A clareira da Árvore das Memórias demorou algum tempo para recuperar sua tranquilidade depois da presença de Sombriv.
Mesmo após a sombra desaparecer, o ar ainda carregava um frio estranho, como se a própria terra tivesse lembrado de algo que preferia esquecer.
Elara continuava ajoelhada perto do tronco gigantesco da árvore, respirando lentamente enquanto tentava organizar os pensamentos. As imagens de seus pais ainda dançavam em sua mente como fragmentos de um sonho que ela não queria perder.
Eles estiveram ali.
Eles caminharam naquele jardim.
Eles falaram com as fadas.
E, segundo Liora, estavam tentando proteger aquele lugar.
Aquilo mudava tudo.
Durante anos, Elara imaginara mil histórias sobre o desaparecimento deles. Pensara que talvez tivessem viajado para longe, ou que algum acidente tivesse acontecido.
Mas agora… a verdade parecia muito maior do que qualquer história que ela já imaginara.
— Está pensando muito alto — disse Thamiel suavemente, pousando sobre uma raiz da árvore.
Elara levantou o olhar.
— É que… tudo isso é muito para entender.
Thamiel cruzou os braços.
— Isso é apenas o começo.
Liora se aproximou calmamente.
— O jardim revelou algo importante hoje. Mas ainda existem muitas coisas que você precisa aprender antes de compreender completamente seu papel aqui.
Elara se levantou lentamente.
— Eu quero aprender.
Liora assentiu.
— Então venha.
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Eles deixaram a clareira da Árvore das Memórias e seguiram por um caminho que Elara nunca havia visto antes.
O Jardim Encantado parecia ainda maior do que ela imaginava.
Quanto mais caminhavam, mais ela percebia que aquele lugar não era apenas um jardim — era quase um mundo inteiro escondido dentro da floresta.
Árvores gigantes formavam corredores naturais.
Riachos luminosos serpenteavam entre pedras cobertas de musgo azul.
Flores que pareciam feitas de vidro brilhavam suavemente ao toque do vento.
Algumas plantas até se moviam lentamente, como se estivessem respirando.
— O jardim tem muitas regiões — explicou Liora. — Algumas são conhecidas pelas fadas. Outras são antigas… e raramente visitadas.
Elara olhou ao redor fascinada.
— Então ainda existem partes que eu não vi.
Thamiel riu.
— Você m*l começou a explorar.
Depois de alguns minutos, o caminho começou a descer por uma encosta suave.
A vegetação mudou.
As árvores ficaram mais antigas.
Mais grossas.
Suas raízes cresciam sobre o solo como serpentes gigantes adormecidas.
O chão parecia pulsar com uma energia profunda.
Elara sentiu um arrepio.
— Este lugar parece… diferente.
— Porque é — disse Liora.
Ela parou e apontou para frente.
— Estamos chegando ao território de um dos guardiões mais antigos do jardim.
Elara piscou.
— Guardião?
Antes que pudesse perguntar mais, o chão tremeu levemente.
As raízes ao redor começaram a se mover.
Lentamente.
Como se estivessem despertando.
Elara deu um passo para trás.
— O que está acontecendo?
Thamiel sorriu.
— Ele está acordando.
As raízes começaram a se entrelaçar no centro da clareira.
Terra e musgo se moveram.
Galhos surgiram.
Pedras se ergueram.
E então uma figura colossal começou a se formar.
Elara arregalou os olhos.
Era uma criatura gigantesca feita de madeira, raízes e pedra.
Seu corpo parecia uma mistura de árvore e criatura viva.
Musgo cobria seus ombros como um manto.
Pequenas flores cresciam em seus braços.
Seus olhos eram duas luzes verdes profundas.
Ele era enorme.
Muito maior do que qualquer criatura que Elara já tinha visto.
A voz dele soou como o som de madeira antiga rangendo ao vento.
— Liora…
A guardiã inclinou a cabeça respeitosamente.
— Saudações, Eldran, Guardião das Raízes.
Elara m*l conseguia falar.
— Ele… ele é incrível…
Thamiel cochichou:
— Ele é praticamente tão velho quanto o próprio jardim.
