A morte da senhora ficou pesando na minha mente o tempo todo em que eu seguia a Morte pelos caminhos tortuosos que ela andava. Conseguia compreender um pouco mais o valor das coisas, quer dizer, difícil era mesmo, mas uma hora ou outra teríamos que ir, algumas pessoas já tinham atingido sua meta, feito tudo em vida que podiam ter feito e se sentiam realizadas ao ponto daquela senhorinha que sentia que era seu momento e não estava triste com isso.
A morte era algo triste, mas para muitas pessoas isso não significava o fim, ela sabia que sua missão na terra estava completa e por isso não ficou triste com a ideia, claro que deveria saber também que seu caminho dali em diante era totalmente novo e incerto e nem ao menos sabia se existia vida após a morte, mas ela, assim como eu sabia que existia um plano a mais. Não podíamos existir simplesmente pra nada.
Quando você tem uma vida tem que pelo menos ter um propósito, um objetivo, ajudar uma causa, salvar alguém, se salvar ou qualquer coisa que no fim da sua vida, faça você pensar que tudo valeu à pena.
E, essa era minha missão. Salvar alguém que tinha de tudo para ser incrível.
Caminhamos em direção a minha nova missão enquanto a Morte tagarelava coisas sobre ceifar vidas, como nunca era fácil, como as coisas funcionavam naquela dimensão e eu observava tudo com atenção. Gostava de aprender novas coisas e tudo nesse mundo agora era novo pra mim, eu tinha apenas oito dias para ceifar nove vidas, para assim tentar salvar a vida da minha amiga e atingir minha meta para conseguir ir para o céu e descansar em paz.
Eu merecia isso, acho. Acredito que tenha feito muita coisa em vida. Dediquei uma boa parte dela para ajudar outras pessoas mesmo que eu não tenha usado os métodos tradicionais.
— Estou pronto para a nova missão. Preciso salvar a Nancy. Ela não tem muito tempo.
— E nem você! — Ela retrucou com um meio sorriso e eu mostrei língua pra ela rindo também.
Engraçado não era, mas o que mais eu podia fazer além de rir? Estava a beira da morte.
Continuei seguindo-a onde quer que ela fosse, até porque eu não tinha escolha, durante o caminho ela me explicou minha nova missão e como as coisas funcionariam e que eu estava em desvantagem porque até o momento tinha ceifado somente 1 alma e me restava agora oito dias para concluir minha missão.
Paramos debaixo de uma ponte, dona Morte começou a olhar em volta como se sentisse alguma coisa, e como estava começando a entender o jeito estranho dela, deduzi que sim, tinha algo errado. O tempo estava muito fechado e ventava muito, além disso, começou a cair uma chuva muito forte.
— Isso não é bom. Ele está por aqui. Precisamos ser rápidos. — Ela puxou seu capuz sobre a cabeleira loira e quando percebi até mesmo eu estava de capuz, e antes nem estava usando roupa com capuz.
— Quem é o ceifador? — Perguntei um pouco calmo, mas preocupado pensando no que mais ela poderia fazer comigo sem meu consentimento.
— Ele é o pior de todos. Vamos!
Ela me puxou pelo braço e começamos a andar em passos largos até chegarmos ao nosso destino. E logo entendi a missão que ela havia me explicado anteriormente.
Minha próxima missão era ceifar a vida de um morador de rua, ele estava enrolando em um cobertor velho e estava todo sujo, o mesmo estava deitado na porta de um estabelecimento que já estava fechado. Ele tossia sem parar e, parado onde eu estava observando-o, escutei seu estomago roncar.
Seus olhos estavam profundos e ele estava muito doente e passando fome, me condoí por ele, queria ajudá-lo, talvez dar-lhe alguma coisa pra comer e beber, mostrar-lhe algum albergue ou um lugar onde poderiam cuidar dele e a chuva que caia ainda não ajudava, ele estava ficando todo molhado e doente como estava, a situação tendia só a piorar.
— Ele está passando fome! — Falei atônito
— Ele e outras milhões de pessoas no mundo. — Ela me encarou, séria.
Ainda não acreditava que a tinha confundido com um anjo, ela estava mais para demônio, eu podia olhar pra ela e imaginar uns chifrinhos naquela cabeça.
— Isso não incomoda você? — Quis saber
— Já me incomodou muito, Carter. Hoje, depois da morte já não há nada que eu possa fazer. Não posso mudar o mundo depois de morta, só quando se está vivo.
