eu odeio você sabia

1179 Words
Meu pai apontou para a escada com aquele olhar que não aceitava discussão. — *Vão. Conversem. Se acertem.* Vinni soltou um riso baixo, sarcástico, mas obedeceu. Eu fui atrás, cada passo meu ecoando como uma sentença de morte. O corredor até meu quarto nunca pareceu tão longo. Ele entrou primeiro, deixando a porta aberta atrás de si, como se não quisesse nem a sugestão de privacidade entre nós. Eu fechei com um chute. — *Que tal começarmos com um pacto?* — ele sugeriu, virando para mim com as mãos nos bolsos do blazer. *Você some da minha vida, e eu sumo da sua.* — *Ótimo. Morre hoje à noite e resolvemos isso.* — encostei na cômoda, fingindo relaxar. Os olhos dele escureceram. — *Sempre dramática. Mas não é você que tem a faca na mão dessa vez, Isabella.* — ele deu um passo à frente. *Seu pai precisa dessa aliança. O meu também. Mas nenhum dos dois precisa da gente se matando antes do grande dia.* — *Que pena,* — murmurei. *Tava tão animada.* Ele ignorou a provocação. — *Podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil.* — *Defina “fácil”.* — *Você finge que me tolera. Eu finjo que não te acho uma criança mimada. Nos casamos, cumprimos nosso papel, e cada um vai pro seu canto.* Meus dedos se apertaram em volta da borda da cômoda até os nós dos dedos doerem. — *Tá com medo, Orsini?* — desafiei. *Acha que não vai conseguir me aturar?* Ele sorriu, lento, perigoso. — *Eu aturo qualquer coisa. Mas duvido que você aguente.* Ele deu mais um passo. Eu não recuei. A distância entre a gente era de menos de um palmo agora, e o ar parecia carregado, como se a qualquer segundo um de nós fosse puxar uma arma. — *Você sempre foi péssima em obedecer,* — ele murmurou, o olhar escorrendo pelo meu rosto como um insulto. *Vai ser divertido quebrar isso em você.* — *Experimenta,* — desafiei, levantando o queixo. E então ele fez o movimento mais inesperado possível. Esticou a mão e pegou um fio do meu cabelo, deixando escorrer entre os dedos como se estivesse avaliando a qualidade de um tecido. — *Parece macio,* — comentou, casual. *Pena que o que tem dentro é tão podre.* Foi o suficiente. Meu joelho voou em direção à virilha dele. Ele desviou por um triz, agarrou meu braço e me girou, pressionando minhas costas contra ele. — *Sempre a mesma coisa,* — ele rosnou no meu ouvido, o hálito quente. *Previsível.* Tentei jogar o cotovelo pra trás, mas ele segurou mais forte. — *Solta.* — *Pede direito.* — *Vai se foder.* Ele riu, e o som vibrou contra minhas costas. Foi aí que senti. O canivete. No bolso dele. Sem pensar, enfiei a mão e agarrei. Ele reagiu na hora, tentando bloquear, mas eu já tinha a lâmina aberta e pressionada contra o pulso dele. — *Vamos ver quem é previsível agora,* — respirei. Ele parou. Olhou pra lâmina. Depois pra mim. E então, devagar, soltou meu braço. — *Você não vai me cortar.* — *Tenta eu.* Ele sorriu, como se eu tivesse acabado de provar o ponto dele. — *É por isso que seu pai escolheu você pra isso,* — ele disse, baixinho. *Não é só sobre aliança. É sobre fogo.* Eu cuspi no chão entre os pés dele. — *f**a-se o que meu pai pensa. E f**a-se você.* Ele olhou pra saliva no chão, depois pra mim. — *Caseira.* E então, sem aviso, ele virou e saiu, deixando a porta aberta. Eu fiquei lá, segurando o canivete, o pulso latejando onde ele tinha segurado. O cheiro dele ainda estava no ar. Madeira queimada e ódio. E o pior? Eu *odiava* que uma parte de mim tinha gostado da luta. A casa ficou em silêncio depois que os Orsinis foram embora. Eu ouvi os carros partirem, os motores roncando como bestas satisfeitas, levando embora aquele infeliz e sua família de sanguessugas. Ainda bem. Mas agora, sozinha no meu quarto, o vazio era pior que o ódio. Água escaldante. Quase queimando. Eu deixei cair sobre minha pele como se pudesse lavar fora o cheiro dele, a memória das mãos dele me segurando, a voz no meu ouvido. *"Pede direito."* *Filho da puta.* Esfreguei o sabonete com força nos pulsos, onde seus dedos tinham deixado marcas rosadas. Não doía, mas eu *queria* que doesse. Queria algum sinal visível de que aquilo tinha sido uma guerra, não só mais um round da nossa rivalidade eterna. Saí do banho com a pele vermelha, envolta em vapor. O espelho embaçado não refletia meu rosto direito, e eu agradeci por isso. Não queria ver a expressão que estava lá. Vesti meu pijama preto de seda – aquele que minha irmã dizia que me fazia parecer uma viúva em luto. *Adequado.* Foi então que um som suave quebrou o silêncio. *Miau.* Ele estava encaracolado no pé da minha cama, seus olhos amarelos brilhando como duas moedas de ouro no escuro. — *Oi, seu demônio,* — murmurei, sentando na cama e estendendo a mão. Lúcifer (sim, eu dei esse nome, e sim, ele merece) esfregou a cabeça na minha palma, ronronando como um motorzinho. — *Hoje foi uma merda,* — confessei, arranhando atrás da orelha dele. *O pior dia da minha vida. E olha que já teve dias bem ruins.* Ele olhou pra mim como se entendesse cada palavra. — *Eu não vou fazer isso,* — continuei, falando mais para mim mesma do que para ele. *Não vou me casar com aquele i****a. Não vou virar propriedade da família Orsini. Eu prefiro morrer.* Lúcifer mordiscou meu dedo, suave, um aviso. — *Tá bom, não vou morrer,* — corrigi, rolando os olhos. *Mas você me entende, né?* Ele deitou no meu colo, expondo a barriga como um traidor fofo. Eu afundei os dedos naquela pelagem preta e macia, sentindo os ronronos aumentarem. — *Você é o único homem que não me enche o saco,* — resmunguei. ### **O Plano (Ou Falta Dele)** Enquanto acariciava Lúcifer, minha mente girava. Fugir? Impossível. Meu pai tinha olhos em todo lugar. Matar Vinni? *Tentador*, mas ia causar uma guerra entre as famílias. Fazer ele desistir? *Hah.* Como se aquele cabeça-dura fosse recuar. — *Tô ferrada, Lúcifer,* — suspirei. Ele ronronou mais alto, como se discordasse. — *Você tem uma ideia melhor?* Ele só bocejou, esticando as patinhas. *Útil.* Deitei na cama, com Lúcifer enrolado no meu peito, e olhei para o teto. O ódio por Vinni ainda queimava, mas agora, no silêncio da noite, outros sentimentos começavam a aparecer. *Medo.* *Frustração.* E, o pior de todos... *Curiosidade.* Por que nossos pais estavam tão determinados nisso? O que eles realmente ganhavam com esse casamento? E por que, no fundo, parte de mim ainda se lembrava do garoto que, antes de virar meu inimigo, tinha me ajudado a subir numa árvore quando eu tinha cinco anos? — *Merda,* — murmurei, cobrindo o rosto com as mãos. Lúcifer ronronou, como se dissesse: *"Você tá fodida."* E ele estava certo.
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