CAPÍTULO 6 – QUASE TE BEIJEI

1505 Words
O sábado amanheceu com o céu azul demais para o caos que Elle sentia por dentro. Era como se o universo zombasse do turbilhão que ela tentava sufocar desde que Théo aparecera na sua vida com aquele olhar indecente de quem enxerga mais do que deveria. Ele a provocava com presença, com silêncio, com aquele sorriso que parecia saber segredos que ela mesma tinha enterrado. Elle passou o dia evitando os espelhos e os pensamentos. Tentou estudar, limpar o quarto, fingir normalidade. Mas nada abafava o fato de que aquela noite seria diferente. Lina surgiu no meio da tarde com um vestido colado, um brilho nos olhos e uma notícia impossível de ignorar: — Hoje tem festa no alojamento dos veteranos. Vai ser insano. E antes que você diga não... já escolhi sua roupa. — Lina... — Sem desculpas, Elle. Você precisa viver. Nem que seja por uma noite. Nem que seja só pra dançar e esquecer que o mundo exige tanto de você. Elle suspirou. Ela não gostava de festas, de aglomerações, de gente bêbada tropeçando em segredos que ela lutava para esconder. Mas havia algo na maneira como Lina falou... e, talvez, algo dentro dela que começava a querer mais. Mais do que o medo. Mais do que as cicatrizes. Mais do que sobreviver. Na hora em que o sol se pôs, com o céu tingido de laranja queimado e o som da música chegando de longe, Elle se vestiu com mãos trêmulas. Nada extravagante. Um vestido leve, preto, que deixava as pernas livres e os ombros nus. Como se ela estivesse — pela primeira vez em muito tempo — pronta para ser vista. E quando ela atravessou os corredores iluminados por luzes de LED, não sabia que aquela seria a noite em que quase se deixaria beijar. Nem que, ao fim dela, começaria a cair. Não de fraqueza. Mas de desejo. E, talvez, pela primeira vez… de esperança. O som da música vibrava pelo chão, pelas paredes, pelo peito. O alojamento parecia pulsar com as batidas do DJ e os corpos dançantes que ocupavam cada canto da festa. Elle já tinha perdido a conta dos copos que aceitou de Lina. Nada demais — só o suficiente para soltar os ombros e deixar a mente respirar. E naquele momento, entre a fumaça artificial e as luzes estroboscópicas, ela não era a garota com cicatrizes. Era só mais uma universitária tentando esquecer. Vestia um vestido leve, preto, que dançava com ela. O cabelo solto, os olhos brilhando entre a névoa da bebida e da música. E Théo, parado ao longe, a via como se ninguém mais existisse. Ela era um raio no meio da escuridão. Selvagem. Solta. Linda. — Vai falar com ela ou vai continuar babando de longe? — Caíque surgiu ao lado dele, com um sorriso torto e uma garrafa na mão. — Se eu for agora, estrago tudo. — Théo respondeu. — Ela precisa se sentir livre primeiro. Precisa se deixar levar. — E você vai aguentar? Théo mordeu o canto do lábio. A resposta era não. Mas ele respeitaria. Porque com Elle, qualquer passo em falso era um abismo. Elle dançava de olhos fechados, os braços no ar, o corpo em sintonia com a batida. A cada giro, sentia o ar esquentar. E quando abriu os olhos... ele estava lá. Théo. No meio da multidão, parado, como se todo o caos em volta não o atingisse. Os olhos cravados nela. A respiração dele... mesmo de longe, ela podia sentir. Era como se a puxasse com o olhar. Ela caminhou até ele devagar. Como quem se aproxima do perigo sabendo que não vai sair ilesa. — Você não dança? — perguntou, a voz rouca pela bebida e pela tensão. — Só quando tenho certeza de que a música vale a pena. — E agora? — Agora estou tentando não te beijar na frente de todo mundo. Elle sentiu a espinha estremecer. Ele estendeu a mão, e ela colocou a dela ali, como se fosse natural. Ele a puxou para perto, devagar. Os rostos próximos demais. Os corpos ainda não colados — mas quase. As mãos dele pousaram em sua cintura. As mãos dela, nos ombros dele. E os olhos... nos lábios. — Eu devia ir embora. — ela sussurrou. — Então por que ainda está aqui? — Porque eu quero o que não deveria. — Então me deixa ser teu erro favorito. A boca dele desceu. Milímetros. E então… ela recuou. Dois passos. Rápidos. Como se estivesse fugindo de si