Embora amasse sua agência, Bárbara jamais se sentiu tão feliz em pisar em seu escritório novamente como naquele dia. Enquanto tentava explicar a situação à sua assistente pessoal Emily, ela se deu conta que nem ela mesmo entendia muito bem o que tinha acontecido.
– Quis te obrigar a aceitar? – perguntou Emily perplexa.
– Não diria obrigar porque não poderia fazer isso – respondeu Bárbara à sua assistente que a olhava sem sequer piscar – mas, insistiu demais e foi muito a*******e. Fez jus à reputação que tem.
Bárbara levantou-se e foi até o espelho da parede lateral de seu escritório olhar seu reflexo por alguns instantes. Sentia-se um pouco atordoada. Havia acordado tão bem naquela manhã, mas o encontro com McCain havia a deixado mentalmente exausta. Passou a mão pelos cachos do cabelo loiro escuro sentindo um cansaço anormal e pensou que com certeza foi muita coisa para uma só manhã.
– É verdade o que dizem sobre ele?
– Que é irritante e soberbo? Sim.
– Não, não é isso que eu quero saber. Deixa eu reformular a pergunta: é verdade o que as mulheres dizem sobre ele?
– Não sei o que as mulheres dizem sobre ele.
– Então é a única que não sabe. Em que planeta você vive? Todas dizem que ele é bonito! É verdade? Como ele é?
Bárbara olhou para Emily que a encarava com um sorriso adolescente. Ao refletir sobre sua pergunta perdeu-se em seus pensamentos.
– Bárbara! Bárbara! Me conta, vai. Ah não, você mergulhou em você mesma de novo, não é? Então volta para a superfície que eu quero saber como ele é! – disse Emily tocando seu braço.
– Alto, muito alto...
– E?
– É moreno...
– Hum, moreno, adoro morenos. O que mais?
– Tem os cabelos grossos, escuros, olhos cor de mel um pouco orientalizados, lábios grossos, mas não muito, só o suficiente. A linha do maxilar é quadrada e tem as maiores mãos que já vi. Aparenta ter mais de trinta e menos de quarenta...tem dentes perfeitos, não sorri, mas dá para ver quando fala. As costas são largas e tem uma presença imponente e....
Foi tirada de seus pensamentos pela gargalhada de Emily.
– Do que está rindo?
– Ah nada, só achei hilário vê-la falar assim. Você nunca descreveu um homem desta maneira.
– Desta maneira o que?
– Detalhista. Como se tivesse analisado cada centímetro.
– Ora Emily, que bobagem! Você sabe que costumo analisar tudo à minha volta.
– Sei, mas é a primeira vez que te vejo fazer isso com um ser e não com coisas ou ambientes.
– Francamente, Emily.
– Então vai me dizer que não achou ele bonito?
– Não.
– Mentira!
– Achei lindo, Emily. Não de uma beleza surpreendente, mas, de uma beleza excêntrica.
Emily encarou-a chocada, com a boca literalmente formando um "o".
– O que foi? – perguntou Bárbara – Só porque ele é um cretino que se acha o centro do universo não quer dizer que eu não saiba reconhecer sua beleza. Você está cansada de saber que não omito minhas opiniões.
– Sim, eu sei. Mas confesso que vê-la dizer isso sobre um homem é absolutamente inédito.
– Sou uma mulher como as outras, Emily.
– Com certeza, mas perdoe-me, só descobri isso hoje.
Bárbara sorriu e jogou a almofada do sofá lateral em Emily, forçando-a a desviar-se do objeto.
– Saia daqui antes que eu jogue o vaso da mesa em você.
– Está bem, está bem, eu vou. Mas agora não vou sossegar enquanto não conhecer esse "deus grego".
Bárbara deu-lhe um sorriso irônico.
– Bem, quem sabe você não encontra com ele atravessando a rua.
– Engraçadinha.
Emily sorriu e quando estava deixando a sala deu de cara com Christopher, o melhor amigo de Bárbara.
– Oh, desculpe Chris.
