Enquanto os demais membros do Conselho Diretor – julgando desnecessário a presença de todos para ouvir os recém chegados – foram almoçar, Rebecca acompanhou a esposa do Reverendo até sua casa. Dona Laura precisava certificar-se de que estava tudo bem com a filha e assim, aquietar o coração.
Ao despedir-se do marido, a Sra. Bianccini lhe deu um forte abraço e foi recompensada com um demorado beijo na face. Enquanto trocavam carinhos eram observados por um dos irmãos Arcangellis que admirava atentamente aquela cumplicidade entre ambos. Era nítido que a parceria entre eles, permanecia firme, mesmo após tantos percalços.
— Seja mais discreto, Gabe! – Mika pigarreou. Pego em flagrante, Gabriel suspirou contrariado.
O padre que acompanhou as duas mulheres até a saída, foi rapidamente dispensado pelo ancião do conselho quando retornou.
— Estarei na sacristia! Caso precisem de mim... – Certo de que seus préstimos não eram necessários, despediu-se sem encarar os outros cavalheiros e cuidou de sumir rapidamente pelas portas do fundo. Não teve coragem de olhar para trás, podia sentir em sua nuca, os olhos nada amistosos de Raphael. "Quem é este homem? Por que me olha assim? Será que o conheço de algum lugar?" - pensava consigo mesmo, enquanto se dirigia à casa paroquial, tentando entender a atitude inóspita do gigante loiro.
Já no escritório (que costumava ser do antigo padre), agora utilizado pelo Conselho Diretor, os três visitantes foram convidados a se sentar. Dispensaram as gentilezas, não aceitaram bebidas ou qualquer coisa para comer. Seguros do que queriam, foram direto ao ponto.
— Estamos interessados em investir neste lugar. Temos dinheiro e vocês a mão de obra. – O mais velho disparou sem pestanejar. — Por favor, façam o seu preço.
Reverendo Bianccini que se servia de uma xícara de café, quase verteu todo o líquido no seu terno.
— Não estamos vendendo nada! – O velho Sr. Leumas, pareceu menos afetado com a afirmação, porém não deixou de demonstrar a sua surpresa. Sentou-se na poltrona de mais de cem anos, que acabará de ter o estofado e forro renovados.
— Mas vão vender. – Raphael sentou-se ao lado de Mika, cruzou as pernas e deu uma boa analisada no gabinete todo revestido de madeira. — Belo escritório! – Ponderou enquanto passava os olhos pelas prateleiras cheias de livros. — Vocês aqui, fazem negócios dentro da casa de Deus? – Soltou a pergunta que fez todos os olhos girarem na sua direção.
— Somos uma cidade que prima pelos princípios éticos e morais, trabalhamos com a mais pura transparência. Não escondemos nada de nosso povo, todos têm acesso às atas de reuniões, nenhuma decisão é tomada sem que eles estejam de acordo na sua maioria. Também somos bem tradicionalistas se querem saber – o velho gira uma caneta sobre a mesa. — Fomos fundados por homens tementes a Deus, a quem sempre buscavam quando necessitavam de uma direção para suas decisões, por isto, sim, fazemos negócios na casa de Deus. Sob os seus olhos e o seu direcionamento. Sempre foi assim, desde que os nossos antepassados aqui chegaram e tem dado muito certo até hoje. É uma forma de deixar nossa memória fresca sobre o fato de que podemos enganar ao homem, mas nunca enganaremos a Ele! – Ergueu o dedo indicador, apontando para cima.
— Belo discurso! – Raphael bufou, descrente. Mas sua mente vagou até o padre. "Traidor!"
Sr. Cesário Leumas, com seus aparentes setenta e poucos anos, tinham experiência de sobra para não se apegar a sentimentos de ofensa. Sabia do seu caráter reto, para ele, Deus e apenas Ele, era capaz de julgar os seus atos.
— Os senhores, de certo não vieram aqui para ouvir o discurso político e religioso de um velho gagá! – Sorriu o ancião.
— Ainda assim, agradecemos a sua gentil explicação. Mesmo que não seja obrigado a fazê-la – olhou de relance para Raphael. Gabriel abafou o riso. — Na verdade, saber disto, nos torna mais seguros com a proposta que temos para vocês! – Mika retoma a frente da reunião. — Também somos tradicionais e tementes a Deus, temos boas referências... Dados de alguns negócios que fizemos e deram excelentes resultados. – Ameaçou abrir a pasta que trazia nas mãos, mas o senhor a sua frente adiantou-se em recusar com um gesto.