— Poderia inspirar pessoas. Muitos filósofos, astrônomos e etc., inspiram pessoas até hoje. Isso é triste de ver. Pessoas morrendo de fome todos os dias, sem moradia, sem oportunidades sem nada, enquanto outras têm milhões na conta bancaria guardado pra fazer nada, porque já tem muito, enquanto poderiam estar criando uma instituição ou apoiando para ajudar alguém. É triste ver uma pessoa passar fome, enquanto outras pagam milhares por quase nada. A porcaria de uma joia ou um vestido vale mais que uma vida humana.
— É a vida.
— Pra mim isso é a morte. Se você é famoso e tem um status a passar, e nunca ao menos ajudou alguém ou inspirou pessoas, acho que está usando a fama da forma errada. Os famosos poderiam fazer tanto pelo mundo, porque eles têm visibilidade, eles têm voz, mas ao invés disso estão se preocupando em aparecer na mídia com um vestido de mais de dois milhões que só pessoas vazias se importam em ver. Era isso que eu tentava mudar com meu computador, passava informações importantes para as pessoas, para que elas usassem de uma boa forma.
— Eu sinto te dizer, mas elas não ligam à mínima.
— É uma pena, isso é muito triste.
Ela me olhou apontando a cabeça em direção ao mendigo, ele começou a tossir sem parar, com seus olhos vidrados na chuva, eu estava vendo o sofrimento dele, sabia que aquilo poderia ser resultado de uma ação dele, de abandonar a casa, não procurar emprego ou algo assim, mas todo mundo erra, e ninguém deveria ser julgado por isso o resto da vida.
Eu não tinha escolha, precisava fazer, e talvez fosse melhor pra ele, talvez assim ele descansasse melhor em outro lugar, ele estava muito doente e se não morresse de frio durante a noite, morreria com a doença no dia seguinte.
Aproximei-me do senhor doente que agora tossia sem parar e me desculpei mentalmente pelo que estava prestes a fazer.
Não é uma atitude egoísta, pensei. Não é.
Mas para ser sincero, nem eu mesmo acreditava nisso.
Passei minha existência humana tentando melhorar a vida das pessoas à minha volta utilizando minhas habilidades no computador e minha inteligência em favor delas, e agora, na minha morte, estava tendo que ceifar vidas inocentes para salvar outra vida.
Nada disso fazia sentido pra mim, mas agora já estava começando a acreditar que não era pra fazer sentido mesmo.
— Não é justo – Rebati olhando para a Morte, com certo ressentimento ao sairmos dali — Não é nada justo. Ceifar vidas inocentes para salvar outra vida inocente. Tudo isso é uma d***a.
— Nada é fácil, Carter. — Ela me fuzilou com olhos, mas por incrível que parecia, ela não estava com raiva, a sobrancelha arqueada era só uma marca comum dela.
E um charme também, só que claro, eu jamais diria isso à ela.
— As coisas nem sempre são fáceis, e nada segue um padrão pensei que tinha entendido isso. Um adolescente, uma criança, um senhor de idade, um mendigo ou um rico. A morte não escolhe aparências, não escolhe riquezas e nem idade. E vou mostrar isso à você.
Ela bateu novamente a foice no chão e me vi envolto na luz branca novamente.
Por mais que eu achasse divertido esse negocio de um minuto estar em um lugar e no seguinte, assim que ela batesse a foice no chão, estivéssemos em outro, estava começando a me encher isso de tacar um clarão na minha cara.
Agora eu me vi frente há um enorme prédio luxuoso, caminhávamos naturalmente entre (literalmente) as pessoas e isso inda me assustava, o que fazia eu desviar delas, mesmo elas não me vendo e mesmo eu sabendo que passaria por elas como um fantasma. O capuz escuro sumiu de nossas cabeças e agora eu vestia a roupa ao qual havia falecido com ela e a Dona Morte vestia calças escuras rasgadas e regata, ela usava um moletom escuro por cima.
— Você se veste assim para fazer jus ao seu titulo de Morte ou é só sua forma de expressão mesmo? — perguntei, tentando puxar assunto para distrair a minha cabeça.
— É o quê? — ela perguntou de sobrancelha erguida. — O que você quer dizer com isso?
Esfreguei a mão nos cabelos, meio sem graça, ela tinha entendido errado.
— Desculpa, só quis dizer que... É da natureza humana assimilar a morte toda de preto, quis dizer que suas roupas combinam com seu titulo. E com você!
Ela parou me encarando, em silencio, e depois balançou a cabeça como se tentasse afastar algum pensamento.
