19-O peso do momento

1419 Words
Lunara Tokatli Eu não penso. Não raciocino. Simplesmente ajo. Um impulso bruto, irracional, ferido e atiçado explode de dentro de mim, e antes que eu consiga me deter, minhas mãos empurram o peitö dele e minha boca encontra a dele num movimento rápido, quase violento. O choque do contato me paralisa por um décimo de segundo, mas então o sabor dele invade meu paladar, quente, intenso e eu me perco. O beijo me rasgä por dentro. Eu não sei o que estou fazendo, só sei que não consigo parar. Ele estava tão perto, falando coisas que me desmontaram, tocando meu perfume, o pescoço… provocando cada nervo meu como se soubesse exatamente onde apertar. Talvez saiba. Talvez seja esse o problema. Talvez ele tenha percebido desde o início que eu estava à beira de quebrar. Eu o beijo com fome. Uma fome que eu mesma desconheço. E quando Ruslan retribui, quando sua boca se encaixa na minha com uma força que arrepia até a raiz do meu cabelo, é como se meu corpo inteiro fosse jogado contra uma parede emocional que eu segurei por tempo demais. Eu gemo. Eu, Lunara Tokatli, solto um som que não deveria existir e sinto meus dedos agarrando a gola da camisa dele sem que eu tenha plena consciência disso. Há quanto tempo eu não fazia isso? Eu não lembro. Eu estou insana de desejo e estou queimando. Lá me baixo parece estar pegando fogo. Não lembro com clareza. Só sei quando foi, e essa lembrança sangra dentro de mim como um aviso. Mas no momento, no meio do beijo, com as mãos dele na minha cintura, com a língua dele conquistando a minha, eu ignoro tudo. Ignoro meu sobrenome. Ignoro o peso da Casa Tokatli. Ignoro a política, os olhares, as expectativas. Eu me entrego. E ao mesmo tempo, eu me condeno. Ruslan me puxa mais, e quando sua boca desce para o meu pescoço, minha mente desperta como se levasse um tapa. Eu abro os olhos, sinto o ar frio bater na pele que ele acabou de beijar, e a realidade cai sobre mim com brutalidade. Ele só me quer porque quer o Norte. Ele só me quer porque sou uma peça. Eu sou o prêmio de guerra, o trono, a chave. Uma ponte. E ele sabe disso tão bem quanto eu. — Isso não deveria ter acontecido. — A minha voz m*l sai, trêmula, sufocada. — Fica longe de mim! Eu não espero resposta. Eu me afasto tão rápido que quase tropeço. Sinto a respiração descompassada, como se eu tivesse corrido quilômetros. — Lunara... Ele diz meu nome. Duro. Quase uma ordem. Eu fujo. Eu literalmente fujo, como uma covarde, mas eu não tenho vergonha disso. Tenho instinto. Tenho sobrevivência. E agora, tenho pânico correndo nos meus ossos como um veneno. Quando chego no corredor, ele está vazio e agradeço por isso. Eu ando rápido, quase tropeçando no tapete. Minha cabeça gira e meu corpo parece trêmulo demais para seguir em linha reta. E eu não posso usar os corredores principais da mansão, não posso aparecer assim, com essa tensão, com o rosto queimando, com o coração parecendo um tambor. Penso rápido. Passagem interna. Eu sigo pela lateral, encontro a parede falsa, deslizo a mão sobre a madeira até achar o ponto de pressão e empurro. A a******a se revela, estreita, escura, silenciosa. Entro e fecho atrás de mim. A respiração sai em soluços curtos. O som dos meus passos ecoa nos túneis internos, e eu quase agradeço por isso. Apaga meus pensamentos, mesmo que por um segundo. O beijo volta na minha mente inúmeras vezes, como se estivesse grudado em mim, e eu odeio cada nova lembrança que se repete. Eu sinto a boca latejar. Sinto a pele do pescoço quente onde ele me beijou. Sinto o corpo inteiro reagindo como se ainda estivesse nos braços dele. Eu aperto o passo, quase correndo dentro do túnel. Por que eu fiz isso? Que diabö passou pela minha cabeça? Eu perdi o controle de uma forma… vergonhosa. A pressão do salão foi demais. O cheiro forte do álcool, as perguntas insistentes, as sugestões invasivas sobre casamento, alianças, propostas… maridos. Homens me avaliando como gado a cada dois passos. Como se fosse