Devidamente recomposta, prendi meu cabelo no alto da cabeça e voltei para o andar presidencial como se estivesse chegando agora.
Não cheguei perto da sua porta.
Me sentei na cadeira e comecei a trabalhar mais concentrada do que nunca. Respondi e-mails, refiz agenda, marquei presença, organizei documentos e tudo mais que uma secretária deve fazer. O que deveria ter ocupado meu tempo pela manhã inteira durou apenas pouco mais de uma hora, e mesmo quando a porta se abriu, revelando vozes masculinas, não ousei me virar na cadeira. Não quis saber quem era, e através da agenda presumi que era o rapaz da manutenção que Cohen solicitou para ver a porta.
— Agora está lacradinha. — Disse a voz desconhecida, um trabalhador entusiasmado que sequer obteve uma resposta do Cohen.
Sentia os olhos de Cohen em mim, queria negar que fosse verdade, mas sentia, eu apenas sentia, só não conseguia decifrar o que ele estava sentindo ou achando naquele momento. Somente agi com indiferença.
— Obrigado. Você fez um ótimo trabalho. — Ouvi a voz rouca de Cohen. Me distraia com intermináveis planilhas para preencher, quando o senhor com macacão azul da zeladoria me cumprimentou. Não era da minha índole não retribuir, e seu aceno foi tão genuíno que me fez sorrir.
Um silêncio perdurou depois que a porta do elevador de serviço se fechou. Sabia que Cohen continuava de pé com a porta aberta, me olhando seja lá porque for, eu não olhei!
— Ele arrumou a porta. — Disse de repente. Mas fingi que a declaração de direitos de imagem que eu precisava mandar para impressão era mais importante.
— Hum. — Murmurei. Quando na verdade queria dizer:
Ótimo, agora eu posso te xingar em voz alta que não vai ouvir.
Cohen suspirou com evidente impaciência
— Anya eu…
— O senhor tem uma reunião na sala de conferência em dez minutos. — Disparei me levantando e recolhendo alguns papéis junto ao corpo, para então sair de trás da mesa, sem olha-lo.
— Aonde vai? — Perguntou depressa, sem conseguir esconder seu receio. Quase como se fosse medo.
Medo do que afinal? De que eu fosse levantar e nunca mais voltar?
Eu voltei, não voltei?
Já engoli muita coisa nessa vida, e pela minha família aguentaria muitas mais. O fato de me sentir uma i****a se dá pelos dias que permiti me aproximar de Cohen, me esquecendo de quem realmente éramos.
A verdade é que pra ele, a mulher naquela noite ainda não foi encontrada, e ele conta com a ajuda da sua secretária para encontrá-la. Querer consertar os estragos só mostra que a única pessoa que realmente está confundindo alguma coisa, sou eu mesma.
— Fazer o que uma secretária faz, preparar a sala de conferência! — Respondi secamente, chamando o elevador sem cerimônia alguma.
Me orgulhei dos meus passos firmes até a sala, me orgulhei do meu queixo erguido enquanto caminhava, me orgulhei até dos olhares que foram direcionados a mim, somente com a atribuição de uma postura confiante.
Na sala, arrumei tudo em cima da extensa mesa preta, baixei as luzes para verem melhor o telão e espalhei a pauta da reunião para todos os lugares dispostos na mesa ao lado de seus copos de água.
Os requisitados logo chegaram ocupando seus lugares e conferindo no relógio, avistei Hannah adentrar a sala, mostrando algo na pasta para o rapaz do seu lado. O homem que prendeu minha atenção por alguns segundos. Os cabelos negros como as asas de um corvo, os traços intensos e familiares, e agora sem a máscara, ali estava ele, Casper Archer.
Hannah sorriu de canto e me lançou uma piscadela, eu quase a amaldiçoei por isso, pois Casper seguiu seu olhar e segundos depois, estava me olhando por cima dos ombros.
Fingi que nunca tinha o visto antes, e continuei o que estava fazendo. Terminei de distribuir as pautas e coloquei por último o tablet na cadeira do anfitrião da reunião, que chegou no mesmo momento.