— É ótimo saber que ainda existem jovens como os senhores. – Sr. Bianccini, que permanecia em pé, aproximou-se para participar da conversa. — Sou o Reverendo Leonardo Bianccini, m****o do Conselho Governamental, atualmente Primeiro Conselheiro. Apesar de protestante, aqui nesta cidade, respeitamos muito a liberdade de crença dos nossos irmãos. Acreditamos que a palavra de Deus é para todos que Nele crê, não importe qual a religião escolha seguir. Deus é apenas um!
Os irmãos trocaram olhares curiosos, voltando a atenção aquele que lhes falava.
— Não somos católicos, Sr. Bianccini! – Raphael tomou a frente.
— Mas é que... Bem, perdoem-me pelo julgamento precipitado, mas lá na Catedral os senhores...
— Somos devotos e filhos de Deus, assim como vocês. Também acreditamos que Ele seja um só e, portanto, está presente em todos os lugares... Onde quer que o cultuem, para nós é um local sagrado e digno de respeito, então nos prostraremos e prestaremos as nossas orações e homenagens! – Gabriel, o menos falante, compadecido pela confusão do Reverendo, achou por bem tirá-lo daquele momento embaraçoso.
— Se não conhecesse cada um dos quase vinte mil habitantes de Lucena, diria que são filhos desta terra! – O ancião Cesário fez piada, embora apenas ele tenha achado graça.
— E então, se nos compara a um dos seus compatriotas, significa que estamos aptos a fazer negócios nas terras de vocês! – Mika mudou a posição, tornando-se mais confortável no seu assento.
— Sim, poderiam ser bons candidatos a negociar conosco, mas como o meu bom amigo adiantou-lhes, não temos interesse. – Insistiu o homem de mais idade.
Os lucenenses eram territorialistas e desconfiados por natureza. E por isso, conforme Lucena foi crescendo, a sua independência e tecnologia também se expandiu. O que eles não eram capazes de criar, adquiriam apenas de fornecedores fortemente indicados e após detalhada investigação. Muitos tentaram negociar com os nativos, mas aquela era a primeira vez que lhe ofereciam dinheiro.
Raphael ameaçou levantar-se, mas foi contido pelo irmão mais velho. Gabriel cerrou os punhos, na intenção de drenar o sentimento de contrariedade e evitar que fosse notado.
— Com o perdão da insistência, mas quando chegamos, ouvimos os senhores tentando resolver algum problema relativo a estas terras... e devo acrescentar que estava muito claro o iminente fiasco. – Miguel, inclinou o corpo para frente, deixando o seu rosto a poucos centímetros do ancião. — Estas pessoas têm um problema. Um problema referente a estas terras! Nós temos dinheiro. Trouxemos a solução para eles. Os senhores poderiam ao menos ouvir a nossa proposta e então, julgarem se merecemos ou não a oportunidade!
O velho sábio arqueou uma da suas sobrancelhas grisalhas, deixando um ligeiro sorriso escapar-lhe a face.
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Mika esclareceu ligeiramente, sem maiores detalhes que eram investidores, dentre outras atividades, e estavam buscando diversificar seus investimentos. Foi muito vago ao explicar como tomaram conhecimento da cidade e os seus problemas sociais e econômicos. Mas ofereceu uma boa quantia para quitar algumas dívidas e uma espécie de convênio com os fazendeiros e agricultores, já que esse era o forte de Lucena e atualmente, também o seu maior problema. Contribuiriam no que fosse possível ao combate das pragas, pesquisas do que afetava a saúde dos animais e como pagamento, poderiam fazer uso de uma porcentagem das terras para desenvolver projetos pessoais e secretos, sem interferência dos proprietários. Garantiram que só precisavam do solo fértil e discrição e foi categórico em deixar claro que não executavam nada ilícito. Lucena era uma cidade afastada, sem muitos atrativos para visitantes, não dependiam do turismo, a característica pacata e discreta era exatamente o que precisavam para pôr em prática algo que estavam criando, mas que exigia sigilo absoluto para afastar os olhos concorrentes do mercado. O convênio seria então, por tempo limitado, mas sem previsão de conclusão. Se o Conselho Diretor aceitasse a tentadora proposta, os Arcangellis estavam dispostos a serem bem generosos.
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— Acreditamos que o dinheiro dos senhores seja de grande ajuda, mas por mais vantajosa que seja a proposta, não podemos simplesmente colocar preço nas nossas terras! Famílias dependem do que plantam, do que cultivam, do que produzem. O dinheiro poderia ser uma forma de remediar... – O Reverendo buscou o olhar do seu conselheiro pessoal e de confiança, que o atendeu prontamente, dando-lhe o aval para prosseguir. — Mas precisamos de uma solução definitiva.
— E nós a temos! – Insistiu Raphael, completamente sem paciência.
— A curto prazo, sim, talvez a médio... Mas e a longo prazo? O que será destas famílias quando forem embora e o dinheiro acabar e não tiverem mais as suas fontes de rendas? – Sr. Cesário espalmou as duas mãos sobre a mesa de madeira maciça.
