Dália
Eu estava sentada na traseira da carroça, o sol da manhã tocando meu rosto enquanto Kieran puxava as rédeas do cavalo com uma expressão fechada.
O caminho de terra que nos levava até a vila vizinha estava coberto de pequenas pedras e galhos secos, o som das rodas da carroça rangendo contra o solo preenchia o silêncio tenso entre nós. Kieran não falava nada desde que saímos de casa — mas eu sabia o que ele estava pensando.
Ela vai se meter em problemas.
Ele sempre pensava isso — e eu sempre provava que ele estava errado.
Minhas mãos apertavam com força o cabo do meu revólver, carregado com balas de prata banhadas em sangue de mortos. Essas balas eram mortais para vampiros e lobisomens. Bala de prata sozinha não era o suficiente para m***r vampiros mais antigos, mas quando misturada com sangue de mortos, a toxina impregnava na corrente sanguínea deles, enfraquecendo e queimando por dentro.
— Você está pronta para isso? — Kieran finalmente quebrou o silêncio.
Eu olhei para ele, o rosto sério.
— Claro que sim.
— Dália. — Kieran apertou as rédeas. — Você sabe que esses vampiros são diferentes. Eles estão ficando mais rápidos, mais inteligentes. Não são como os novatos que enfrentamos antes.
Eu segurei o cabo do revólver com mais força.
— Eu aguento.
Kieran me lançou um olhar sombrio, mas não insistiu. Ele sabia que, se insistisse, eu só ficaria mais teimosa.
Ele puxou o cavalo para o lado da estrada assim que avistamos as primeiras casas da vila. Tudo parecia… quieto demais.
Descemos da carroça e eu puxei meu revólver, girando o tambor para verificar as balas. Kieran desembainhou a espada de prata presa em suas costas.
— Vamos. — Ele sinalizou com a cabeça em direção à vila.
As ruas estavam vazias. Nenhum som de crianças correndo, nenhuma voz saindo das casas.
Eu senti o cheiro de sangue antes de ver o corpo.
Kieran e eu seguimos o rastro até o centro da vila. Um homem estava caído no chão, a garganta aberta. O cheiro ferroso de sangue preenchia o ar.
— d***a. — Kieran murmurou.
Foi quando ouvimos o grito.
Eu corri antes mesmo de pensar, Kieran logo atrás de mim.
Viramos uma esquina e vimos uma mulher e uma criança encolhidas contra a parede de uma casa, enquanto um vampiro alto, de cabelos claros e olhos negros, avançava em direção a elas. Seus dentes estavam manchados de sangue fresco.
Eu ergui o revólver.
— Ei!
O vampiro virou a cabeça em minha direção, os olhos brilhando.
— Tsc. Outra caçadora. — Ele lambeu os dentes.
Eu apertei o gatilho.
A bala de prata atingiu o ombro dele, fazendo-o recuar com um rugido.
— Leve elas para longe daqui! — Gritei para Kieran.
Ele hesitou por um segundo, depois correu para a mulher e a criança, puxando-as pelo braço para levá-las para um local seguro.
O vampiro se virou para mim, os olhos brilhando com ódio.
— Isso foi um erro, garotinha.
Ele avançou com velocidade sobre-humana, e eu consegui desviar por pouco, rolando para o lado e atirando novamente. A bala atingiu a perna dele, fazendo-o cair de joelhos.
Eu sorri.
— Quem está errando agora?
O vampiro se ergueu em um movimento rápido e brutal, seus olhos brilhando de raiva. Ele atacou com velocidade, e eu m*l consegui erguer o revólver a tempo para bloquear o golpe. Fui lançada para trás, batendo de costas contra o chão de pedra.
Eu me ergui com dificuldade, o corpo protestando, mas já estava puxando o gatilho novamente.
Bang.
A bala atingiu o peito dele, mas ele continuou em pé.
Merda.
