Capítulo 9

1083 Words
Dália Capítulo 9 – Velho Demais para Você A cidade estava mais movimentada do que o normal. Os cascos dos cavalos ecoavam nas ruas de pedra, e o barulho dos mercadores anunciando seus produtos preenchia o ar. Eu andava ao lado de Kieran, que mantinha o semblante sério enquanto observava o movimento ao nosso redor. "Onde exatamente fica essa farmácia?" perguntei, olhando para os lados enquanto passávamos por algumas barracas de frutas e vegetais. "Logo depois da ferraria", Kieran respondeu, os olhos atentos a qualquer movimento suspeito. "Relaxa", brinquei, cutucando seu braço. "Nós estamos só comprando remédios, não caçando vampiros." "Você acha que eles não estão caçando a gente?" ele retrucou, lançando-me um olhar de advertência. Revirei os olhos. "Você e o papai têm que parar de ver perigo em cada esquina." Kieran não respondeu, apenas continuou andando com passos firmes. Nós nos aproximamos da farmácia, e eu fui em direção à prateleira onde sabia que estavam os frascos de remédio para dor. "Eu vou ver uma coisa", Kieran disse de repente. Eu me virei. "O quê? Aonde você vai?" "Eu já volto." Ele já estava saindo pela porta antes que eu pudesse protestar. "Ótimo", murmurei, sentindo a irritação crescer. Ele me deixou sozinha. De novo. Peguei os frascos que precisava e os entreguei ao farmacêutico, que os colocou em uma sacola de pano. Depois de pagar, decidi que não ia ficar ali parada esperando o Kieran voltar. Se ele estava ocupado demais para me ajudar com os remédios, eu poderia muito bem cuidar de mim mesma. Meus olhos foram atraídos por uma loja de roupas na esquina. Os vestidos expostos na vitrine eram de um tecido delicado, com bordados e rendas que eu raramente via em roupas comuns. Entrei na loja, o sino da porta tocando suavemente. O cheiro de veludo e tecido novo pairava no ar. As paredes estavam forradas com vestidos em tons de azul, vermelho e verde, e havia um balcão no fundo com alguns acessórios de prata e ouro. Havia apenas três clientes ali dentro — todas mulheres. Lindas, impecáveis… e todas vampiras. Pude perceber isso pelo modo como se moviam, pela pele pálida demais, pelo olhar penetrante que lançaram em minha direção assim que me viram entrar. Eu engoli em seco, lembrando-me das palavras do meu pai. A maioria das pessoas nesta cidade eram vampiros. E mesmo que não fossem, só quem se sentia seguro o bastante para circular por aí eram vampiros. Fingi estar distraída, passando os dedos por um vestido azul-marinho pendurado na prateleira. Foi então que senti um toque em meu ombro. Meu corpo enrijeceu na hora. Eu me virei, o coração disparando. "Lucien…" Ele estava ali, a poucos centímetros de distância. Os cabelos pretos ondulados emolduravam seu rosto pálido e perfeitamente esculpido, e os olhos azuis brilhavam sob a iluminação suave da loja. Eu dei um passo para trás instintivamente. Lucien arqueou uma sobrancelha, o sorriso dele ganhando um toque divertido. "Esse é o tipo de recepção que eu recebo de alguém que salvei?" Eu o encarei. "Eu estou agradecida, de verdade. Mas…" "Mas o quê?" "Você é perigoso", respondi, mantendo o tom firme. "Igual ao Viktor." Lucien riu, o som baixo e suave. "Ah, então foi isso que seu pai te disse?" "Ele está errado?" Lucien deu um passo à frente, sem pressa. "Talvez." "Eu não quero arrumar problemas para minha família." Lucien inclinou a cabeça, os olhos brilhando de forma misteriosa. "Se você quer que eu fique longe, tudo bem." Eu franzi o cenho, desconfiada. "Simples assim?" "Simples assim", ele respondeu. "Mas eu não sou uma ameaça para você, Dália." "Por quê?" Lucien sorriu, os olhos se estreitando ligeiramente. "Porque você me interessa." Eu congelei. "Me interessa?" "Eu queria te conhecer melhor." Eu ri, cruzando os braços. "Sério? Um vampiro de quase um século interessado em uma garota humana?" Lucien sorriu ainda mais. "Eu não sou tão velho assim." "Você tem quase cem anos." "Noventa e dois", ele corrigiu. "Então você é um velho", brinquei. Lucien deu de ombros. "Eu envelheço bem." "Eu não deveria sair com alguém que poderia ser meu bisavô." Lucien riu. "Eu poderia ser seu tataravô, na verdade." Eu o encarei com um sorriso de canto. "Você acabou de admitir que é velho demais para mim." Lucien inclinou-se levemente para mim, o rosto a poucos centímetros do meu. "Idade é só um número, Dália." "É o que os velhos dizem", retruquei. Lucien riu novamente, o som ecoando suavemente pela loja. Ele olhou para o vestido que eu estava segurando. "Você gostou desse?" Eu olhei para o vestido azul-marinho em minhas mãos. "É bonito, mas não vou comprar." Lucien se virou para a vendedora atrás do balcão. "Quanto é esse vestido?" Eu arregalei os olhos. "O quê?" A vendedora olhou para ele, quase nervosa. "Cinquenta peças de prata, senhor." Lucien puxou algumas moedas do bolso interno do casaco e as colocou sobre o balcão. "Não, não!" Eu corri até ele, segurando o braço dele. "Eu não posso aceitar isso." Lucien olhou para mim com um sorriso travesso. "Se você não aceitar, estará sendo ingrata. Eu te ajudei antes, lembra?" "Você salvou minha mãe. Não quer dizer que eu deva te dever algo." "Eu discordo", ele disse, estendendo o vestido para mim. "Aceite. Considere um presente." Eu mordi o lábio. "Lucien, eu não—" "Se você realmente não quiser, pode devolver para mim em outro momento." Eu olhei para o vestido, depois para ele. "Você realmente não vai desistir, vai?" "Não." Eu bufei. "Você é impossível." Lucien sorriu, os olhos brilhando. "Eu sei." Peguei o vestido das mãos dele, sentindo o tecido macio entre os dedos. "Isso não significa que eu confie em você." Lucien inclinou a cabeça. "Eu sei." "Ou que eu vá sair com você." "Eu também sei disso." Eu o encarei por um momento, depois abaixei o vestido e cruzei os braços. "Você realmente é muito velho." Lucien sorriu. "Você realmente gosta de me lembrar disso, não é?" "Alguém tem que te manter humilde." Ele deu um passo para trás, os olhos ainda fixos em mim. "Eu acho que você é a única capaz de fazer isso." Eu o observei por um momento. "Isso deveria me preocupar?" Lucien sorriu, os olhos azuis brilhando como gelo sob o sol. "Provavelmente." Ele se afastou em direção à porta da loja, lançando-me um último olhar antes de sair para a rua. Eu fiquei parada ali, segurando o vestido, sem conseguir decidir se sentia nervosismo ou curiosidade. Talvez ambos.
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