Dália
O sol começava a se pôr quando decidi sair de casa para buscar um pouco de água e algumas frutas na floresta. Depois da discussão com meu pai, eu precisava de ar fresco — e de um pouco de paz. Kieran me lançou um olhar desconfiado quando me viu pegar um cesto, mas não disse nada. Ele sabia que eu não ficaria longe por muito tempo.
A floresta atrás de nossa casa era tranquila, com a brisa da tarde balançando levemente as folhas. O som da cachoeira ecoava ao longe, um som constante e relaxante que me guiava pelo caminho conhecido. Eu já tinha andado por ali tantas vezes que poderia encontrar o caminho de olhos fechados.
O sol filtrava-se pelas copas das árvores, lançando feixes dourados sobre o chão de terra e musgo. Pássaros cantavam acima de mim, e pequenos roedores se escondiam entre as raízes das árvores enquanto eu passava. Meus passos eram leves, cuidadosos — afinal, eu ainda estava na fronteira entre o território humano e o território dos lobos.
Quando alcancei a margem do rio perto da cachoeira, abaixei-me para encher o cantil. A água era cristalina, refletindo os tons de laranja e dourado do céu. Enquanto a água preenchia o recipiente, meus olhos se voltaram para o outro lado da margem — e foi aí que eu o vi.
Fenrir estava deitado sobre a grama, os braços cruzados atrás da cabeça e os olhos fechados. Ele não estava usando camisa — algo que eu já deveria ter me acostumado a ver nos lobos — mas, mesmo assim, a visão fez meu coração dar um leve salto.
Os cabelos brancos dele contrastavam com o verde vibrante da grama, e a luz dourada do pôr do sol destacava os traços afiados de seu rosto. Os olhos estavam fechados, mas eu sabia que, quando abertos, seriam de um azul cortante. O tipo de azul que não se vê todos os dias.
Eu mordi o lábio, sentindo uma pontada de irritação comigo mesma por estar analisando tanto um lobo. Não que eu achasse que Fenrir fosse f**o — longe disso. Ele tinha o tipo de aparência que faria qualquer garota se virar na rua. Mas ele era um lobo. E lobisomens eram inimigos naturais dos caçadores.
Se ele fosse um caçador… Bem, ele daria um ótimo caçador. Rápido, forte e, claramente, bem treinado. Mas ele não era um caçador. Ele era um lobo.
Eu deveria simplesmente pegar minha água e ir embora. Era o mais sensato a se fazer. Mas, em vez disso, meus olhos permaneceram nele.
— Você pretende ficar me encarando por quanto tempo? — A voz dele soou baixa, com um toque de diversão.
Eu congelei.
Fenrir abriu os olhos, encontrando os meus com facilidade. O tom azul profundo de sua íris brilhou na luz fraca da tarde. Ele sorriu de lado, aquele sorriso confiante e levemente provocador que eu odiava tanto.
— Não estou te encarando — respondi, levantando-me e segurando o cesto com firmeza. — Só estou surpresa de te ver tão… relaxado.
— Até lobos precisam de um descanso de vez em quando — ele retrucou, esticando os braços acima da cabeça e bocejando. — O que você está fazendo aqui?
— Pegando água. E frutas. — Levantei o cesto ligeiramente.
— Hm. — Fenrir me analisou de cima a baixo, sem nenhuma pressa. — Sozinha na floresta? Que imprudente.
— Eu sei me cuidar.
— Ah, claro. — Ele se sentou, apoiando-se nos cotovelos. Os músculos dos ombros e do peito flexionaram com o movimento, e eu precisei desviar o olhar para não ficar ainda mais irritada comigo mesma. — Uma garota humana sozinha na floresta ao anoitecer… Parece bem seguro.
— Eu sou uma caçadora — retruquei. — E você sabe disso.
— Sim. — Ele inclinou a cabeça, os cabelos brancos deslizando sobre os ombros. — Mas você também sabe que há criaturas por aí que não se importam com isso.
— Está me ameaçando?
— Estou te avisando.
Eu bufei, virando-me para começar a colher algumas frutas dos arbustos próximos. O som de grama se movendo atrás de mim indicava que Fenrir também tinha se levantado.
— Não precisa me seguir — falei, sem olhar para ele.
— E quem disse que estou te seguindo? — A voz dele soou próxima demais, e eu o senti parado ao meu lado.
Suspirei, me virando para encará-lo. Fenrir tinha um meio sorriso nos lábios, os olhos azuis brilhando com um toque de provocação.
— Você realmente não tem nada melhor para fazer?
— E você realmente não tem ninguém melhor para encontrar? — Ele retrucou.
— Não.
— Então acho que estamos na mesma situação.
Eu revirei os olhos e voltei a colher as frutas, ignorando a presença dele o máximo que pude. Mas ele continuava ali, parado, observando cada movimento meu.
— Então… — Fenrir quebrou o silêncio. — Como está seu pai?
Eu parei por um momento.
— Ele está… normal.
— O que quer dizer que ele ainda odeia todos os lobisomens.
— É a natureza dele — murmurei.
Fenrir deu um passo para o lado, abaixando-se para pegar algumas frutas também. Os dedos dele roçaram os meus brevemente, e eu me afastei automaticamente. Ele ergueu uma sobrancelha, mas não comentou nada.
— E o que você pensa sobre isso? — Ele perguntou.
— Sobre o quê?
— Sobre os lobos. Sobre mim.
Eu encarei os olhos azuis dele por um instante. Os traços de Fenrir eram suaves, mas havia um toque selvagem em seu olhar. Algo que me lembrava constantemente que ele não era como eu — ele nunca seria como eu.
— Acho que você é um lobo. — Dei de ombros. — E que isso basta para o meu pai querer arrancar sua cabeça.
— E você? — Ele se inclinou ligeiramente para frente. — Também quer arrancar minha cabeça?
Eu me aproximei, ficando a poucos centímetros dele. Ele não se moveu.
— Se você me der motivo para isso, com certeza eu vou tentar.
Fenrir sorriu — aquele sorriso perigoso e confiante que fazia meu coração bater rápido demais.
— Aposto que você seria rápida.
— Você não tem ideia.
— Ah, mas eu tenho.
Eu mordi o lábio, me afastando antes que ele pudesse ver o calor que subiu ao meu rosto.
— Não devia estar aqui — murmurei. — Os outros caçadores não vão gostar de te ver tão perto de casa.
— Eu sei. — Fenrir jogou uma fruta para o alto e a pegou com uma mordida rápida. — Mas, ainda assim, aqui estou eu.
— Por quê?
— Boa pergunta.
— Vai responder?
Fenrir me olhou por um longo momento, os olhos azuis brilhando na luz fraca da floresta. Ele deu um passo à frente, e eu automaticamente recuei, sentindo minhas costas baterem contra o tronco de uma árvore.
— Talvez eu só goste da companhia — ele disse, a voz baixa e suave.
Eu o encarei, meu coração batendo rápido demais.
— Ou talvez você só goste de me irritar.
— Talvez.
Os olhos dele desceram até meus lábios por um segundo antes de ele se afastar. Fenrir deu um passo para trás, o sorriso voltando aos lábios.
— Boa sorte com a colheita, caçadora.
Eu observei enquanto ele se afastava, os cabelos brancos brilhando sob a luz do entardecer. Ele desapareceu entre as árvores, movendo-se com a graça natural de um predador.
Eu inspirei fundo, sentindo o coração ainda acelerado.
Fenrir era perigoso. Ele era um lobo.
Mas, por algum motivo, eu sabia que ele não era uma ameaça para mim.
E talvez isso fosse o mais perigoso de tudo.