Vi que Cohen estava vindo por um lado da mesa, então decidi sair pelo outro, onde Casper já se acomodava. Senti seu olhar em mim e até depois, quando passei pelas suas costas. Hannah fez questão de morder o lábio inferior quando a alcancei. Ocupando ao lado dela meu lugar na mesa. Estávamos ali apenas para fazer anotações, chaveirinhos dos nossos superiores, auxiliares que não poderiam negar favores se solicitado.
A reunião se estendeu por horas, e o que realmente me incomodou é que eram propostas ridículas para um novo lançamento da Archer como se o último não fosse um fiasco. Foi inevitável não sorrir com desdém do que era falado. Perdi as contas de quantas vezes revirei meus olhos, e de quantas não quis gargalhar de tão imprestáveis que eram.
Cohen não tirava os olhos de mim, e eu não precisava encará-lo para perceber isso, portanto não economizava nas expressões sarcásticas e entediadas. Algo me diz que ele realmente só ouviu todas aquelas pessoas, porque sequer estava prestando atenção.
Para o meu desgosto, o telão simplesmente travou em um slide, mas agradeci pelo tablet não estar nas mãos de Cohen, e sim de Casper, e eu achando que Hannah é quem iria ajuda-lo, senti um salto me cutucando, e a encarei encontrando um sorrisinho malicioso.
Ela e essa história de dividir.
Me levantei e caminhei até Casper, que hesitou quando me viu do lado.
— Estava nesse aqui! — falei clicando no slide correto, fitando o telão para me certificar de que tinha voltado ao normal.
— Obrigado! — A voz era a mesma rouquidão intensa da festa, quase tão bonita quanto a voz de Cohen, mas seus olhos eram tão gritantemente diferentes, que olhar para aquelas orbes escuras, era como olhar para um buraco n***o.
Voltei para o meu lugar sentindo o olhar deles em mim. Ainda na baixa luz daquela sala, senti meu celular vibrar no bolso, e por baixo da mesa encontrei um número desconhecido mandando "oi".
Ao abrir, vi que a pessoa digitava, e logo se apresentou como a garota que me ajudou na noite de lançamento da Archer. A mesma que perdeu sua chance de falar com Cohen, mas que ganhou uma carona e a promessa de que poderia me procurar para resolver esse dilema.
Um sorriso cínico surgiu no canto dos meus lábios, e uma sensação tirana e ardilosa de querer cutucar Cohen com o que mais estava ocupando seus pensamentos.
Como se uma força magnética nos atraísse, meu olhar se encontrou com o dele, que foi pego no flagra me encarando fixamente do outro lado da mesa. Sustentei o mesmo por pouco tempo, antes de voltar minha atenção ao celular e agendar uma visita com a garota enviada pela Dama de Prata, vulgo eu mesma.
Não me julguem, longe de querer brincar com perigo, ou cutucar uma onça com vara curta. Eu só queria ver a reação dele ao saber que ela estava por perto.
Quando finalmente a reunião chegou ao fim, deixei a sala ao lado de Hannah, que resmungava sobre a fome e a vontade gritante de tomar café, obviamente para me provocar e querer me fazer ir até a cafeteria, mas eu não conseguia sequer pensar na hipótese de ver o Joe depois das barbaridades que mandei pra ele no meu momento de raiva no banheiro. Ri nervosamente na companhia mais inesperada. Pelo visto meus dias se resumem em pessoas e atitudes menos prováveis.
Eu poderia considerar isso uma fase, ou talvez, um elemento alarmante que eu precisava mudar de vida, e já que não me esforçava para isso, o universo estava conspirando.
Não voltei para o andar presidencial pois já havia passado do meu horário de almoço, ao contrário da Hannah, que mesmo reclamando sua fome, disse que tinha algo mais importante aguardando-a na sala do Casper. Não precisei mais do que segundos para imaginar o que era.
Almocei sozinha aproveitando meu tempo para ler alguns artigos da universidade. Voltei para meus afazeres com uma terrível dor de cabeça, que perdurou pela tarde inteira, consequência de um único dia sem tomar meu café por inteiro.