— Além disso, apesar das apresentações feitas, nada nos garante que vocês sejam quem dizem ser, não temos garantia de que tenham este dinheiro ou que possuam boas intenções na nossa cidade. Temos o dever de zelar por este lugar. Fazemos um voto, nos comprometendo em cuidar de tudo e todos com a nossa vida. Não vamos pôr Lucena em risco por um punhado de dinheiro.
Raphael rosnou e Gabriel sentiu as unhas entrando na própria carne. Miguel voltou a reclinar na cadeira.
— Ouçam o que temos a oferecer. Não estamos aqui por acaso. Entendo que a nossa chegada sem aviso não foi como deveria, como expliquei, precisamos da máxima descrição, mas acreditem, nossas intenções são as melhores e não vamos, nem pretendemos prejudicar um habitante sequer de Lucena.
— Por que a nossa cidade? Se estão dispostos a investir um dinheiro tão significativo, poderiam procurar tantos outros lugares pelo País. Lucena não é das mais conhecidas, muito menos das mais frequentadas, mas sabemos que existem outros lugares parecidos ou menos "popular" para se visitar...
— Não deprecie a sua cidade, Sr. Reverendo! – Gabriel passava as mãos pela extensão das coxas. — Este lugar tem um grande potencial.
— Não duvido que tenha. Moro aqui desde que nasci e nunca precisamos da intervenção do Estado ou qualquer outra cidade. Somos autossuficiente e...
— Já sabemos. Já sabemos! – O irmão militar estava prestes a explodir a sua tensão impaciente.
— Raphael, não seja grosseiro! – Gabe sussurrou pelo canto dos lábios.
O gêmeo louro revirou os olhos, escorrendo os longos e largos dedos pelo rosto. "O que é que estamos fazendo aqui? Eu sabia que isto não daria certo! Se fizéssemos do meu jeito, resolveríamos tudo em dois tempos. Mas eles querem sempre ser os mocinhos, os politicamente corretos... Por que eles não me ouvem nunca?"
Seus pensamentos pareciam ter chegado até os irmãos, Raphael não se importava, por ele, já teria ido embora e deixado aquele povo t**o se afundar na sua ignorância. As pessoas deveriam ser ajudadas quando se permitissem receber ajuda.
— Temos uma excelente equipe de estudo que nos dão todo o respaldo de onde podemos ser, digamos, necessários. Antes de chegarmos até vocês, nos preparamos para enfrentar qualquer tipo de problema. Fizemos um forte levantamento de tudo que precisam e temos condições de encontrar a solução para cada um destes problemas. Só precisamos que nos ouçam e nos deem uma oportunidade de apresentar o nosso planejamento.
— Sr. Arcangellis, é verdade que as nossas terras são férteis e nunca rejeitaram nenhuma semente, graças a Deus fomos abençoados. Mas talvez a sua equipe tenha omitido ou deixado passar despercebido algumas peculiaridades sobre a nossa atual situação, ouçam-me primeiro – Sr. Bianccini puxou uma cadeira de lado e sentou-se junto a eles. — E depois, se ainda houver interesse da parte de vocês, ouviremos o que mais têm a nos oferecer...
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O Reverendo, homem alto, de cabelos e olhos negros, tinha poucas marcas no rosto que lhe fizessem jus aos seus cinquenta e oito anos. Apesar da aparência jovem, havia passado por tantas experiências infelizes, capazes de destruir a alma de um homem, mas ele tinha fé, além de uma companheira que sempre fora seu alicerce. A honestidade era uma das suas características mais marcantes, por conta dela era o líder religioso da Igreja Protestante de Lucena e o Primeiro Conselheiro (aquele que tem o voto de mais peso nas sessões, com poder de desempate e decisão quando houver algum empasse) e se valendo desta premissa, Leonardo Bianccini achou por bem, dizer a real situação da cidade.
Alertou-lhes sobre as pragas que se alastravam pelas plantações, a queda nas exportações de matéria prima para roupas, além dos alimentos orgânicos perdidos, também falou dos animais que contraíram uma doença desconhecida e começaram a morrer, contaminando também a carne que era alimento e sustendo dos Lucenenses, roubos e assassinatos que preocupavam a polícia, pois não tinham histórico ou preparo para lidar com essa surpreendente onda de violência... O Reverendo revelou aos irmãos, sem omissões, todos os outros problemas que foram acometidos e foi ouvido com muita atenção.
— ... e por isso, talvez neste momento, as nossas terras não sejam tão interessantes para os senhores! – Concluiu.