mesma. — Desculpa. Eu... preciso de ar. Théo ficou parado, o peito subindo e descendo, como se tivesse levado um soco. Elle atravessou a multidão. As luzes, a música, os risos — tudo parecia distante. Ela entrou no banheiro, trancou a porta e se apoiou na pia. O reflexo no espelho mostrava mais do que queria ver: medo. Desejo. Culpa. Ela queria Théo. Queria muito. Mas algo dentro dela ainda gritava por controle. Por segurança. E ela ainda não sabia se ele era abrigo... ou mais um furacão. Elle se apoiou na pia, os olhos fixos no espelho. Respirava fundo, tentando recuperar o controle que escorria pelos dedos. O batom estava levemente borrado, e o brilho no olhar era mais do que álcool — era conflito. Ela queria ter deixado acontecer. Mas seu corpo ainda carregava memórias demais. Alguém bateu na porta. Uma batida leve, firme, familiar. — Elle... sou eu. Théo. Ela fechou os olhos. Não podia. Não devia. Mas... queria. — Só me deixa em paz, Théo. Por favor. Do outro lado da porta, ele encostou a testa na madeira. A voz saiu baixa, sem arrogância. Sem joguinho. — Você me olha como se quisesse me beijar. Mas corre como se eu fosse te machucar. Eu não vou. Eu juro por tudo que eu sou. Silêncio. Elle apertou os olhos, como se isso calasse os sentimentos. — Eu não corro de você, Théo. Eu corro de mim. Do que eu me torno perto de você. Do quanto eu esqueço tudo que me prometi. — Então me deixa te lembrar que você merece sentir. Que não tem problema querer. Ela destrancou a porta. Devagar. Quando abriu, ele estava ali. De braços cruzados, olhos tensos, e o coração exposto no peito. — Eu não sou boa nisso. — ela disse, sussurrando. — Eu também não. — ele respondeu. — Mas talvez a gente possa errar junto. Ela soltou um meio sorriso, quase trêmulo. — Você não sabe no que está se metendo. — E você ainda acha que eu ligo? Théo estendeu a mão. E dessa vez, ela aceitou. Não houve beijo. Não naquela hora. Mas quando ele a puxou para um abraço — quente, apertado, sincero — ela descansou o rosto no peito dele. E pensou que, talvez, estivesse começando a confiar. Só um pouco. Só o suficiente para não fugir da próxima vez. Elle não sabia quanto tempo ficou ali, nos braços dele. Não era o tipo de abraço que apertava — era o tipo que ancorava. E ela precisava disso mais do que estava pronta para admitir. Quando se afastou, os olhos dele estavam ainda mais escuros. — Você não faz ideia do quanto eu queria te beijar agora. — ele confessou, com a voz baixa. — Então por que não faz? — Porque eu quero que aconteça quando você quiser tanto quanto eu. E sem culpa. A frase ficou no ar, vibrando como uma promessa silenciosa. Théo passou os dedos pelo rosto dela, afastando uma mecha úmida de suor e emoção. Depois sorriu de leve, meio derrotado, meio entregue. — Você me desmonta, Elle. Ela riu, um riso curto, nervoso. — Isso é engraçado vindo de você. O cara que desmonta todas. — Nenhuma delas me tirou o chão. Você... você me enterra e me levanta ao mesmo tempo. Elle desviou o olhar, porque aquilo era demais. Real demais. E ela ainda não sabia como lidar com real. Voltaram para a festa mais tarde, quando os corpos já se espalhavam exaustos pela grama do campus. Lina os viu chegar e levantou as sobrancelhas com um sorrisinho malicioso. Elle fingiu que não viu. Mas alguém viu. Bianca. Parada do outro lado da varanda, com uma taça na mão e veneno nos olhos. Ela observava os dois com a precisão de quem sabe exatamente o que está prestes a fazer. Théo não notou. Elle sim. E um frio percorreu sua espinha. — A ex. — disse, baixinho. Théo seguiu o olhar. Encontrou Bianca. Seus olhos se cruzaram, e por um segundo, a tensão antiga voltou a pulsar. Mas dessa vez... foi diferente. Porque quando Bianca tentou se aproximar, Théo apenas virou de costas e segurou a mão de Elle. — Vem, vamos embora. Não quero terminar essa noite lembrando do passado. Elle deixou que ele a guiasse. Mas dentro dela, algo se contorcia. Não por ciúmes. Mas porque, pela primeira vez, ela sentia que estava se tornando o presente de alguém. E isso... assustava mais do que qualquer ex.
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