Capítulo 6

1683 Words
O desafio estava lançado e se havia algo que motivava Bárbara, era o desafio. Durante dias e noites inteiras dedicou-se a aprender e entender como funcionava o Complexo McCain, e a cada minuto tudo lhe parecia mais fascinante. Jamais tinha realizado um trabalho daquela magnitude, mas tinha grandes recursos e uma excelente equipe à sua disposição, além de total liberdade criativa. Nas muitas reuniões que teve com Daniel McCain sua postura era sempre a mesma: escutava calado tudo o que Bárbara tinha a apresentar, sem nunca a interromper e fazia perguntas pontuais e apontamentos precisos sempre que terminava. A cada conversa ficava mais claro que ele conhecia profundamente cada célula de seu corpo organizacional e tinha chegado tão longe porque conseguia de certa forma fazer-se presente em todas as partes de seu império. As campanhas idealizadas por Bárbara e as mudanças implementadas por sua gestão estavam surtindo o efeito desejado e superando expectativas. O entrosamento com a equipe ocorreu depressa, sem maiores problemas e, apesar da rotina cansativa, ela estava se adaptando rápido. Dividia seu tempo entre suas novas funções e administrava à distância a agência, estando presente sempre que possível. Além disso, seu pai lhe mantinha informada sobre os avanços da empresa da família e qualquer cansaço que Bárbara sentisse se dissipava ao ver a empolgação de Gerard. Como esperavam, a parceria com a McCain Corp foi extremamente benéfica, expandindo em poucos meses horizontes que não haviam sido conquistados em décadas de trabalho árduo. A simples menção do interesse de Daniel pela McNamara Têxteis já chamou de forma positiva a atenção do mercado, conquistando novos parceiros e clientes. Certo dia, após o término de uma reunião realizada na sala de McCain, enquanto Bárbara anotava algumas alterações que deveriam ser realizadas no prospecto da próxima campanha institucional, Daniel iniciou uma conversa. - Soube dos resultados do último semestre da empresa de seu pai. O crescimento foi impressionante. - Sim, foi. - respondeu Bárbara - Graças a seus investimentos e à parceria que proporcionou, conseguimos avançar anos em apenas seis meses. Obrigada por isso. - Vocês também fizeram muito bem seu trabalho. -Mas que demonstração de altruísmo de sua parte! Pensei que achasse sentimentos nobres como este uma perda de tempo. Estou surpresa, tenho que confessar. - Falou Bárbara sorrindo, sem tirar os olhos do papel. - Como disse? - Ele perguntou erguendo uma sobrancelha. - Desculpe, foi uma brincadeira. É que não pensei que pudesse atribuir o sucesso desta empreitada à alguma outra coisa que não fosse a participação da McCain Corp. Ele a fitou por alguns instantes. - Depois de seis meses você continua tão corajosa quanto imprudente. Não presuma que me conhece o suficiente para adivinhar o que penso sobre algo, pessoas que convivem comigo há décadas não conseguem fazer isso. - Certo. Me perdoe a ousadia, não quis ofendê-lo - disse Bárbara sentindo o rosto queimar. Após alguns segundos achou melhor quebrar o silêncio. - Sabe Sr. McCain, nesses seis meses acho que ficou claro que sou uma pessoa bem transparente. Não costumo esconder o que penso e esse é meu maior defeito. De qualquer forma, o que quis dizer é que ter um reconhecimento direto vindo de alguém como o senhor é realmente surpreendente. - O que quer dizer com 'alguém como eu'? Bárbara engoliu seco, não esperava essa pergunta. - Alguém que soube alcançar o sucesso de maneira plena. Na vida o sucesso nem sempre é fruto de trabalho árduo, infelizmente. Na verdade, muitas vezes é questão de estratégia. Aqueles que não querem trabalhar duro podem ser bem-sucedidos fazendo outros trabalhar por eles e apenas colher os frutos disso. Por tudo que tenho visto aqui percebo que esse não é o seu caso. O senhor exerce a liderança e possui grande habilidade estratégica, mas também trabalha arduamente para promover e consolidar sua empresa. É muito bom ouvir alguém que realmente sabe o que fazer para alcançar o êxito, dizer que fizemos bem a nossa parte. - Ora, ora, isso é um elogio vindo da 'senhorita estou sempre certa'? - disse McCain com a expressão mais amena, dando um sorriso sutil. - Eu não acho que estou sempre certa! - Bárbara replicou soando como uma criança contrariada. E então, pela primeira vez em um semestre inteiro, ele sorriu. E Bárbara perdeu o fôlego. Pensou na mesma hora que alguém tão soberbo e irritante não deveria ser tão atraente, não era justo com as mulheres. E apesar de repetir todos os dias para si mesma o quanto detestava seu jeito egocêntrico, ela ainda era uma mulher e simplesmente não dava para não notar a beleza daquele sorriso. 