20-Mais uma crise interna

1602 Words
Lunara Tokatli Harika me vira de um lado para o outro como se eu fosse uma boneca articulada. Eu só deixo acontecer. Meus pensamentos ainda estão presos naquela sala, naquela respiração curta, no tremor dos meus dedos e… no olhar de Ruslan. Não faço ideia de quanto tempo se passou desde que ela entrou aqui dizendo que meu sumiço já estava chamando atenção. Para mim, pode ter sido cinco minutos ou cinco horas. Minha cabeça ainda pulsa, ainda arde, ainda pesa. — Pronto! — Harika diz, satisfeitíssima, dando o retoque final no canto do meu olho. — Ficou melhor do que antes da festa, eu juro. Eu olho meu reflexo no grande espelho lateral. A maquiagem está impecável. Ela recriou tudo com uma precisão quase irritante, como se não estivéssemos em meio a uma guerra silenciosa. Como se eu estivesse apenas me arrumando para uma noite de gala qualquer, e não para enfrentar um salão cheio de homens famintos por controle. Passo os dedos pelos meus cabelos, agora escovados novamente, sem nenhum sinal do caos de minutos atrás. Retoco o perfume com um movimento automático. Por fora, pareço perfeita: uma líder pronta, imperturbável, fria como exige a região do Norte. Por dentro… eu tremo. Não é medo. Não exatamente. É algo mais confuso, mais perigoso. Algo que só começou depois dele. Ruslan. Respiro fundo para afastar seu nome da minha mente, mas ele volta como se fosse gravado nas paredes do meu crânio. — Você está linda. — Harika comenta, dando um passo para trás e admirando sua própria obra. — Sério… mais linda do que antes. Você já é linda no natural... — Obrigada. — Murmuro, tentando não demonstrar o quanto ainda estou abalada. — Acho que… estou pronta. Ela sorri e segura minha mão. — Vamos? Assinto. Não tenho escolha. Saímos da sala e entramos no corredor silencioso. A cada passo que dou, sinto meu próprio corpo travar e destravar, como se eu precisasse lembrar meus músculos de continuar. Então começo meu ritual mental, aquele que eu uso em necessidade. “Inspire. Reconheça seu valor. Nomeie sua força. Reivindique seu lugar.” Eu faço isso agora. "Eu é Lunara Tokatli." "Eu nasci para liderança." "Eu souma primeira mulher com poder real no Norte em gerações." "Eu não me curvo." "Eu não me tremo." "Eu sou a voz do Norte." "Eu sou mais do que uma mulher entre homens." “Eu sou forte!” Meu peitö se infla. Minha espinha se endireita. E, pouco a pouco, a coragem volta a ocupar o espaço onde o nervosismo insistia em se instalar. Quando chegamos às grandes portas do salão, consigo sentir a vibração da festa antes mesmo de entrar. Risos, conversas, música. Mas, acima de tudo, sinto a pressão invisível da expectativa. O silêncio que se instala quando uma autoridade atravessa a porta. Eu sou essa autoridade agora. Subo o queixo, acerto o vestido e entro. O salão inteiro parece se ajeitar quando me vê. Mantendo a postura firme, caminho até meu assento como se meus passos fossem parte de um ritual antigo. A música continua, mas percebo olhares me seguindo. Desta vez… olhares femininos. Esposas, filhas, irmãs. Mulheres que eu cresci vendo escondidas atrás dos maridos. Quando eu me sento, algumas delas se aproximam. A primeira é a esposa de um líder influente. — Lunara… é uma honra finalmente ver uma mulher no poder. — Ela diz, com brilho verdadeiro nos olhos. — Você não imagina o quanto isso revigora a todas nós. Revigora. Essa palavra me acerta como um abraço inesperado. — Obrigada. — Respondo, com sinceridade. — A honra é minha por ter vocês aqui. Outras se aproximam. Umas tímidas, outras mais ousadas. — Sonhamos com isso por tanto tempo… — Diz uma delas. — É bom saber que teremos alguém que entende o que é ser mulher neste lugar. — Você traz esperança. É estranho, mas eu me sinto mais segura só de te ver. Eu absorvo cada palavra como combustível. Como armadura. Como lembrança de que eu não estou lutando só por mim. — Vocês estão nos meus planos. — Garanto a elas. — Todas vocês. E pela primeira vez na noite, eu sinto alívio. Controle. Propósito. Harika está ao meu lado o tempo todo, vibrando com cada elogio que recebo. Falo com uma, com outra, escuto histórias pequenas, desabafos quase proibidos e sinto algo acender dentro de mim. Eu pertenço a este lugar, sim. E mais que isso: ele pertence a mim. Evito olhar para o salão. Não quero correr o risco de cruzar com… ele. Então mantenho meus olhos apenas nas mulheres, nas taças, no arranjo de flores à minha frente, em Harika, nas conversas. Esse controle dura longos minutos. Bons minutos. O tipo de calma que raramente existe