Dia 1

2132 Words
— Pare de ficar me encarando com essa cara de retardado e levante dai! — ela me deu um t**a na cabeça, certo, ela já não é mais tão bela — VAMOS! Eu levantei dali e paralisei ao ver a cena. Eu estava caído em cima de um carro e sangrando, meus olhos ainda estavam abertos encarando a moça, que já não estava mais com a criança, o local estava circulado por pessoas curiosas e a ambulância estava ali, com aquelas pessoas retirando-me do local. Só que havia dois de mim, eu estava me encarando ali, completamente imóvel e provavelmente morto, enquanto esse eu, parecia ser invisível. — Você está invisível seu tapado. — O-O que? C-como você? Ela parou e agora eu pude observá-la melhor. Ela tinha olhos escuros como a noite e um cabelo loiro longo e cacheado, com uma enorme mecha preta do lado direito. Ela tinha lábios completamente desenhados e um olhar fatal, se eu a encontrasse em outra circunstância jamais imaginaria que ela fosse a... morte, ainda é estranho dizer isso. Ela estava usando um vestido branco de camadas e parecia mais um anjo, se não fosse pelo enorme capa preta que ela usava por cima. — Você sente prazer em ofender as pessoas desse jeito? — É claro! Eu sou a morte, sinto prazer com tudo o que é desagradável. — Pra sua informação, eu fui o primeiro da minha turma. Então o termo tapado não se aplica a mim. Ela revirou os olhos ignorando o que eu tinha dito. — O que você entende de toda essa situação? Sabe por que está aqui? — Ela parou no meio da multidão, pessoas passavam para lá e para cá, através dela e ela nem estava incomodada com isso. Era muito estranho. Eu devia estar em pânico, completamente apavorado, talvez até mesmo gritando, mas eu não conseguia sentir nada. Nem raiva, nem tristeza, apenas aceitação. — Eu morri e você é a morte e veio me buscar? Tá parecendo meio óbvio por causa de tudo o que você disse. Aliás, você não tinha que ter uma foice? Naquele estilo... — Pare com isso. Não sei por que os seres humanos gostam tanto de inventar coisas. — Ela estalou os dedos e uma foice apareceu — Está falando disso, né? Eu o uso somente para ceifar almas, não que seja muito necessário porque quando você morre sua alma automaticamente sai do seu corpo. Mas gosto de ver a cara de espanto das pessoas quando mostro, tipo a sua cara agora, e também porque ela funciona como um recipiente. Eu fechei a boca tentando disfarçar. A foice era maior que ela, e não estava acreditando que ela gosta de usar o sarcasmo e o mau humor para atingir os outros. — É o seguinte. Vou ser direta porque parece que você é bem esperto. Como já sabe, você sofreu um acidente e morreu, até ai tudo bem... Até ai tudo bem? Qual o problema dela? Tudo bem? Eu pareço bem? Estou morto. — ... mas como você teve o ato nobre de conseguir salvar uma garotinha da morte, o que o anjo da guarda dela distraído não conseguiu, você recebeu uma segunda chance. Eu a encarei, boquiaberto. — Espera! Eu vou para o inferno? Eu fui uma pessoa boa em vida não mereço isso, eu até cheguei a fazer caridade uma vez. Quer que seja o que te contaram é mentira. Eu não deveria estar aqui, porque não apareceu um anjo para me levar? Não que você não seja boa, mas é... — Você não... Certo. Aqui vai. Não tem essa de anjo te levar para o céu. Eu sou o que chamam de Morte, então pode me chamar assim. Eu sou exatamente o que fica no meio do céu e o inferno, eu tenho a missão de encaminhar a sua alma há um desses alugares. Entendeu agora? Pela cara que ela fez parecia que ela queria era arrancar minha cabeça do meu tronco, mas eu merecia uma explicação, poxa, eu havia acabado de morrer, e estava algo entre a vida além da morte, eu ainda não tinha surtado o que já era uma boa coisa. — Pra onde está indo? Aliás, porque eu estou aqui? — Você tem tantas perguntas para fazer e pergunta isso? — Ela me encarou