'Foco Bárbara! ' - gritou uma voz interior. - Pois me parece muito segura de suas opiniões, e ao contrário de todos, não parece ter medo de mim. - Disse ele olhando-a de soslaio, parecendo se divertir com a situação. - E porque deveria ter medo do senhor? - Porque todos têm juízo suficiente para me temer. - Acho 'temer' uma palavra muito forte. Eu o respeito, mas não o temo. Temeria se tivesse três olhos, chifres e dentes pontiagudos, mas como não é o caso, não tenho medo. - disse ela sorrindo - Aliás, penso que esse receio que os funcionários têm de se aproximar do senhor, não é nada benéfico para a empresa. - Terei de lembrá-la que sou eu quem decide o que é benéfico para a minha empresa. - Ele disse dando ênfase à palavra minha e recuperando a postura impenetrável de sempre. - Ah sim, claro, perdoe-me foi apenas uma colocação. McCain permaneceu imóvel olhando para Bárbara com o queixo apoiado sobre as duas mãos fechadas e ela achou melhor se retirar antes que pudesse se colocar em mais alguma situação constrangedora. Permanecer mais tempo naquele ambiente, com alguém que mudava de humor tão depressa, não parecia nada prudente. - Se me der licença, tenho que levar as alterações para a equipe. Ele assentiu e ela deixou a sala, sem perceber que o olhar dele a seguia atentamente. *** Na tarde seguinte Bárbara estava em seu escritório traçando o briefing de um novo projeto quando a secretária anunciou que tinha visita. Ao saber que se tratava de Christopher seu coração literalmente pulou de alegria. - Ah Christopher, não sabe como é um bálsamo te ver! - disse Bárbara enquanto o apertava em um caloroso abraço. - Puxa vida, um bálsamo? Me senti praticamente uma personagem em uma peça de Shakespeare. Tenho que responder à altura. - Disse Christopher colocando-se de joelhos. - Christopher o que está fazendo? Enlouqueceu? Levanta já daí! - "Quem é essa dama que ensina as luzes a brilhar? Parece pender da face da noite como um brinco precioso da orelha de um etíope!" - disse Christopher em tom teatral citando uma frase de Romeu e Julieta e arrancando uma gargalhada de Bárbara que fez sua barriga doer. - Chris, para, por favor! - disse ela ainda rindo - Você é impossível! Abruptamente a porta se abriu e McCain entrou, se deparando com a estranha cena de Christopher apoiado sobre um joelho segurando a mão de Bárbara em pose de declaração romântica. Ambos se assustaram com a sua entrada e ele mudou de posição imediatamente, soltando a mão dela e ficando em pé num pulo. - Sr. McCain - disse Bárbara num tom encabulado - Permita-me apresentar meu amigo Christopher. - Boa tarde. - Respondeu ele num tom frio, olhando-o de cima a baixo. - Boa tarde Sr. McCain. É um prazer conhecê-lo. - disse Christopher estendendo-lhe a mão. Ele olhou para a mão que lhe estendia com desdém, mas para alívio de Bárbara retribuiu o cumprimento. - Bem, de qualquer forma só passei para dizer oi. Já estava de saída. Bárbara quando puder, me ligue ok? - disse Christopher notando o clima tenso que pairava no ar. - Claro. Mas tem certeza que já vai? Se quiser aguardar, podemos conversar depois de eu atender o Sr. McCain. - Vai demorar. - Interrompeu McCain abruptamente, com um m*l humor visível. Bárbara olhou-o assustada, mas achou melhor não dizer nada. - Eu realmente tenho que ir. Quem sabe uma próxima vez. Até mais. Christopher deu um beijo no rosto de Bárbara e deixou seu escritório sob o olhar descontente de Daniel. - Se não se importa. - Disse McCain quando a porta se fechou. - Prefiro que mantenha seus relacionamentos amorosos do lado de fora da empresa. - Amorosos? Não. Ele é apenas um amigo que estava fazendo uma brincadeira quando o senhor entrou... - disse Bárbara -... Sem bater... - Acrescentou num sussurro. McCain olhou-a de uma forma que poderia queimá-la viva. - Estou aqui por um motivo realmente importante e se bato ou não ao entrar é um problema meu. "d***a, ele ouviu" - pensou ela. - Sinto muito Sr. McCain. - Já estava ficando farta de pedir desculpas. - Em que posso ajudá-lo? - Tenho algumas dúvidas sobre a próxima campanha da divisão automotiva e quero seu parecer, acompanhe-me até minha sala. "Se queria que eu fosse até sua sala, porque não ligou?"- pensou Bárbara enquanto o seguia pelo corredor, tendo como visão apenas suas costas (muito grandes por sinal), enquanto ele caminhava à sua frente em postura praticamente militar. A cada dia a situação estava se tornando um pouco mais incômoda. Daniel McCain tratava as pessoas que trabalhavam para ele como sua propriedade particular, exigindo uma dedicação exclusiva que beirava o absurdo. Pagava bem por isso é verdade, mas a sensação que toda essa pressão causava era sufocante. Embora estivesse muito satisfeita com a evolução de seu trabalho, Bárbara por vezes sentia saudades de sua rotina anterior, onde era dona dos próprios passos. Se a empresa de sua família não dependesse desse vínculo, com certeza já teria ido embora depois de dizer algumas verdades para ele. Mas não era assim, e ela precisava se acostumar com a ideia de que levaria tempo até que conseguisse se desvincular da McCain Corp, tudo estava apenas começando. "d****o, foco, ação!" - Lembrou a si mesma - "Eu quero, eu posso, eu consigo suportar esta situação!".
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