em uma noite política. Até que, infelizmente, eu cometo o erro de olhar para o salão. E, claro, é nele que meus olhos caem. Ruslan. E pior, ele está me olhando exatamente no mesmo segundo. O ar trava na minha garganta. Ele leva um copo aos lábios e bebe como se estivesse me provando alguma coisa. Eu quase consigo sentir o gosto da boca dele outra vez. Uma memória rápida, quase um choque elétrico, toma meu peitö. Mas algo está… errado. Ele está quieto demais. Sério demais. Neutro demais. Não tem o sorriso convencido. Não tem o olhar que invade. Não tem o deboche que me irrita. Não tem… nada. É perturbador. É inédito. E me desarma de um jeito que eu detesto. Desvio o olhar rápido, como se estivesse queimando, e tomo um gole da minha própria bebida. Qualquer coisa para não me perder naquilo. Harika começa a falar algo, mas é chamada para dançar por seu tio Osman. Eu deixo que ela vá. Ela parece feliz, e Osman, apesar de irritante comigo, a trata bem. Eu, por outro lado, não quero dançar. Não quero ninguém tocando em mim. Meu corpo ainda parece marcado pela presença de Ruslan, mesmo que nada tenha acontecido… ou talvez tenha acontecido demais sem acontecer nada. Só que, quando menos espero, um dos líderes do conselho para diante de mim e se curva levemente. — Senhorita Lunara… me concederia esta dança? Penso em Osman. Penso no resto do salão. Penso que recusar agora seria combustível para rumores. E penso que qualquer um é melhor do que Osman e Ruslan. — Claro. — Respondo, levantando-me. A música é tradicional, cheia de palmas, giros e passos que seguem um padrão antigo. É quase automático, o meu corpo conhece esses ritmos desde a infância. Hamirez me observa enquanto dançamos. Seus olhos são calculados demais para ser apenas uma dança. Tem algo mais. — Eu tenho algo a dizer, Lunara. Eu sabia. — Não é só uma dança, então. — Não. — Ele admite. — É um aviso. O conselho quer uma reunião ainda hoje. Minha respiração falha por um segundo. — E qual é o assunto? Ele hesita um instante, olha ao redor e disfarça bem. — A senhora. Sua liderança. Suas intenções para o Norte. Alguns questionamentos… intensos. Eu mordo o interior da bochecha. Sinto o sangue ferver. — Questionamentos como? — Sobre o fato de que… talvez seja necessário um casamento o quanto antes. Ou pelo menos um homem que lidere ao seu lado em certas questões. Os meus passos quase falham. — Estão sugerindo dividir a minha liderança? — Não oficialmente. Mas… muitos são tradicionais e querem isso. Acreditam que certas decisões não podem vir de uma mulher sozinha. Seguro sua mão com mais força do que deveria. — Isso é um absurdo. Comecei agora. Eles sabem disso. — Eu sei. — Ele sussurra, aproximando-se. — Sempre fui leal ao seu pai. Confio na decisão dele de deixá-la no comando. Mas não posso ignorar o restante do conselho. Eles querem… conciliação. E vão apresentar exemplos na reunião... tem que se preparar. — Estarei lá. — Digo, gelada. — E vou ouvir tudo. — É o que esperamos. E pense bem... eles estão firmes nisso e além deles, tema mais membrös que querem isso. Ou seja, são muitos. A música termina. Me afasto dele com um aceno contido e volto ao meu lugar… queimando de raiva por dentro. Dividir liderança? Com um homem? Agora? Depois de tudo o que estou fazendo? Esqueceram que eu também fui pega de surpresa nisso tudo. Esqueceram que eu perdi meu pai há semanas e, ainda assim, não caí. Esqueceram que tenho trabalhado, estudado, treinado, lutado para ser forte o suficiente e que o acordo feito pelo meu pai nem mencionava um casamento. E eles aceitaram! Esqueceram de me respeitar. Sento-me. Vejo Osman se aproximar querendo me chamar para dançar, mas levanto uma mão e peço tempo. Ele recua. Pelo menos isso. Eu não quero mais dançar. Não quero beber. Não quero nada. Só quero que essa noite termine. O tempo passa. O salão esvazia aos poucos e nada de Ruslan ir embora. Esse homem não sabe o significado da palavra recuar. Mas algo chama minha atenção antes disso: Harika está dançando. E não com Osman. Com o irmão de Ruslan. Ela ri. Ele também. E os dois parecem… confortáveis. Leves. Divertidos. Se Harika aceitou, é porque ele fez do jeito certo, o oposto da forma predatória com que Ruslan tentou se aproximar de mim. Eu assisto, atônita. E então a música acaba. A festa se encerra. As luzes começam a baixar. E eu me levanto sabendo que agora vem a parte mais difícil. A reunião. A afronta. Chegou a hora de encarar tudo isso… e garantir que ninguém roube o que meu pai deixou para mim.
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