Vi Cohen apenas duas vezes depois disso, ambas ele tentou dizer algo além do que era necessário do nosso contato de profissional para profissional, mas eu impedi, com informativos e lembretes dos seus próximos compromissos. Como previ meu corpo cobrava a noite não dormida, e no fim da tarde eu me vi explodindo em dor de cabeça e um sono que me fazia pescar se eu marcasse bobeira.
Sai exatamente no meu horário, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Me encontrei com Holly no mesmo local de ontem e atendendo ao meu pedido, ela me trouxe um café, e enquanto bebericava minha bebida que servia como um energético em minhas veias, contei a ela o que aconteceu hoje e tive como resposta suas reações exageradas e juras de morte para Cohen Archer e desejos de impotência s****l para o Joe.
Apenas verbalizando pela segunda vez, um resumo aprumado do meu dia, foi que percebi o quão inusitado era estar vivendo uma situação como essa, e que a partir de agora eu precisava ficar ainda mais longe de Cohen e ignorar por longos bons dias o Joe, já que eu esculachei o pobre coitado com a ajuda das três por mensagens.
Na manhã seguinte eu culpei meu atraso pelo sono atrasado, e cheguei sem querer alguns minutos depois do habitual, pela primeira vez na minha vida. Passei direto sem sequer olhar para dentro da cafeteria, e agradeci pelo fato de Cohen não estar na sua sala quando cheguei, entretanto, estranhei a porta aberta.
Recolhi todos os relatórios da sua mesa que ocupariam meu tempo pelas próximas aulas, e quando ia saindo, avistei dois copos de café ainda quente pela fumaça que subia dos mesmos. Reconhecia o meu somente pelo cheiro adocicado e apesar de atraente, não ousei tocar, pois é certo que estava ali somente porque Cohen o usava como adoçante.
Alguns minutos depois que me sentei Cohen chegou, para minha surpresa, carregando mais um combo de dois cafés idênticos na mão, deixando que seu olhar caísse sobre mim com um certo alívio.
— O café de hoje estava h******l, algo que eu tenho a absoluta certeza, ter a ver com a minha presença e não a sua. — Sorri de canto imaginando que Joe deve ter usado os cafés para me mandar um recado graças que minha ofensa contra seu café por mensagem.
— Dizem que não é recomendado mesmo trabalhar de mau humor. — Comentei sem tirar meus olhos do computador. Percebi a sombra de Cohen do meu lado, deixando meu café sobre a mesa, esperando que eu o notasse.
Percebi que ao pegar os relatórios na sua mesa, eu devo ter deixado meu celular na mesma, portanto o deixei ali, entrando sem pedir permissão na sua sala como se Cohen não estivesse bem atrás de mim. Avistei o mesmo e o peguei, mas não contava que ao me virar, Cohen estaria mais próximo do que jamais esteve nesta sala. Pontua-se: nesta sala, pois sabemos que mais perto um do outro atrás daquela pilastra, teríamos nos fundido em um só.
Foi inevitável não me assustar com sua proximidade. Senti meu bumbum na mesa, eu estava encurralada pelo seu corpo e seu perfume.
— Vai me ignorar até quando? — Perguntou com a voz extremamente ríspida e autoritária. Um arrepio subiu pela minha coluna. Engoli seco com sua voz rouca ainda ecoando na minha cabeça, e forcei meus neurônios derretidos a pensarem em uma resposta.
— Não estou te ignorando, estou apenas fazendo o meu trabalho. — Cohen olhou para minha boca enquanto eu falava. — Deseja algo?
— Sobre ontem…
— Algo que eu possa fazer agora, não ontem. — Surpreso pela minha interrupção, ele procurou meus olhos com a testa franzida. Suas expressões cada vez mais endurecidas, como se eu estivesse extraindo o pior dele.
— Existem muitas coisas que eu queria que fizesse agora. — Declarou sério, no tom que eu bem conhecia, ou ao menos me lembrava, e essa lembrança me levava a uma única noite que jamais deveria ter acontecido.
