Episódio 6

1403 Words
Ao me acomodar no banco de trás da caminhonete, o suave murmúrio do motor m*l conseguiu quebrar o pesado silêncio entre meu pai e eu. Ele olhava pela janela, aparentemente perdido em pensamentos, e eu fiz o mesmo, tentando encontrar consolo na paisagem que acompanhava a nossa viagem até o cemitério, com as lágrimas escorrendo incontrolavelmente. Cada lágrima carregava consigo lembranças da minha mãe: o seu riso, seu abraço, o aroma do seu perfume. A perda pesava sobre os meus ombros, e a ideia de visitá-la onde ela agora descansava era quase insuportável. Inclinei levemente a cabeça, permitindo que minha bochecha tocasse o vidro frio da janela. Finalmente, o veículo parou. Assim que o motorista desligou o motor, respirei fundo, preparando-me para o inevitável encontro com a realidade que me aguardava logo além daquelas portas blindadas. A porta se abriu e o ar fresco de fora inundou o interior da caminhonete. Um dos guardas abriu a porta, sinalizando que eu podia sair. Reuni coragem suficiente para colocar um pé atrás do outro no chão. Observei o meu pai avançar silenciosamente e segui os seus passos apressadamente. O caminho era ladeado por árvores altas que pareciam se inclinar protetoramente sobre mim. Chegamos à lápide da minha mãe e, assim que os meus olhos pousaram em seu nome gravado no mármore frio, todo o controle que eu tentava manter desapareceu. Caí de joelhos diante dela, com lágrimas escorrendo incontrolavelmente. — Vou deixar você em paz. Vou esperar na caminhonete. Disse o meu pai. Ouvi os seus passos se dissiparem. O silêncio era absoluto, exceto pelo leve sussurro do vento passando pelos galhos, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração respeitosamente. Coloquei a minha mão no mármore gelado, querendo sentir ao menos um vislumbre do calor que costumava emanar dela. Fechei os olhos, deixando as memórias voltarem. — Por que, mãe, por que você me deixou? Mãe! Mamãe! Exclamei, incapaz de conter as minhas lágrimas amargas. As palavras escaparam dos meus lábios entre soluços, cada um carregado de dor. O vento, suave mas frio, acariciava o meu rosto como uma tentativa de conforto. Diante da lápide, cada lágrima que caía no mármore era um testemunho do inacabado, dos momentos que jamais retornarão. O tempo pareceu parar enquanto eu permanecia de joelhos diante da lápide da minha mãe. Cada minuto que passava parecia uma eternidade, e o peso da sua ausência se tornou um fardo quase insuportável de carregar. Não quero ir embora. O simples ato de me levantar e ir embora parecia uma traição à sua memória, um passo para um mundo onde ela não está mais fisicamente presente. Na quietude do cemitério, me peguei desejando poder voltar no tempo. A ideia de encarar um futuro sem a sua presença tangível me enche de um medo profundo. Eu teria preferido morrer com ela do que viver com sua ausência. De repente, um leve movimento na minha visão periférica me fez virar o rosto para o lado. Ao longe, quase imperceptível, vislumbrei a figura de um homem. A sua silhueta estava imóvel, me observando, ou assim parecia. A distância dificultava discernir as suas feições, mas a sua presença, embora misteriosa, não me inspirava medo, mas sim uma curiosidade inexplicável. Virei o rosto novamente para a lápide da minha mãe por uma fração de segundo, depois rapidamente voltei o olhar para o local onde vira a figura. Para minha surpresa, o homem havia desaparecido. Permaneci em silêncio, me perguntando se ele havia sido real ou fruto da minha mente exausta pela dor. Provavelmente era só isso. Magnus — Em nome do Pai do filho... Murmurei, enquanto os meus demônios se contorciam ao sentir a água benta ainda úmida em minha testa. Lucian estava ao meu lado, seu olhar percorrendo a multidão, sempre alerta. Mamãe apertou o meu braço, com um leve sorriso no rosto. — Que Deus os proteja, meus filhos. Disse ela com aquela voz maternal, embora eu soubesse, no fundo, que ela temia por nossas almas já condenadas. Ela sabia nosso destino final e onde acabaríamos. Havia um lugar