Morte está silenciosa hoje e bem alerta, e sei que o motivo de ela estar tão pensativa é o mesmo motivo que o meu: estamos nos últimos dois dias para tudo isso acabar e cada um seguir um rumo.
Não sei o que me reserva depois daqui, mas a minha preocupação é com ela, ela está em muito mais perigo do que eu, digo, o Ceifeiro quer levar a alma dela para o... inferno, porque aparentemente ela não deveria estar mais aqui.
Tento pensar em algumas possibilidades de poder ajuda-la, mas nada me vem a mente, estamos mortos, seria mais fácil pensar em algo se estivéssemos vivos e ela correndo perigo. Não é como se eu pudesse realmente fazer alguma coisa, não tenho poder nenhum aqui.
O Ceifeiro domina esse lugar, ele tem poder para nos desintegrar em um piscar de olhos se quisesse, sinto isso, senti a força dele quando nos ergueu e tentou tomar nossas almas. Não foi nada legal.
Mas o que eu poderia fazer para ajudar a Morte? Não é como se pudesse leva-la a algum lugar ou viver fugindo para o resto de nossas... mortes.
Ela não conseguiu completar sua missão porque faltou ceifar uma vida, mas n******e, e se ela... quero dizer, nem é possível, ela está me ajudando com minha missão se fosse assim deveria contar para algo, mas não.
Acho que o que está faltando é uma atitude inesperada, algo que surpreenda o Ceifeiro e qualquer um nesse mundo, mas não tenho ideia do que poderia ser.
Estou parado perto de uma ponte enorme e absorvendo a cena para entender qual a próxima missão, quando olho para o lado e entendo, nesse momento caminhamos até lá e Morte começa a explicar.
— Ele teve uma vida difícil. Problemas familiares, no trabalho e na faculdade e uma luta interna com ele mesmo. — Ela explica olhando para o homem que aparenta uns dezoito ou vinte e poucos anos. Ele vem lutando contra isso tem um tempo, mas foi difícil achar apoio quando na verdade ninguém estendeu a mão pra ele.
— Ele vai...
— Sim, ele vai.
Eu engulo um seco quando um arrepio percorre meu corpo ou é só isso o que acho, já que obviamente estou morto e não sinto coisas como os humanos costumam sentir.
— Ele estava sofrendo e algumas pessoas da sua família também porque não sabiam como ajuda-lo, perdeu a fé.
— Mas tinha tanto que podia ser feito. — interferi. — Podia ter procurado ajuda, podia...
— Muitas pessoas que estão nesse estado pedem ajuda, Carter. Só que de uma forma diferente: sejam por suas atitudes por suas falas, de diversas formas.
— Mas geralmente as pessoas próximas viram as costas. — concluo.
— O mundo precisa de mais amor, mais empatia. Estender a mão para quem precisa ou pede socorro, porque todo mundo sofre de alguma forma.
— Mas geralmente as pessoas estão focadas na própria vida que se esquecem do próximo. Esquece que todo mundo precisa de amor porque sem amor não são nada.
— As pessoas estão cada vez mais egoístas, e isso vai ser a ruina de cada um. — Ela me olha em silencio e estende a foice pra mim que me envia as mesmas imagens do que ela me descreveu da vida daquele homem.
Ele dá um passo a frente e se joga, e então digo as palavras.
— Que agora você descanse em paz.
— Vamos dar o fora daqui! — Ela entende o braço pra mim
Dou um passo em direção a ela, ela faz que vai pegar a foice, mas viro, tirando e perto dela que faz cara f**a.
— Carter...
— Eu vou te surpreender agora.
E, então, bato a foice no chão mentalizando um lugar ao qual gostaria de ir.
Eu pensei que seria fácil, mas varias imagens atingem minha mente e se embaralham tão rápido quanto aparecem, sinto o braço dela se apertarem mim, e fico focado com o lugar na mente, quando de repente, somos jogados pelo ar.
Saímos rolando pelo chão, quando ela para por cima de mim com seu corpo encaixado perfeitamente ao meu, tomo ar respirando fundo, nossos olhares fixados um no outro: meu olhar vai até os lábios dela, que não se move e de repente sinto uma v*****e enorme de beijá-la.
Quando não está me atacando com palavras ela é muito atraente. Tá, quem eu estou tentando enganar? Ela é atraente até nervosa.
De repente, ela coloca os braços ao lado da minha cabeça e faz força para se levantar, desvio meu olhar e levanto meio sem jeito.
— Foi muito indecente o que você fez. Pode ter conseguindo se teletransportar uma vez, mas não significa que vai conseguir sempre. Você é tecnicamente um aprendiz de Morte, não tem o direito de sair por ai fazendo o que bem entende.
Ela não olha pra mim enquanto fala e por isso sei que ela está constrangida, eu também estou, mas caro, não digo.
— Pode ser que sim, mas olha a sua volta. É incrível não é?
Ela para de falar e olha o lugar a sua volta:
Estamos de frente ao mar: as aguas cristalinas e a aria da pra tocando nossos pés, aos redores, muito verde, árvores, gramas enfim, o lugar mais lindo que tive oportunidade de conhecer enquanto vivia.
— É lindo! — Ela diz arregalando os olhos e eu começo a rir
Nesse instante ela ri também e eu fico chocado com a cena, acho que é a primeira vez que eu a vejo sorrir dessa forma, como se o peso do mundo não estivesse em suas costas.
— É incrível! — Ela diz — Não tive oportunidade de conhecer esse lugar quando era viva.
— Quando saia de férias como e pessoal da faculdade, costumávamos vir aqui.
— Quando penso que você n******e fazer nada pra me surpreender, é ai que você me surpreende mais ainda.
— É um elogio! — Concluo com uma risada — Um elogio estranho, mas é.
— Não é não!
— É sim!
— Tá, talvez seja. — ela parece corar com isso
Jamais pensaria que eu, Carter um mero mortal morto faria a Morte ficar em graça. Acabo de perceber também que depois que morri a maioria dos meus pensamentos são incoerentes, mas tanto faz.
—Obrigada por me mostrar esse lugar! É incrível.
— Pode correr pra cá sempre que precisar — digo, e pisco pra ela
Ela trava por um tempo me olhando e me arrependo e ter feito isso, sua expressão muda muito rápido e ela faz uma careta toda tensa.
— Sinto muito! — Digo — Não quis parecer...
— m***a! — Ela xinga, e dou um passo pra trás
Ok, não esperava essa reação.
— m***a, Carter!
— Eu já pedi desculpas!
— Não é isso, i****a. Eu tenho sua próxima missão!
— Okay, então.
— Não, não está Okay. — ela olha no fundo dos meus olhos e presumo o pior. — A próxima alma é a de Nancy. Sua amiga.