— Infelizmente senhor Cohen, eu sou uma só. — Ele anuiu em derrota, saindo do meu espaço pessoal para encarar a vidraça.
Suspirei sem emitir som, e sai da sala agarrando meu celular entre os dedos. Meu coração parecia que saltaria do peito, precisei respirar fundo para não voltar naquela sala e fazer esse homem pelo menos terminar o que começou naquela noite, porque certo como o inferno, os dias estavam cada vez mais quentes. Principalmente ao lado dele.
Algumas horas se passaram e enquanto eu estava entretida com meu trabalho, a porta do elevador social se abre, e os saltos de Hannah chamaram minha atenção. Ela caminhava em minha direção com um sorriso travesso, e parou debruçando-se sobre o balcão em frente a minha mesa.
— Pausa pro café, pensei, por que não fazer uma visita a Anya e contar como quem não quer nada, que alguém perguntou sobre ela? — Despejou sem ao menos me cumprimentar, forçando um tom misterioso.
— Joe? — Perguntei estranhamente esperançosa.
— Passou longe. Casper Archer! — Franzi minha testa ao mesmo tempo que tinha a breve sensação de ter sido desmascarada. Quase em sentido literal.
Olhei para a porta do Cohen instintivamente, encarando a mesma fechada.
— Perguntou o quê?
— Coisas como: há quanto tempo nos conhecemos, se eu sabia aonde você estava na noite da festa da Archer… — Deixou no ar arqueando uma única sobrancelha.
— Por que ele perguntaria isso? — Um nervosismo começou a me corroer por dentro. Como se ela precisasse apenas de uma confirmação. E a ideia de que Casper possa ter me reconhecido aterrorizou meus pensamentos.
— Bem, essa é a parte boa da fofoca, porque Casper já me falou algo sobre a obsessão de um certo alguém… — Olhou para a porta do Cohen. — Em uma certa pessoa. — Voltou seu olhar pra mim.
— Eu sei muito bem quem é essa pessoa. Não fale em códigos.
— Humm… Então você admite que escondeu algo importante da gente. Algo que explica o possível ataque de ciúmes do seu chefe ao saber que você procurou pelo Joe.
Deixei minhas expressões cederem, e a ausência de um alívio que deveria ter me preenchido, mas nem passou perto disso.
— O que? Não, claro que não! Estou falando da Dama de Prata, por que você achou que eu estava falando de mim?
— Porque foi o seu nome que Casper usou ao dizer que queria conhecer para provocar o Cohen.
Ri forçadamente e em um nervosismo evidente.
— Isso não faz sentido.
— Sabe o que não faz sentido? Cohen não ter tirado os olhos de você na reunião. — Disse como uma tirana experiente. — O que você não está me contando, Anya?
Então era das teorias de Hannah que eu deveria temer! Mas é claro, ela é ardilosa e uma rata bem desconfiada, difícil de convencer, e bem, meu histórico de mentiras não era dos melhores, estava praticamente vivendo duas vidas e é óbvio, que uma hora ou outra alguém ia perceber, principalmente se tratando de uma mulher. Todavia, eu não sairia da minha posição de defensiva.
— Eu não vou embarcar nessa loucura. Se tem algo a dizer, diga logo.
— Humm… ok! Se não quer me contar, eu descubro sozinha. Mas, nem é sobre isso que eu vim falar. Amanhã iremos a um pub aqui perto, você podia vir com a gente.
Agradeci internamente sua mudança de assunto, ainda que seus olhos desconfiados não me deixassem por um só segundo, encarando-me com afinco.
— Não sei não, geralmente essas saídas acabam comigo.
— Ah, qual é Anya. Vamos, vai ser legal. — Hannah se debruçou sobre o balcão com uma cara de cachorro pidão. — Todo mundo vai.
— Eu vou pensar no seu caso. — Falei, apenas para que ela me deixasse em paz. Afinal, amanhã nem aqui vou estar, e me manter longe dos meus colegas de trabalho agora é uma questão de sobrevivência.
