Capítulo 6

1159 Words
Elara demorou um pouco mais para atravessar o portal naquela manhã seguinte. O vento estava diferente, mais frio, mais pensativo, como se a própria floresta estivesse refletindo sobre algo importante. Enquanto caminhava pela trilha que levava à árvore antiga, ela ainda sentia no peito o eco da experiência do dia anterior. A névoa havia testado sua coragem e sua intuição, e embora tivesse conseguido atravessá-la, uma pergunta permanecia em sua mente: por que o Jardim Encantado a escolhera? Ela tocou o portão escondido entre as raízes grossas da árvore. A madeira parecia reconhecer seu toque agora, vibrando com uma energia suave, quase calorosa. Era como se o jardim estivesse aprendendo a conhecê-la assim como ela aprendia a conhecer aquele mundo mágico. Quando atravessou o portal, encontrou o jardim em uma quietude incomum. As flores luminescentes ainda brilhavam, mas sua luz parecia mais suave, como se estivessem economizando energia. O riacho que serpenteava entre as pedras cantava uma melodia mais lenta, e até mesmo as fadas pareciam voar com mais cautela. Elara franziu a testa. — Algo aconteceu — murmurou. — Algo está prestes a acontecer. A voz veio de cima. Ela ergueu o olhar e viu Thamiel pousado em um galho baixo, balançando os pés no ar como se estivesse sentado em um banco invisível. Mas, diferente de outras vezes, seu sorriso travesso não estava tão presente. — Você também sentiu? — perguntou Elara. Thamiel assentiu lentamente. — O jardim está inquieto. Quando a energia dele muda assim… geralmente significa que antigas memórias estão despertando. — Memórias? Antes que ele respondesse, uma luz dourada surgiu entre as árvores. Liora apareceu. Sua presença sempre trazia calma, mas naquele momento havia algo diferente em seus olhos — uma mistura de esperança e preocupação. — Elara — disse ela suavemente — hoje você conhecerá um dos lugares mais antigos do Jardim Encantado. Elara sentiu seu coração acelerar. — Onde? Liora fez um gesto para que a menina a seguisse. — Venha. --- Eles caminharam por um caminho que Elara nunca havia visto antes. Era uma trilha estreita coberta por pétalas prateadas que brilhavam como pequenas estrelas caídas no chão. As árvores ao redor eram gigantescas, com troncos tão largos que três pessoas de mãos dadas não conseguiriam abraçá-las. Algumas tinham raízes que se erguiam do solo como esculturas naturais. Outras tinham folhas que emitiam uma luz azul suave. Quanto mais avançavam, mais Elara sentia uma energia profunda no ar. Não era apenas magia. Era história. Era como se aquele lugar guardasse séculos de segredos. Depois de alguns minutos, o caminho se abriu em uma clareira gigantesca. No centro dela havia algo que fez Elara prender a respiração. Uma árvore colossal. Seu tronco era tão largo quanto uma pequena casa, e seus galhos se estendiam pelo céu como braços antigos abraçando o mundo. Mas o mais impressionante eram as marcas em sua casca. Pequenas luzes pulsavam dentro da madeira, como se estrelas estivessem presas ali. — Esta é a Árvore das Memórias — disse Liora. Elara caminhou lentamente até ela. — Ela é… linda. — Ela é mais do que isso — explicou Liora. — Cada luz que você vê aqui é uma memória guardada pelo jardim. Elara tocou o tronco. No instante em que seus dedos encostaram na casca, uma onda de imagens passou por sua mente. Fadas voando entre árvores jovens. Rios nascendo. Criaturas mágicas correndo livres. O jardim crescendo ao longo de séculos. Ela recuou, surpresa. — Eu vi coisas… — Sim — disse Liora — porque a árvore reconheceu você. Elara piscou. — Reconheceu? Thamiel cruzou os braços, olhando curioso. — Isso é interessante… Liora então disse algo que fez o coração de Elara disparar. — A Árvore das Memórias apenas se abre completamente para aqueles que possuem um laço profundo com o destino do jardim. Elara ficou em silêncio. — Mas… eu sou apenas uma humana. — Talvez não apenas isso — respondeu Liora. Antes que Elara pudesse perguntar mais, algo aconteceu. Uma das luzes dentro da árvore brilhou mais forte. Muito mais forte. E então… explodiu em imagens. Elara viu duas figuras humanas caminhando pelo jardim. Um homem e uma mulher. Eles pareciam felizes. Conversavam com as fadas. Riam. Exploravam. O coração de Elara começou a bater mais rápido. Porque ela reconheceu os rostos. — Não… — sussurrou. Eram seus pais. Ela deu um passo para trás. — Eles… eles estiveram aqui… Liora assentiu. — Sim. O mundo pareceu girar por um instante. — Então… eles não desapareceram simplesmente… — Não — disse Liora suavemente. Elara sentiu lágrimas surgirem em seus olhos. — O que aconteceu com eles? Antes que Liora pudesse responder… O ar mudou. Um frio percorreu a clareira. As luzes da árvore começaram a piscar. E uma sombra começou a se espalhar pelo chão. Thamiel imediatamente voou para perto de Elara. — Sombriv. A escuridão deslizou como fumaça viva entre as raízes da árvore. Desta vez não era apenas um reflexo distante. Era presença real. A voz dele surgiu como um sussurro profundo. — Finalmente… a herdeira. Elara sentiu o coração disparar. — O que você quer? A sombra se moveu. Duas luzes vermelhas surgiram dentro dela. Olhos. — Eu apenas vim observar. A voz ecoou como vento frio. — Você é mais interessante do que eu imaginava, pequena humana. Elara tentou manter a calma. — Eu não tenho medo de você. A sombra pareceu rir. — Todos têm medo de alguma coisa. Ela então se estendeu em direção à árvore. As luzes das memórias começaram a enfraquecer. — Pare! — gritou Elara. Instintivamente, ela colocou as mãos no tronco da árvore. A energia do jardim correu por seu corpo. Uma luz dourada explodiu ao redor dela. As memórias da árvore brilharam novamente. A sombra recuou violentamente. Sombriv soltou um som irritado. — Interessante… Ele começou a se dissipar. Mas antes de desaparecer completamente, disse: — Quanto mais luz você acende… mais escura a sombra se tornará. E então ele sumiu. O silêncio voltou à clareira. Elara caiu de joelhos, respirando rápido. Thamiel pousou em seu ombro. — Você acabou de proteger a Árvore das Memórias. Liora observava em silêncio. Mas seus olhos estavam cheios de algo novo. Esperança. Elara olhou novamente para a árvore. As memórias de seus pais ainda brilhavam ali. — Eu preciso descobrir a verdade — disse ela. Liora assentiu. — E você descobrirá. Ela colocou a mão sobre o tronco da árvore. — Porque agora sabemos de algo importante. Elara ergueu o olhar. — O quê? Liora respondeu calmamente: — Seus pais não desapareceram por acaso. O vento soprou pela clareira. As luzes da árvore brilharam mais forte. E Liora completou: — Eles estavam tentando proteger o Jardim Encantado. O coração de Elara acelerou. E naquele instante ela compreendeu uma coisa. Sua jornada não era apenas sobre magia. Era sobre descobrir o destino de sua própria família. E talvez… Salvar o jardim da mesma escuridão que os havia levado.
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