Dália
A carruagem balançava suavemente enquanto seguimos em direção à cidade grande. O vento cortante de inverno fazia os cavalos avançarem rapidamente, o som das patas batendo contra o chão coberto de neve ecoava pela estrada. O céu estava nublado, como se o mundo inteiro estivesse se preparando para algo ainda não revelado. Eu observava a paisagem passar rapidamente pela janela, sem saber ao certo o que esperar dessa nova cidade.
Desde que meu pai anunciou que nos mudaríamos, a sensação de incerteza não me deixava. O que nos aguardava ali? A cidade grande era um lugar perigoso, dominado por vampiros, e mesmo que minha família fosse experiente e forte, eu sabia que enfrentar o desconhecido seria um desafio. Não sabíamos em quem podíamos confiar, e eu não acreditava que qualquer humano ali fosse digno de confiança. Os vampiros tinham seu jeito de manipular, sempre com aquele sorriso encantador, como se estivessem te fazendo um favor.
“Estamos quase lá”, meu pai disse, sua voz grave quebrando o silêncio. Aric estava olhando pela janela, vigilante como sempre. Ele nunca relaxava, e eu sabia que ele se preocupava com a mudança, tanto quanto eu. Essa cidade era um território desconhecido, e ele sempre preferiu o campo, onde a caça era mais simples, mais direta.
Minha mãe, Saphira, estava ao meu lado, observando as ruas pela janela. Ela não falava muito, mas seus olhos estavam atentos a tudo. Ela sabia o que estava em jogo e a importância de nossa mudança. Talvez, mais que qualquer um de nós, ela entendesse que nossa família não podia se dar ao luxo de ser complacente em um lugar como esse.
Kieran estava sentado na frente da carruagem, olhando inquieto pela janela. Ele não gostava muito da ideia de sair de nossa casa para enfrentar algo tão diferente, mas ele confiava em meu pai. Eu podia ver o nervosismo em seu rosto, embora ele tentasse esconder.
“Vamos encontrar um lugar para ficar por enquanto. Uma estalagem decente. A cidade não é perigosa durante o dia, mas à noite…” meu pai fez uma pausa, olhando para o horizonte com olhos de quem já viu mais do que gostaria de ver. “Fiquem alerta.”
“Sim, pai”, eu respondi, tentando esconder a apreensão que começava a crescer em meu peito.
Finalmente, a carruagem entrou pela grande porta de ferro da cidade. Eu observei as ruas movimentadas, os prédios altos e as construções elaboradas que pareciam se estender até o céu. O cheiro era diferente, um misto de fumaça de carvão, comida exótica e algo mais, algo... estranho. A cidade era viva, pulsante, mas havia algo nela que não parecia natural. Eu sentia a presença de seres sobrenaturais em cada esquina, e essa sensação só aumentava conforme nos aproximávamos mais do centro da cidade.
A carruagem parou em frente a uma estalagem discreta, com a placa de madeira pendurada que anunciava o nome "O Refúgio". Não era um lugar de luxo, mas parecia ser seguro, algo adequado para nossa estadia temporária. Meu pai desceu primeiro, ajustando sua capa pesada enquanto observava ao redor com desconfiança.
“Vamos logo, antes que comece a escurecer”, ele disse, fazendo um gesto para minha mãe e para mim sairmos.
Entrei na estalagem com passos firmes, tentando não parecer desconfortável. O interior estava aquecido por um grande fogo que ardia na lareira, e o cheiro de carne assada preenchia o ar. As conversas baixas e o tilintar de copos de vidro criavam um ambiente acolhedor, mas eu não me sentia à vontade ali. Cada rosto, cada sorriso, parecia esconder algo, algo que não podíamos ver. Eu sabia que os vampiros adoravam frequentar esse tipo de lugar, e eu não sabia quem era quem ali.
O estalajadeiro nos recebeu com um sorriso. Ele era um homem corpulento com um bigode espesso e um olhar atento. “Bem-vindos ao Refúgio. O que posso fazer por vocês?”
“Uma estada por uma noite”, meu pai disse secamente, jogando uma bolsa de moedas na mesa. “Precisamos de um quarto tranquilo. Não temos tempo para mais conversas.”