A criatura gigante olhou para Elara.
Seus olhos brilharam suavemente.
— Então… esta é a humana.
Elara sentiu o coração bater mais rápido.
— Eu… eu sou Elara.
A criatura se inclinou lentamente.
O movimento fez pequenas folhas caírem de seus ombros.
— Eu senti sua presença na Árvore das Memórias.
Elara piscou.
— Você sentiu?
— Sim.
A voz dele era profunda e lenta, como se cada palavra viesse de séculos de sabedoria.
— O jardim desperta quando novos caminhos começam.
Elara não sabia exatamente o que aquilo significava, mas sentia que aquelas palavras eram importantes.
Liora deu um passo à frente.
— Eldran, trouxemos Elara aqui porque chegou o momento de mostrar algo a ela.
O guardião inclinou a cabeça lentamente.
— O mapa.
Elara franziu a testa.
— Que mapa?
Eldran levantou um de seus enormes braços de raiz.
O chão começou a se mover novamente.
Uma pedra antiga emergiu da terra no centro da clareira.
Ela era redonda e coberta por símbolos antigos.
Quando Eldran tocou a pedra, uma luz dourada se espalhou pela superfície.
Linhas começaram a aparecer.
Rios.
Árvores.
Caminhos.
Montanhas.
Ilhas de flores.
Era um mapa.
Um mapa completo do Jardim Encantado.
Elara se aproximou lentamente.
— Isso é… incrível.
Liora explicou:
— Este mapa mostra todas as regiões conhecidas do jardim.
Elara observou fascinada.
Havia áreas que ela reconhecia.
A clareira da Lumina.
O lago das flores flutuantes.
A região da névoa.
Mas havia muito mais.
Regiões gigantescas.
Uma floresta azul.
Um vale de cristais.
Um rio de luz líquida.
E até uma área marcada por uma sombra escura.
Elara apontou.
— O que é aquilo?
Thamiel suspirou.
— Território de Sombriv.
O coração de Elara apertou.
— Ele tem um território?
Eldran respondeu:
— A escuridão sempre tenta criar raízes.
Liora completou:
— Por isso precisamos proteger o jardim.
Elara continuou observando o mapa.
Ela percebeu algo curioso.
Algumas áreas estavam brilhando mais forte.
— O que significa quando essas partes brilham?
Eldran respondeu:
— São lugares onde a energia do jardim está mudando.
Elara sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Mudando como?
Eldran olhou para ela.
— Como se estivesse respondendo à sua presença.
Elara ficou em silêncio.
O mapa começou a brilhar um pouco mais.
E pela primeira vez ela percebeu algo.
Uma pequena luz apareceu em uma região distante do jardim.
Uma região que nenhum deles mencionara ainda.
Thamiel inclinou a cabeça.
— Interessante…
Liora franziu a testa.
— Essa área não deveria estar ativa.
Elara olhou para eles.
— O que tem lá?
Eldran respondeu calmamente:
— Um lugar antigo.
Muito antigo.
O silêncio caiu sobre a clareira.
Elara sentiu uma mistura de curiosidade e nervosismo.
— Podemos ir até lá?
Thamiel abriu um sorriso travesso.
— Ah… agora a aventura começa de verdade.
Liora cruzou os braços pensativa.
— Talvez ainda seja cedo.
Mas Eldran falou novamente.
— O jardim escolhe seus próprios caminhos.
Ele olhou diretamente para Elara.
— E parece que o próximo caminho… já escolheu você.
Elara olhou novamente para o mapa brilhante.
Ela não sabia exatamente o que encontraria naquela nova região.
Mas uma coisa estava clara.
O Jardim Encantado estava revelando seus segredos pouco a pouco.
E cada passo que ela dava a levava mais perto da verdade sobre:
o jardim…
Sombriv…
e o misterioso destino de seus pais.
Enquanto o mapa continuava brilhando suavemente, Elara percebeu algo importante.
Sua jornada estava apenas começando.
E o Jardim Encantado ainda tinha muitos mistérios esperando para serem descobertos.