— Agradecemos a sua honestidade. Mas nada do que o senhor nos disse é novidade! – Miguel levantou-se e caminhou até as costas da cadeira do seu irmão Gabriel. Pousou as mãos sobre os ombros dele e apertou com firmeza. - Vou ser mais claro aos senhores: investimos no que acreditamos ter salvação. Fazemos um completo e minucioso levantamento da situação, estudamos as melhores formas de resgatar o que já foi dado como perdido. Criamos estratégias agressivas de reestruturação e colocamos os nossos planos em ação. Temos uma vasta experiência neste "mercado", com cem por cento de êxito. Se acharem por bem, podemos lhe enviar documentações...
— Não é necessário, meu jovem!
O velho Cesário, fez um gesto dispensando novamente. O ancião era um homem de olhos nos olhos e apertos de mão. Acreditava que a palavra dada valia mais que um chumaço de papéis. Alguns pensavam que isso era tolice e ingenuidade da sua parte. O Sr. Leumas não se importava com o que diziam ou pensavam, havia vivido o suficiente para defender a sua tese sobre caráter e honra.
— Nesta cidade, trabalhamos com a palavra de um homem, e não com os seus papéis. Não percam o seu tempo tentando nos provar o que dizem com documentos. Um bom aperto de mãos sempre diz mais que um papel escrito por pessoas ou máquinas. Mas obviamente não somos tolos ingênuos e se por um acaso, futuramente fizermos negócios, terão a oportunidade de registrarem tudo o que dizem nos nossos cartórios. – Arqueou uma das suas astutas sobrancelhas.
— Estamos diante de desconhecidos que se dizem investidores. – Reverendo Bianccini levantou-se. — Que já vieram até nós com um trabalho adiantado... Devo deduzir que dentro desta mala – apontou a pasta grande e quadrada repousada no colo de Miguel — há inclusive, o dinheiro que julgam suficiente para salvar a nossa cidade!
— E muito mais! – Raphael deixou a cabeça pender para trás. Estava visivelmente entediado. Ainda acreditava que toda aquela encenação dos irmãos, era perda de tempo.
— Quem são vocês, Sr. Arcangellis? – Sr. Cesário disparou, perguntando com firmeza ao porta-voz dos três.
— Investidores, compradores, salvadores, homens de negócios, revitalizadores, estrategistas, doadores... Somos de tudo um pouco. Herdamos alguns "poderes" do nosso pai. E como temos muito mais que o suficiente para nós, por longas e longas gerações, optamos em usar para benefício de outras pessoas, para ajudá-las de alguma maneira... – a resposta veio rápida e até mesmo ensaiada. Soava como um texto decorado e repetido muitas vezes. — Aprendemos desde que nascemos a sempre dividir e multiplicar. É isso que somos...
— Podem nos chamar de "anjos da guarda", se isso soar mais "católico". – Raphael soltou um riso sarcástico e depois rodopiou a sua boina no dedo indicador.
Sr. Cesário Leumas foi contagiado pelo humor ácido do militar, acabou deixando os seus lábios se erguerem num modesto sorriso.
— Nossa situação não é motivo de piada, Sr. Arcangellis! – O Reverendo dirigiu o olhar repreensivo ao Arcangellis brincalhão.
— Foi m*l!
— Já ouvimos todos os contras sobre o local do nosso interesse, o que só confirma o quanto vocês precisam de nós! Agora ouçam o que temos a propor de forma detalhada e tenho certeza que faremos grandes negócios! – Miguel arrematou.
— Bom. Se assim insistem... os senhores ainda dispõem de trinta minutos! – O paciente ancião apontou o relógio cuco, encostado junto a parede central da sala vitoriana.
— Até que enfim... – Murmurando para si, Raphael, afundado na poltrona, puxou o seu corpo para cima e recostou-se com elegância. — O que viemos oferecer...
Gabriel subitamente deu um pulo, colocando-se em pé, fixou a entrada, interrompendo que o seu irmão concluísse a frase. Com um solavanco a porta abriu-se e a Sra. Bianccini já estava na sala.
— Perdoem-me! Perdoem-me senhores! – Aflita, tremula e chorosa, ela se desculpava. — Por favor...
— O que aconteceu, Laura? – Sr. Bianccini correu para a esposa.
— Ela. E-e-ela... – Chorava sem conseguir proferir as palavras.
— Nossa filha?
— Sim! – Deixou escapar um soluço forte.
— O que aconteceu com ela, Laura? Diga-me! – O marido assustado, segurava-a pelos cotovelos com tanta força que a pobre mulher se encolheu.
— A febre está pior! – Conseguiu dizer entre lágrimas. — Ela está delirando e não acorda. Não acorda.
Enterrou o rosto no meio do peito do marido e deixou o desespero aflorar. O Sr. Bianccini apertou a sua esposa contra si e fechou os olhos com força. "Pai, não a tire de nós! Por favor. Eu imploro!", orou em silêncio, tentando manter-se firme e não desmoronar na frente da sua mulher.