O homem pegou a bolsa de moedas e deu uma rápida olhada em minha mãe e em mim, talvez pela curiosidade, mas não fez nenhuma pergunta. Ele parecia saber o suficiente sobre caçadores como nós.
“Claro, senhor. O quarto está pronto. Fiquem à vontade.”
A noite passou sem grandes eventos. Fomos até o nosso quarto, onde minha mãe logo fez o que sempre fazia quando precisávamos de um descanso: ela se sentou ao lado da janela e começou a observar a movimentação na rua, enquanto meu pai passava o resto da noite verificando as lâminas, os feitiços e os itens que usávamos para a caça. Ele sempre foi meticuloso.
“Eu não confio nesses humanos”, minha mãe disse depois de um tempo, a voz baixa e grave. “Eles são fracos, e estão rodeados de vampiros. A cidade inteira é um ninho de cobras.”
“Sim, eu sei”, respondi, sentindo o peso das palavras dela. Mas o que poderíamos fazer? Não tínhamos outra escolha senão ficar ali por enquanto.
“Temos que tomar cuidado, Dália”, ela continuou, seus olhos atentos. “Esses vampiros não são como os outros. Eles têm influência, poder. A cidade inteira parece sob seu controle.”
Eu sabia disso. Mas o que mais poderíamos fazer? Nossa missão era proteger os humanos, e essa cidade, como qualquer outra, precisava de p******o. No entanto, o que me inquietava era o fato de que não havia apenas vampiros ali. Havia algo mais, algo que eu ainda não conseguia entender completamente. Eu sentia a presença de algo... não natural, algo que estava além dos vampiros e lobisomens.
No dia seguinte, decidimos sair e explorar a cidade. Era uma manhã fria, mas o sol estava brilhando, e as ruas estavam movimentadas. Pessoas caminhavam apressadas de um lado para o outro, comerciantes gritavam suas ofertas, e as carroças passavam, carregando mercadorias de todo tipo. Mas, como sempre, eu não conseguia desviar os olhos do que estava ao redor. As sombras, os olhares furtivos, o cheiro de algo sombrio. Era como se a cidade estivesse te observando, aguardando o momento certo para atacar.
“Temos que encontrar aliados, gente em quem podemos confiar”, meu pai disse enquanto caminhávamos pelas ruas. “Mas não podemos confiar em nenhum ser sobrenatural, seja lobo, vampiro ou qualquer outra coisa. Eles são todos perigosos.”
Eu concordava com ele, mas o que mais me preocupava era como agir em uma cidade tão cheia de intrigas. E, mais importante, quem seria capaz de nos ajudar a entender o que realmente estava acontecendo ali. A cidade não parecia ser apenas um lugar onde os vampiros dominavam e os lobisomens caçavam. Algo estava por trás disso tudo.
À medida que caminhávamos, vi algumas figuras solitárias e suspeitas em meio à multidão. Um homem alto, com uma capa escura, que se afastava rapidamente de um canto de rua. Uma mulher de pele pálida e olhar penetrante, que nos observava da janela de uma loja de antiguidades. Eu não sabia o que eles eram, mas sentia que estavam de olho em nós, como se já soubessem quem éramos. E, pior, como se soubessem o que estávamos procurando.
“Vamos dar uma volta na praça central”, sugeri, tentando ignorar a sensação de estar sendo observada.
A praça estava cheia de vendedores, artistas de rua e crianças brincando, mas algo no ar estava errado. Senti como se o chão estivesse prestes a ceder sob meus pés. Os vampiros podiam estar em qualquer lugar, disfarçados entre os humanos.
“Dália”, minha mãe chamou, sua voz tensa. “Não se afaste de nós. A cidade pode parecer normal, mas não é.”
Eu sabia disso, mas a sensação de inquietação estava me consumindo. Algo estava prestes a acontecer, e eu tinha a sensação de que estávamos no centro de tudo. Algo grande estava em movimento, e a cidade, com sua fachada encantadora, estava prestes a revelar seu verdadeiro rosto.
“A caçada ainda não começou”, murmurei para mim mesma, ciente de que, ao encontrar aliados, também poderíamos estar atraindo inimigos.