Ele avançou novamente, e desta vez eu não fui rápida o suficiente. Ele me segurou pelo pescoço e me ergueu do chão, seus olhos brilhando com fome.
— Você luta bem para uma caçadora. — Ele rosnou. — Mas não bem o suficiente.
Eu bati o joelho contra o estômago dele, mas foi como atingir pedra. Ele riu e me jogou contra a parede com força suficiente para tirar o ar dos meus pulmões.
Eu deslizei para o chão, ofegante. Minha mão procurou o revólver, mas ele estava longe demais.
O vampiro se aproximou, erguendo as garras.
Eu vi o golpe chegando, mas meu corpo não reagiu a tempo.
As garras cortaram minha barriga, um corte profundo que fez o sangue escorrer imediatamente.
Eu gritei.
A dor foi cortante e afiada, e o sangue quente encharcou minhas roupas.
Mas, mesmo assim, eu me levantei.
Eu puxei a faca de prata presa na minha bota e avancei antes que ele pudesse reagir, cravando a lâmina em seu coração.
Os olhos do vampiro se arregalaram.
— Maldita… — Ele sussurrou, antes de seu corpo começar a desintegrar em cinzas.
Eu caí de joelhos, pressionando a mão contra o ferimento na barriga.
— Dália!
Kieran apareceu ao meu lado, seus olhos arregalados ao ver o sangue escorrendo entre meus dedos.
— Kieran… — Minha visão estava ficando embaçada.
Ele me segurou pelos ombros, puxando-me para cima com força.
— Fica comigo. — Ele olhou para o ferimento, o rosto contorcido de desespero. — m***a, Dália.
Eu senti ele me erguer nos braços.
— Vamos pra casa. Agora.
Minha cabeça caiu contra o peito dele enquanto eu sentia a escuridão se aproximar.
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Quando eu abri os olhos, o teto do meu quarto foi a primeira coisa que vi.
Minha boca tinha gosto de ferro e meus membros estavam pesados.
Eu tentei me mexer, mas uma dor aguda na barriga me fez grunhir.
Eu levantei o cobertor e vi que meu ferimento estava enfaixado com ataduras limpas.
— Finalmente acordou.
Eu olhei para o lado e vi meu pai, encostado contra a parede com os braços cruzados e o rosto sombrio.
— O que aconteceu? — Minha voz saiu rouca.
— O que aconteceu? — Meu pai se aproximou, os olhos frios. — O que aconteceu foi que você quase morreu porque foi arrogante o suficiente para achar que podia enfrentar um vampiro daquela classe sozinha.
Eu me sentei com dificuldade, rangendo os dentes contra a dor.
— Eu consegui matá-lo.
— E quase morreu no processo. — Meu pai se abaixou até ficar na minha altura, os olhos duros encontrando os meus. — Você confiou demais em suas habilidades. Achou que podia lutar de igual para igual com um vampiro de nível superior apenas porque você é rápida e forte.
Eu abri a boca para responder, mas me calei.
Porque ele estava certo.
Eu achei que podia vencer apenas com minha força e velocidade. Que minha habilidade especial seria suficiente.
Mas não foi.
Eu quase morri por causa disso.
— Dália. — A voz dele ficou mais suave, mas ainda séria. — Você é boa. Muito boa. Mas não é invencível. Sua força não é infinita. E se você continuar acreditando que é… vai acabar morrendo de verdade da próxima vez.
Eu cerrei os punhos, olhando para o chão.
— Eu sei.
Meu pai ficou em silêncio por um momento.
— Descanse. — Ele se levantou. — Kieran está lá embaixo, preocupado com você.
Eu assenti, sem conseguir olhá-lo nos olhos.
Quando ele saiu do quarto, eu deixei meu corpo cair de volta contra o travesseiro, sentindo a dor pulsar sob minhas costelas.
Eu sabia que ele estava certo.
Mas o pior de tudo…
Eu sabia que não conseguiria mudar o que sou.
Eu sempre vou lutar — não importa o que isso me custe.