com aquele sorriso de deboche, parece que ela se divertia em olhar pra minha cara, e não no sentindo romântico, no sentido de me ridicularizar. — Geralmente as pessoas perguntam “Por que eu?”, “Eu não quero morrer”, “Devolva-me a minha vida”, “Por que você não levou meu vizinho chato no lugar”, entre outras coisas. — Quando eu entro em pânico, entro internamente. Por dentro eu estou gritando pode ter certeza, estou louco para sair gritando, mas ninguém me escutaria, então não adiantaria nada. Além disso, eu sempre fui calmo, eu aceitava o que a vida me trazia, e agora no caso a morte, você pode pensar... — Você fala demais. — Ela revirou os olhos me cortando, a foice apareceu em sua mão e ela o bateu no chão com força causando um estrondo e um clarão. † Lembro que desmaiei de novo após vê-la quando acordei, eu não pensei que era possível desmaiar quando já estava morto, mas foi algo que descobri que sim, era possível. A dona Morte discutiu comigo um bom tempo depois disso, um processo de aceitação estava se iniciando. Ela me levou até o hospital, aparentemente para o mundo eu estava em coma, é estranho me ver deitado ali rodeado de todos aqueles aparelhos, a minha vida literalmente estava por um fio. — Essa é a parte que você começa a falar e me explica o porquê de eu ter recebido uma segunda chance. — Eu já ia começar a falar, até porque você não tem muito tempo. — Ela respirou fundo, como se já tivesse tido aquela conversa mil vezes e a conhecendo como dona Morte eu sabia que era verdade. — Quando você morre antes da hora ou de uma forma nobre, o que foi seu caso, mas você ainda não atingiu sua cota para ir para o céu, você recebe uma segunda chance. — De? — Deixe-me explicar-lhe corretamente, você não foi em vida o santo que você imaginou, as suas atitudes, interferem nas vidas dos outros e eu tenho certeza que sabe disso. Você recebeu a chance de ficar no meu lugar, você tem 10 dias para ceifar 10 almas que lhe serão designadas; independente da idade, raça, status social ou riquezas e conseguir seu tíquete para o céu, ou você pode simplesmente desistir e se isso acontecer tem passagem direto para o inferno. Se você ficar fugindo ficará preso para sempre na linha do tempo, nem com sua vida e nem com a morte, acredite o que é pior. — Quer dizer que eu não vou ter minha vida de volta e ainda por cima terei que tirar outras vidas? Você está tirando com a minha cara? Só pode ser isso. — Não é brincadeira. — Ela me observou. — E-eu não... não posso fazer isso. Não posso tirar outras vidas. Eu... Eu preciso de um tempo. — Que seja! — Ela levou a mão ao ar e sumiu. Literalmente sumiu. Eu teria me espantando se não fosse o fato de que tinha acabado de me ver caído em cima de um carro e morto e minha alma ali, observando tudo, eu estava atingindo minha cota de loucura. Ela nem ao menos hesitou, já devia estar cansada também de ficar fazendo essas brincadeiras com outros infelizes que apareciam por aqui. Duvidava que ela gostasse mais disso do que eu. Você deve estar pensando que vagar sem rumo para pensar quando já está morto é fácil, mas é mais difícil do que imagina. Me dei conta de que não tenho para onde ir, vaguei pelas ruas de minha cidade sem que ninguém pudesse me ver, até chegar ao meu prédio e entrar; ai me dei conta de que não precisava de uma chave, pois podia atravessar paredes e obvio porque eu não tinha um corpo físico mais, só uma alma. Para o mundo, para as pessoas com quem convivi eu estava em coma, com algumas pequenas possibilidades de viver, mas eu já sabia que isso não aconteceria, ou eu conquistava minha passagem para o céu ceifando almas, ou desistia e ia diretamente para o inferno. Se fosse parar pra pensar eu merecia mesmo, não é? Por mais que eu tenha tentado ser um garoto bom, eu fazia coisas que prejudicavam outras pessoas, vazava