– Não tem problema, está tudo bem, não tinha como saber que eu estava aqui. Vim levar minha ilustríssima amiga para comer alguma coisa.
– Chris! Que bom que veio! Estou realmente precisando de um tempo.
– E posso saber por quê?
– Te conto no caminho, vamos.
***
– Me deixa ver se entendi. Ele te chamou lá para oferecer um cargo de superintendência e não te deu o direito de recusar? É isso mesmo? – perguntou Chris parecendo não acreditar no que ouvia.
– Exatamente isso Chris. Ele agiu como se fosse uma ofensa inadmissível que eu recusasse a oferta. Foi surreal.
– Pois eu estou achando bem engraçado – disse Christopher enquanto mexia sua bebida.
– Engraçado porque não foi você. Foi assustador, isso sim. Pensei que ele mandaria me decapitar.
– Que exagero Bárbara! Ele pode até ser influente, mas isso já é demais. Você está parecendo uma menininha assustada com o monstro no armário. Quer saber, é a primeira vez que te vejo assim e é hilário.
Bárbara arremessou uma batata frita contra Christopher, que desviou dando uma sonora gargalhada.
– Sabe que às vezes me pergunto por que continuo sendo sua amiga depois de todos esses anos de ofensas intermináveis.
– Porque você não vive sem mim – disse Christopher com um sorriso de orelha a orelha.
Bárbara olhou para ele querendo contestar, mas só conseguiu sorrir também. Afinal, era mesmo inegável a diferença que Christopher fazia em sua vida.
Desde a faculdade eram inseparáveis. A amizade começou quando ela se esforçava para retirar um pesado livro da prateleira da biblioteca sem sucesso e de repente uma mão surgiu para ajudá-la. Virando-se, deu de frente com os olhos mais azuis que já tinha visto em toda a sua vida e um sorriso largo que exalava simpatia. A conexão foi imediata e a partir daquele dia, o cavalheiro loiro que a ajudou tornou-se seu principal companheiro de pesquisas e logo, seu melhor amigo.
Ninguém a entendia tão bem quanto Christopher. Ele esteve ao lado dela em todos seus altos e baixos e sabia exatamente o quanto cada coisa lhe afetava. Bárbara sempre se sentiu muito abençoada por ter um amigo assim.
– Não vou me manifestar sobre essa declaração – ela disse sorrindo.
– Não precisa. Sei do meu valor – disse Christopher fazendo uma péssima imitação de soberba, o que só conseguiu arrancar uma gargalhada de Bárbara.
– Obrigada por me fazer sorrir, Chris.
– Ah, por nada. – respondeu ele fazendo reverência com as mãos – estou aqui para servi-la, mademoiselle. Mas me conta, não passou nem uma vez pela sua cabeça aceitar a oferta?
– Seria uma mentirosa se dissesse que não é tentador ser convidada, ou talvez deveria dizer intimada, enfim, ser considerada a candidata ideal para um cargo tão importante em uma empresa como a McCain. Ainda mais aterrador é ser recebida pelo próprio Daniel McCain. Mas você me conhece, minha família e minha agência estão em primeiro lugar. Não poderia aceitar.
– Já pensou em delegar algumas tarefas?
– Que horror Chris, você está dizendo exatamente o mesmo que ele me disse.
– Sério? Ah, talvez porque seja o óbvio. Você não precisa abandonar tudo para se dedicar ao cargo. Pode supervisionar a distância o andamento das coisas, afinal, você sempre foi polivalente.
– Não sei...não me parece possível. Poderia sim delegar muita coisa da agência, você sabe que tenho a ajuda de excelentes profissionais lá, mas que benefício isso traria para a empresa da minha família? Só me deixaria mais ausente. Aceitar essa oferta prejudicaria minhas prioridades e eu já recusei. Trabalhar para alguém insuportável como aquele homem a*******e está fora de cogitação e, como lhe contei, tive uma saída nada amigável de lá, então já não importa.
– Bom, você é quem sabe o que é melhor. Se tomou essa decisão confio nela.
– Obrigada Chris. De coração.
– Um sorvete agora?
– Ótima ideia.