que estava fazendo ao escolher Lunara. E o desejo dele será respeitado, como tudo que ele construiu. Os meus olhos se arregalam levemente. Eu não esperava que ele fosse tão direto. Nem tão público. — O Conselho… — Ele continua. — Está absolutamente comprometido com essa nova fase. E Lunara deverá receber todo o apoio, respeito e reverência como líder. O salão vibra com a sua fala. E então começa a verdadeira onda de cumprimentos. Isso mostra como a palavra de um homem tem mais efeito. A reação deles mostra bem isso pra mim. Mais uma vez! Porém, enquanto todos se animam… Um olhar permanece imutável. O de Kan Ruslan. Ele me observa com uma intensidade que não diminuí. Não se quebra. Não se desvia. É quase um desafio. Ou uma leitura silenciosa. Aquilo me incomoda profundamente. A música começa, suave, tradicional. A festa é aberta. O salão ganha vida. Homens conversam, risadas surgem, alianças são reforçadas. Servos circulam com bebidas e bandejas. Eu me sento na cadeira da liderança. A minha nova prisão e vejo tudo acontecer ao meu redor. Pessoas se aproximam para me parabenizar. Alguns trazem presentes: joias antigas, tecidos raros, óleos essenciais, pequenas relíquias. Eu agradeço uma a uma. Um líder das terras distantes se inclina discretamente e chama a minha atenção. — Já começaram os preparativos de noivado, senhora? Quase engasgo. — Esse… assunto ainda não é apropriado — Respondo. Ele se desculpa e sai. Pego uma taça de vinho. Bebo. Respiro. Tento manter leveza no rosto. Harika surge ao meu lado, radiante, animada. — Você está linda. — Ela diz. — E percebeu quantos olhares interessados você recebeu? Eles estão de vendo como uma mulher feita. — Não me interessa. A maioria é algo falso demais. — Respondo. — Mas… está indo melhor do que eu imaginei. — De fato. — Ela sorri. — É bom ver o povo apoiando a mudança. E apoiando você. O tempo passa lentamente e vejo a festa segundo. Osman está no meio de todos, conversando e se mostra bem próximo de muitos deles. E eu noto algo repetidas vezes outra coisa: Ruslan. Ele é cumprimentado por muitos. Recebe atenção, respeito, quase reverência. Falam com ele como se falassem com alguém maior do que aparenta ser. E ele sempre responde com aquela neutralidade disciplinada. Mas sempre volta o olhar para mim. Como se estivesse… medindo algo. Calculando algo. Ou aguardando o momento certo para agir. E ele age. Em um instante específico, quando todos estão distraídos com música, risadas e conversas, ele se aproxima. Pela primeira vez, vejo-o pela distância de poucos passos. Ele é ainda maior de perto. Mais imponente. Mais frio. Ele segura um pequeno item envolto em tecido dourado. Um presente. Ele para diante de mim, faz referência demorada e volta a me olhar da mesma forma. — Sou Kan Ruslan, líder da região central. Vim trazer algo para você, Lunara Tokatli. — Eu aceno. — Não poderia chegar de mãos vazias diante de uma mulher tão importante. Eu me ergo levemente na cadeira. A voz dele marca mais do que eu imaginei. — Agradeço sua presença e seu gesto — Digo. — Espero continuar com os acordos que meu pai estabeleceu com sua região. Aproveite a festa! Ele sorri e o sorriso dele não é gentil. É um sorriso afiado. De quem sabe algo que eu não sei. — Não pretendo desfazer nada. — Ele diz. — Pelo contrário. Vamos nos unir em tudo. Eu franzio a testa. — “Unir”… como assim? Ele inclina o rosto um pouco para o lado. Seus olhos brilham com algo que não sei decifrar. — Não poderia perder esta noite. — Ele responde, tranquilo. — E, claro, não poderia deixar de ver a minha futura noiva. O quê? Eu fico imóvel. Meu sangue congela. Eu quase esqueço de respirar. — Do que você está falando? — Pergunto, minha voz mais baixa, mais dura. Ele ergue o queixo, satisfeito. — Nós fomos escolhidos para o noivado e casamento. — Diz como quem comenta o clima. — E devo dizer… é bom saber que a minha noiva e futura esposa é uma mulher tão linda. Por um momento, tudo some. O salão. A música. As vozes. Harika. Os presentes. Existe apenas o som do meu coração disparado. E a certeza absoluta de que este homem… este estranho… este líder poderoso… acabou de jogar minha vida inteira numa fogueira. Sinto a raiva surgir devagar, quente, firme. Ele me chama de noiva como se isso fosse um fato inquestionável. Como se fosse dono da situação. Como se tivesse direito sobre mim. E o sorriso dele, aquele sorriso de vitória, me diz uma coisa muito clara: Ele sabe que eu não fazia ideia. E gosta disso. Muito. — Você é louco… ou bateu a cabeça em algum lugar? — É a única coisa que consigo perguntar agora. E como se não bastasse me afrontar mais ainda, ele rir. Literalmente, ele mostra um sorriso satisfeito e está adotando me ver perdida. Quem esse desgraçadö pensa que é?
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