aceitável me apalpar com os olhos e perguntar quando finalmente eu iria “cumprir meu papel”. Eu me senti cercada por lobos. E Ruslan… Ruslan fez o que ninguém deveria fazer: atravessou minha barreira no exato momento em que ela estava mais frágil. Chego finalmente ao meu corredor, abro a porta do meu quarto e entro, fechando com força. Eu paro. Eu respiro. Eu desabo na cama. — Eu sou louca... — Sussurro para mim mesma, enterrando o rosto nas mãos. — Completamente louca. Ele começou tudo. Sim, ele provocou, testou meus limites, tocou meu pescoço, respirou no meu perfume. Mas fui eu que o beijei. Eu dei a ele exatamente o que ele queria, ou parte do que ele queria. Eu me deito, encarando o teto. O quarto está silencioso, mas minha cabeça está uma explosão de ruído. A ansiedade que me tomou no salão ainda pulsa fraca no meu peitö, como um eco tardio. Mas agora existe uma outra sensação, muito pior: o desejo. Fazia tanto tempo que eu não sentia isso que meu corpo reagiu como se estivesse despertando depois de anos dormindo. Eu detesto isso. Detesto como minha pele ainda arrepia quando lembro da língua dele. Detesto como minhas mãos ainda tremem. Eu não posso desejar Kan Ruslan. Nunca. — Você é uma idiotä, Lunara... — Falo sozinha. — E agora? Batem na porta. Meu coração dispara na garganta. Por um segundo, eu imploro aos céus que não seja ele. Ou Osman. Ou qualquer homem. Eu não aguento mais nenhum olhar, nenhuma pergunta, nenhuma aproximação. Abro a porta com cautela. É Harika. Meu alívio é imediato e grande demais para ser disfarçado. — Lunara! — Ela entra rápido. — Eu estava te procurando, fiquei preocupada. — Eu só… precisava de um minuto. — Digo, tentando soar minimamente normal. — Já se passaram mais do que isso. — Ela responde, franzindo o cenho. — Meu tio pediu para verificar se você está bem. Osman. Claro que ele pediu. Ele sempre está por perto, sempre observando, sempre com preocupações que não sei se são sinceras ou convenientes. Viro meu rosto e caminho de volta até a cama. — Eu vou esperar um pouco antes de voltar. — Digo. — Só preciso respirar. Harika se aproxima e senta ao meu lado, colocando a mão gentilmente sobre minha coxa. — Eu sei. — Ela diz num tom acolhedor. — É muita coisa, Lunara. Muita pressão, muita gente comentando, opinando, perguntando… Tudo ainda é novo. E tudo vai ser dominado por você no momento certo. Não se cobre tanto. Eu fecho os olhos. Harika não sabe metade do que passa dentro de mim agora, mas sua voz ajuda. Alivia. Me dá um mínimo de chão. — Obrigada. — Murmuro. Ela me observa por alguns segundos e então franze a sobrancelha. — Seu batom… está um pouco manchado. Meu coração para. Eu sinto o rosto pegar fogo instantaneamente. — Eu… fui ao banheiro. — Começo a gaguejar, procurando qualquer justificativa plausível. — E-eu..., eu tentei retocar, mas passei da linha, aí tentei arrumar e ficou pior, e… eu perdi a paciência. Sou péssima nisso... você sabe. Harika ri baixinho. — Isso é bem a sua cara mesmo. Vem cá, eu arrumo pra você. Ela realmente acredita. Abre sua nécessaire, pega os produtos, começa a limpar e refazer o batom com calma e precisão. Eu fico aqui, imóvel, deixando que ela cuide do estrago físico enquanto dentro de mim, eu afundo cada vez mais na lembrança do beijo. O beijo que eu dei. Que eu iniciei. Que eu quis, mesmo sabendo que não deveria. O beijo que já me desgraçou a cabeça inteira. Eu não sei como vou olhar para Ruslan de novo. Na verdade, eu nem sei se sou capaz de voltar ao salão agora. Não sei se tenho força para encarar olhares ou suportar o peso do que fiz. Não sei como esconder que meu corpo ainda está em alerta, que meus lábios parecem queimando, que minha mente repete cada segundo daquele beijo como se precisasse me torturar mais. Eu me sinto uma idiotä. Uma idiotä completa. E o pior: eu duvido que Kan Ruslan vá simplesmente desaparecer depois disso. E essa é, talvez, a parte que mais me apavora.
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