Cinco anos antes…
Passei o resto da noite e a madrugada toda chorando, se eu já tinha enormes olheiras nos olhos, agora estavam ainda piores. Duas mulheres me trouxeram coisas para comer e beber, tentaram me consolar, mas eu só queria ficar sozinha.
No fim, depois de tanto chorar, eu acabei dormindo e acordei com alguém me chamando.
— Acorda, garota! — Alguém me empurrava com força, ao abrir os olhos me deparo com uma ruiva me encarando.
— Deixa a garota em paz, Dalila — Outra mulher diz e então puxa a ruiva. Me sento na cama e observo três mulheres me olhando, a ruiva que me acordou, a morena alta que me “defendeu” e uma morena mais baixa. — Qual seu nome, garota?
— Jade — respondi baixo.
— Eu sou a Ivy — Ela diz sorrindo e estende a mão para que eu pegue — Sou a mais velha daqui e responsável por ajudar as novatas! Essa é Dalila, a responsável por nossas roupas — A ruiva apenas dá um pequeno sorriso irônico — E essa é Luna, novata como você! E agora é a hora de vocês irem ao médico.
— Eu não quero ir para lugar nenhum — falei friamente.
Ivy respirou fundo.
— Eu sei que não quer, eu estava lá quando você chegou. Entendo que está assustada, com raiva, com medo, triste e outras milhares de coisas. Mas, se você não for comigo, terá que ir com o Caspian e pode ter certeza que você não vai querer ir com ele!
Seu olhar era sério. Respiro fundo e me levanto da cama. Vejo seu sorriso satisfeito.
— Vou deixar vocês duas se trocarem e tomarem café, daqui a quinze minutos eu volto!
Assenti e ela e Dalila saem do quarto. Me deixando somente com Luna.
— Você chegou ontem de noite? — perguntou Luna.
— Sim, e você?
— Ontem também, à tarde!
— Como veio parar aqui? — Pergunto curiosa, será que também foi vendida?
— Vim por conta própria, acabei perdendo minha família, me vi no fundo do poço, essa acabou sendo a única alternativa de conseguir dinheiro rápido! — ela diz e tento conter minha surpresa. — E você?
— Meu pai me vendeu para o dono desse lugar!
Automaticamente percebo o clima ficar tenso e desconfortável.
— Eu sinto muito!
— É… eu também!
Me viro de costas para ela enquanto me trocava, assumo que sempre fiquei bem desconfortável com mostrar meu corpo, eu evitava muito ir a lugares que eu precisava usar poucas roupas, como biquíni. Todos sempre disseram que tenho um corpo bonito, isso sempre chamou atenção dos garotos, mas eu sempre me senti m@l por isso. Pois a maioria das vezes que eu tentava usar uma roupa justa ou curta, eu me sentia vulgar, por ter bund@ e sei0s avantajados. Por outro lado eu gosto muito do meu corpo, às vezes me pegava olhando ele no espelho e percebia que ele sempre pareceu ter sido muito bem esculpido.
Tenho quadris levemente largos, coxas moderadamente grossas, como citei, uma bund@ avantajada, e sei0s levemente avantajados. Acredito que eu tenha puxado esses traços corporais da minha família materna, já que todos são latinos e essas características são bem marcantes.
— Você também tem vergonha, não é? — pergunta Luna após eu me virar vestida e eu concordo — Eu também! E olha que eu não tenho nem um terço desse seu corpo! Você é muito bonita!
Dou um leve sorriso, agradecida. Apesar de não ter entendido muito bem isso que ela disse. Já que ela também tem um lindo corpo, Luna é baixa, provavelmente cerca de um metro e cinquenta e cinco centímetros. Ela tem coxas grossas, uma bund@ grande, sua cintura é fina e seus sei0s são pequenos. Seu cabelo cacheado é bem cumprido e deixa ela ainda mais bonita. Sua pele é parda e ela tem sardas pelo rosto.
— Acredito que você tenha uma certa distorção de imagem — brinco e ela sorri — Você também é muito bonita e tem um corpo incrível!
— Obrigada!
Me sento com ela na mesa que tinha no quarto e observo as coisas que tinham ali, ovos, torradas, geleias, panquecas e frutas variadas. Assumo que não esperava tudo isso e principalmente essas coisas estarem tão gostosas. Por um momento até esqueci onde eu estava e me entreguei aos sabores que estava sentindo.
Assim que terminamos de comer, Ivy entra no quarto e saímos com ela. Ao sair do quarto observo melhor onde estávamos, seguimos por um grande corredor, com muitas portas, algumas estavam abertas e percebi que os quartos eram iguais, duas beliches, um frigobar, uma mesa e quatro cadeiras. Aparentemente tinham várias mulheres morando aqui, será que alguém também sofreu o que eu sofri?