E isso me fez lembrar de que preciso comunicar o Cohen, então levantando avistei o sorriso de Hannah crescer, satisfeita por provavelmente imaginar que iria conseguir me convencer.
Percebendo que eu entraria na sala do Cohen, ela me mandou um beijo no ar e saiu com seu rebolado natural.
Dei dois toques na porta aguardando Cohen me autorizar, e quando entrei, ele estava sentado de modo desleixado em sua cadeira, com as costas completamente recostadas e o cotovelo apoiado no braço da mesma, enquanto sua mão cobria sua boca em um gesto pensativo, ao mesmo tempo em que seu olhar acompanhou meus passos sem hesitar, sério, inexpressivo. Eu não fazia a menor ideia do que se passava na sua cabeça.
— Preciso que assine algumas coisas que o jurídico pediu. — Falei caminhando até sua mesa, aproveitando para deixar algumas notas também. Parei do seu lado, indicando onde ele tinha que assinar, mas não obtive nenhuma reação, Cohen continuava me olhando, agora por cima dos cílios.
Suspirando preguiçosamente, ele trouxe seu corpo para frente, capturando a caneta na mesa como se estivesse sendo forçado a isso.
— A propósito, amanhã vou precisar sair mais cedo. — Disparei, e Cohen não completou o que estava fazendo.
— Se está pedindo permissão, a resposta é não. — De todas formas que Cohen poderia me deixar sem reação, essa foi a mais inesperada, porque eu nunca precisei sair mais cedo, nunca pedi nada parecido. E pensei que meu histórico exemplar fosse me ajudar de algo…
Isso não é justo!
Cohen rabiscou a folha de qualquer jeito, e voltou para sua posição desleixada, procurando meu olhar segundos depois enquanto eu ainda mantinha a mesma expressão estarrecida.
— Cohen, eu preciso. Não estou pedindo uma folga, são apenas algumas horas.
— Nós temos um combinado, Anya, é você quem prefere sair depois dos outros funcionários, não vou te liberar mais cedo só porque todos vão sair. — Meu queixo despencou, olhei para a porta, e depois ele, presumindo que ele ouviu toda a conversa com Hannah.
— Você não mandou colocar acústico? — Indaguei irritada.
— Não, foi um problema na fechadura.
Ri sem vontade alguma, lembrando das palavras de Hannah, sobre estar olhando por cima nesse exato momento, sobre exercer mais poder sobre ele, e eu sei disso.
— Vamos deixar as coisas bem claras, Senhor Cohen. — Falei firme, com uma educação forçada. Minha pele queimava em raiva. — O que faço depois do nosso horário combinado não te diz respeito, mas, se estou pedindo para sair mais cedo, pode ter certeza que não tem nada a ver com isso, é para a feira publicitária que eu preciso estar presente. Agradeceria se pudesse compreender, caso contrário, amanhã você me pedindo ou não, eu estarei aqui mais cedo, e vou sair no mesmo horário que todos os outros funcionários.
Cohen travou o maxilar, e eu não percebi estar olhando-o tão presunçosamente de cima.
Pode parecer loucura da minha cabeça, mas o ultraje que eu esperei vir em forma de surpresa nas linhas expressivas de Cohen, não veio. Por um momento eu pude jurar que a sombra de um sorriso o deixou ligeiramente ameaçado.
Acontece que Cohen não é um tipo de pessoa que se sente ameaçada, ele geralmente enxerga isso como um desafio, e eu posso dizer com todas as letras, que sou a prova viva.
— Obrigado por entender. — É claro que eu estava brincando com perigo. Abusando da sorte, mas a sensação de poder realmente é revigorante. E cada vez que eu provava da mesma, eu queria sentir mais. Eu que jamais imaginaria ter Cohen cedendo a mim, obtive um aceno positivo, sem saber se aquele meio sorriso que surgiu significava que o meu estava na reta, ou que ele gostou de me vê-lo enfrentando.
Não importa, a partir de hoje, se ele realmente gosta desse jogo, vai ter que lidar comigo, jogando. Coisa que eu não estava fazendo, até o momento.