especial reservado para pessoas como nós. Os meninos abriram caminho pela multidão, com os rostos sérios, as mãos perto das armas. A vida que escolhemos... às vezes eu me perguntava se havia redenção para nós. Duvido muito. O calor do sol batia em meu rosto quando saímos da catedral. Mamãe se agarrou ao meu braço esquerdo, firme, mas sempre trêmula, e com a mão direita fixou meus óculos escuros na minha cabeça. Olhares nos seguiram, alguns curiosos, outros cheios de medo, outros já acostumados com a nossa presença. Os meninos formaram um círculo ao nosso redor, uma barreira entre nós e o mundo. Mamãe curvou a cabeça para o padre, seu rosto demonstrando uma humildade que poucos conheciam. — Bênçãos, Sra. Corleone. Disse o Padre Antonio. — Celebração maravilhosa como sempre, Padre Antonio. Cumprimentou a minha mãe, beijando a sua mão respeitosamente. O olhar do Padre Antonio se voltou para mim, perscrutador. — Bênçãos, filho. Assenti silenciosamente. — Sua generosa doação fez maravilhas para o orfanato. Continuou o padre com um sorriso genuíno. —Conseguimos expandir a ala e acolher mais crianças. Mamãe respondeu modestamente: É um pequeno gesto, Padre Antonio. Essas crianças merecem uma chance. É engraçado, não é? Como buscamos nos redimir por meio de atos de bondade, como se isso pudesse apagar os nossos pecados. — Diga à Madre Superiora que irei amanhã. Declarou a minha mãe com uma voz gentil. — Tenho muitas doações para as crianças. Ela acrescentou. O Padre Antonio assentiu, o seu sorriso refletindo gratidão. Embora sua alma estivesse tão contaminada quanto a nossa, eles sabiam de onde vinha o dinheiro doado e não o recusaram. — Eu direi a ela, senhora Corleone. ‍‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌‌Despedimo-nos e caminhamos em direção aos caminhões blindados que nos aguardavam. Mamãe suspirou, voltando-se para a catedral. — Essas crianças significam tudo para mim. Disse ela com uma ponta de tristeza. — Pelo menos elas me dão a alegria que os meus netos não dão... ah, agora me lembro, eu não tenho netos. Ela revirou os olhos, exasperada. — Espero que pelo menos o meu filho mais velho se digne a se casar e me dar netos. Ela continuou, com o tom agora mais insistente. — Quero os meus herdeiros. Lucian e eu trocamos um olhar, e um pequeno sorriso cruzou os nossos lábios. O assunto de herdeiros sempre foi delicado. A pressão da mamãe, as expectativas, o peso do legado... às vezes era sufocante, mas ela tinha razão. Afinal, deveríamos ter um herdeiro a quem pudéssemos deixar toda a nossa riqueza. Beijei a mão da mamãe, tentando acalmar sua impaciência. — Tudo a seu tempo, mãe. Disse gentilmente. — Tempo? Ela respondeu, exagerando como sempre. — Estou prestes a morrer. O meu olhar se voltou para Robert, que sussurrou algo no ouvido do meu irmão. Lucian então se aproximou de mim. — Chapeuzinho Vermelho saiu da casa da vovó. Ele sussurrou. Entendi instantaneamente a quem ele se referia. Um sorriso malicioso se espalhou pelos meus lábios. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer. — Mãe... Abri a porta da caminhonete para a mamãe, certificando-me de que ela se sentisse confortável para entrar. Nos despedimos com beijos no rosto, um gesto de carinho em meio à tensão. Ela nos deu sua bênção, um ato de fé e proteção, como se Deus tivesse pena de nós, criminosos, assassinos. Fechei a porta atrás dela, mas não sem antes me prometer que iria almoçar em sua mansão esta semana. A caminhonete que levava a minha mãe desapareceu pela avenida, seguida por outra que a protegia. Minha mãe, ela era a mulher mais importante em nossas vidas. Ela era a nossa rainha. Se você a tocasse, a arranhasse, eu te despedaçaria e te jogaria aos crocodilos, assim como fiz com o meu pai. — Para onde ela foi? Perguntei, olhando para o meu irmão. — Para o cemitério. Dei um meio sorriso e entrei no banco de trás da caminhonete. — Que lugar triste para ir. Eu disse, sorrindo enquanto me recostava e os veículos se moviam para me levar ao meu destino.
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