Saímos do corredor e me deparo com a boate, porém dessa vez vazia. Vejo algumas mulheres no palco, aparentemente ensaiando danças. Outras estavam limpando as mesas e o chão.
— Agora que estou vendo as novatas, são tão lindas! Sejam bem-vindas, garotas!
Uma mulher alta, muito bonita, diz sorrindo. Ela tem um cabelo cacheado bem cheio e cumprido, sua pele é negr@ e seu corpo é extremamente bonito e definido. Será que aqui tem algum tipo de academia?
Eu e Luna agradecemos com sorrisos sem graça.
— Vai levar elas ao médico? — Uma loira pergunta, expressando curiosidade.
— Sim, e depois vamos fazer umas compras — Ivy diz sorrindo e vejo elas resmungando.
— Eu também estou precisando de roupas, por que Caspian não me manda comprar roupas? — A loira diz e todas riem.
Por que todas parecem estar super familiarizadas com o que fazem aqui?
Nos despedimos delas e chegamos no fundo da boate. Onde tinha um carro e dois homens nos esperando.
Talvez essa seja a minha oportunidade de fugir desse lugar.
— Se eu fosse você, nem tentaria! — Ivy diz em meu ouvido — Sei o que está pensando e te aconselho a apenas aceitar sua nova vida!
Apenas entro no carro, sem respondê-la.
Seguimos o caminho para o tal médico.
— O que vamos fazer no médico? — Luna pergunta.
— Descobrir se vocês tem alguma doença sexualmente transmissível e se são virgens!
— Isso é sério? — pergunto receosa.
— Sim!
— Isso significa que seremos obrigadas a trans@r? — pergunto nervosa. Eu nunca imaginei que poderia perder a minha virgindade com qualquer um. Principalmente em uma boate.
— Depende — Ivy diz — Todos os homens sempre vão querer trans@r, mas o Caspian que decide com quem vocês vão, caso vocês sejam virgens. Pois, ele consegue bons valores, ou ele pode já ter clientes específicos em mente, que queiram tirar a virgindade de vocês.
— E existe a possibilidade de a gente não fazer isso? — pergunto ainda mais apreensiva.
E se um velho for um desses clientes? Perder a virgindade em uma boate já não era uma boa ideia, e perder com um velho é ainda pior.
— Isso só depende do Caspian. Não de vocês! — Seu tom de voz é triste.
Solto o ar que estava preso em meus pulmões e encosto minha cabeça no banco. Onde eu vim parar?
Em pouco tempo chegamos no médico, era uma clínica ginecológica. Ao entrar, seguimos diretamente para a sala e já fomos atendidas. Primeiramente Luna e depois eu, fizemos exames e marcamos o dia para aplicar um implante anticoncepcional, o Implanon. Para que corte nosso fluxo menstrual.
Depois do médico, fomos para umas lojas de roupas, o que me deixou ainda mais desconfortável. Praticamente as roupas me deixavam nuas, sem constar os saltos extremamente altos, que quase eu não conseguia ficar em pé. Após selecionar quase a dedo as roupas que eu me sentia mais “confortável”, Ivy foi até o caixa pagar, aproveitei para dar mais uma volta na loja e de longe vi uma porta de saída de emergência. Vou disfarçadamente até a porta, e ao abrir me deparo com uma rua estreita no fundo da loja.
Começo a correr, em busca do final da rua, ao olhar para trás, vejo um dos homens vindo atrás de mim. Tento correr o mais rápido que eu posso, sentindo a adrenalina passando por minhas veias e um sorriso escapa em meus lábios, eu estava próxima de fugir desse pesadelo.
Mas rapidamente meu sonho de fugir se escorre pelo ralo. Após eu me bater com um homem e cair no chão, o que faz um dos seguranças me alcançar. Ao levantar meu olhar, vejo Caspian, o homem que eu acabei me batendo. Seus olhos estavam cheios de raiva.
— Que caralh0, garota! Você realmente acha que vai escapar de mim? — Seu tom é maléfico e estressado, ele segura meu braço forte — Essa merd@ dessa cidade toda me conhece, eu que controlo essa porr@ toda! Aonde você for, vai ter gente que trabalha pra mim!
Suas mãos eram firmes, e com toda certeza ficara roxo depois. Tento conter minhas lágrimas, mas acabo falhando miseravelmente.
— Se eu fosse você não me estressava, se não eu dou essa merd@ dessa tua virgindade para o primeiro mendigo que passar por mim!