informações que as pessoas precisavam saber do governo e outras, e muitas vezes colocava meu egoísmo acima de tudo. Então era merecido. Não tinha uma família para chorar por mim em meu funeral, caso fizessem, convivi por um tempo com minha “tia” que nem era de sangue porque meus pais me abandonaram e nunca sequer cheguei a conhecê-los e depois decidi viver sozinho, até mudei de cidade para conquistar minha independência e sonhos e quase consegui. Nesse tempo fiz algumas amizades no colégio, alguns que me acompanharam até a faculdade, no caso da Nancy. Nancy era minha melhor amiga, eu confesso que tinha uma queda por ela; ela é inteligente, bem humorada, adora videogames, animes e tecnologia, tudo o que faz parte do meu mundo. Ela estava doente antes de eu morrer, foi internada, mas eu ainda não sabia o motivo, pretendia visitá-la depois da entrevista e dizer à ela como foi, estava confiante que conseguiria. Fui um rapaz inteligente, fiz uma promessa à ela que iria tirá-la daquela confusão, que ela iria ficar bem de novo. E pretendia cumpri-la. Olhei a minha volta quando percebi que estava no hospital, no quarto de Nancy e não mais no meu apartamento velho, olhei para ela e vi que estava com os olhos abertos, ela lia um livro e no mesmo instante parou, parou como se soubesse que havia alguém ali. Ela estava com uma aparência pálida, bem frágil e cansada, seu cabelo que antes tinha um brilho inconfundível, agora estava apagado, quase sem vida quanto seu rostinho magro. Ela levantou a cabeça arregalando os olhos e olhou em volta com calma, procurando alguma coisa, alguém. Olhou em direção a porta e constatou que ela estava fechada. — Carter, é você? Você está ai? — Ela ficou encarando a porta — Entre se for você. Sua voz falhava enquanto ela falava, eu aproximei-me dela, tocando gentilmente seu cabelo, ela respirou fundo como se tivesse sentido, e talvez tenha mesmo, mas eu estava morto, ela não podia me sentir e nem ver. Então dei-lhe um beijo em sua cabeça e me afastei, ao ponto de ver a enfermeira entrar no quarto para checar se estava tudo bem. — O Carter está ai? — Ela perguntou — Senti o perfume dele. Ele prometeu que me visitaria hoje, por que não veio? A enfermeira a encarou parecendo comovida. — Eu sinto muito, querida. Ele não veio hoje. Talvez venha mais tarde. Descanse um pouco. Vi a enfermeira sair da sala e conversar com um parente de Nancy, ela falou que Nancy não iria melhorar, falou que só iria piorar o quadro dali em diante e não havia muito que pudesse ser feito por ela, no caso, só a cirurgia, que era muito perigosa. Não! Eu não podia perdê-la também. — Não dá para perder alguém se você já está morto. Tem certeza que seu QI é de 95 por cento? A Morte de novo, aparecendo com seu sarcasmo desnecessário. — Pode me dar um tempo? — Ela não tem tempo. Não percebeu? — Eu a fuzilei com os olhos, ela não sabia demonstrar compaixão? Claro que não, nem sabia o que era isso. — É o seguinte, Gênio. Se você conseguir completar sua missão, você ganha um último d****o, você pode salvar sua amiga, só n******e voltar à vida ainda. Sabe aquelas pessoas que se recuperam repentinamente de uma doença? Como milagre? Então, alguém as salvou. Fazendo isso você altera a ordem de algumas coisas, mas ainda não é o tempo dela. — Você está dizendo que posso salvá-la? Tem certeza disso? — A encarei Ela confirmou com a cabeça, estava de braços cruzados encostada na parede. — Então eu topo! Vou fazer isso. Pela Nancy. Vou devolver-lhe sua saúde. — Já era hora, Gênio. Você tem nove dias e algumas horas. Se eu não podia me salvar, pelo menos salvaria a garota. Ela teria um grande futuro pela frente e morreria velhinha de forma natural, e não com uma doença que eu nem sabia o nome. Esse era o momento, eu iria mudar a vida de alguém.
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