— Não sei onde quer chegar com esse blábláblá, mas aqui está minha missão. Assista e observe e perceberá que a vida nem sempre é justa, quando a morte vem, ela não escolher cor e nem riquezas.
Parados, de frente para o prédio, observamos enquanto um homem saia, ele usava terno, gravata, calça social e sapatos bem polidos, aparentemente roupas bem caras, ele andava apressado falando ao celular e segurando uma mala com a outra, esbarrou em varias pessoas pelo caminho sem se desculpar e parou frente um Porsche amarelo e acelerou, no momento seguinte, estamos dentro do carro dele, invisíveis, claro, ele falava ainda ao celular e ria muito com alguém.
—Está feito! Os contratos já foram assinados e vamos faturar milhões, essa foi uma venda e tanto. Não se preocupe, fiz as últimas finalizações e estou correndo para o banco para sacar o que falta. Eu falo com você depois.
Ele desligou e seguiu pela estrada, parou o carro entrando rapidamente dentro do banco e neste momento eu entendi o porquê estávamos esperando até agora; dois homens estranhos se aproximaram discretamente, com capuz, um deles carregava uma a**a por debaixo da roupa e quando o homem saiu do banco, eles o interceptaram.
Os três entraram em uma luta, e os homens puxaram o pacote da mão dele e tomaram seus pertences juntamente com o celular e chaves, ele começou a gritar e sacou de dentro das calças uma a**a, e no momento seguinte, o outro assaltante, assustado, atirou contra o homem que caiu.
— Cara, o que você fez?
— Ele me assustou. Ele ia atirar em você, cara.
Eles entraram no carro roubado em alta velocidade e sumiram, o homem, caído ao chão todo e***********o olhava em nossa direção e nesse momento eu tive certeza que ela sabia que estávamos ali.
Morte levantou a mão na direção dele e a foice apareceu, disse-lhe então as palavras e o homem deu seu último suspiro.
— Você viu? Enquanto um não tinha nada e morria de frio e de fome, esse tinha tudo e morreu por estupidez. Se ele não tivesse revidado talvez só tivesse alguns prejuízos, talvez não, mas uma coisa é certa. Cedo ou tarde sua hora sempre chega.
— Não posso dizer que me senti m*l. Talvez pela forma ao qual ele morreu, mas ele era um i****a.
— i****a ou não ele ainda era humano. É isso que precisa ter em mente.
Eu bufei, ela me encarou parecendo chocada, e, em seguida, arregalou os olhos.
— Eu não entendo você, às vezes parece que você não liga a mínima para as pessoas e na outra você as defende, eu tenho toda e total certeza absoluta que você é completamente...
— Cala a boca!
— Eu não terminei. Louca, é isso o que eu ia dizer.
Ela avançou pra cima de mim tapando a minha boca e tentei protestar, ela estava exagerando um pouco, não precisava de tanto por causa do que eu havia dito.
Ela me puxou ainda segurando a minha boca e em seguida estávamos envolvidos em uma grande roupa preta com enorme capuz: a personificação da Morte.
O tempo mudou drasticamente e comecei a sentir calafrios, um buraco n***o foi aberto no meio do nada e varias coisas estranhas, vestidas exatamente como a gente, começaram a passar por nós, nem precisou que ela me contasse para saber que eram: Ceifeiros. Assim como ela, mas eles nem prestavam atenção na gente, pareciam ocupados demais em sua própria mente, mas a Dona Morte, não estava focada neles, ela olhava adiante, em outro enorme buraco n***o.
Dele saiu um vulto alto e esquisito, de mãos esqueléticas e pretas, com a mesma roupa da Morte com direito a uma enorme foice, só que o estranho era que, a foice parecia gritar, era como se a almas dos mortos estivessem presas à ela pedindo por socorro e senti mais calafrio inda, seu rosto era todo preto como a escuridão, de onde deveria ser seus olhos saiam luzes vermelhas e quando ele se mexeu, percebi que sim, possuía um rosto; seu maxilar estava todo exposto somente com ossos escuros, não possuía carne e nem pele e ele todo me dava medo.
— Ele é o Ceifador, o pior dos piores e você não vai querer descobrir o que ele faz. Vamos cair fora daqui, se ele perceber que não fazemos parte daqui vai nos caçar.
Ela me puxou e no exato momento em que estávamos prestes a sumir, como se sentisse nossa presença a criatura levantou a cabeça e olhou em nossa direção, na minha direção, podia jurar que escutei uma risada macabra seguida do gritar das almas condenadas.
Eu nunca senti tanto medo na vida.