No início, proteger Missy parecia simples. Bastava concentrar sua magia, tocar o selo com dois dedos e deixar que a luz invisível se espalhasse pelo pescoço da menina como uma névoa fina, obediente, perfeita. A marca do dragão vermelho desaparecia sob a pele delicada, escondida de todos, até mesmo de olhos treinados para reconhecer sinais proibidos. Durante anos, aquilo foi suficiente.
Nos primeiros tempos, o selo permanecia firme por muitos dias. Kim o renovava apenas como precaução, mais por hábito do que por necessidade. A magia se ajustava ao ritmo da criança, acompanhando seu crescimento como uma sombra protetora. Missy corria pela casa, dormia com os cabelos pretos espalhados sobre o travesseiro, sorria com facilidade e fazia perguntas demais, como toda criança curiosa faria. E Kim, embora nunca confessasse, se acostumou à presença dela de uma forma que jamais imaginara possível.
A casa, antes silenciosa, ganhou movimento.
As manhãs passaram a ter cheiro de mingau, ervas maceradas e tecido recém-lavado. As tardes eram preenchidas por passos leves, pequenos acidentes e o som do riso de Missy sendo ouvido pelos corredores. Ela gostava de tocar tudo. As mesas, as cortinas, os mantos pendurados, as fitas, os lenços. E, sem perceber, sempre que algo se rompia em suas mãos, parecia conseguir devolver a forma original ao objeto com uma facilidade inexplicável.
Kim observava isso em silêncio.
Não dizia nada de imediato, mas guardava cada detalhe em sua memória com o mesmo cuidado com que mantinha o selo sobre a marca no pescoço dela.
Com o passar dos anos, porém, a duração da magia começou a mudar.
A primeira falha aconteceu quase por acaso.
Missy tinha sete anos quando Kim percebeu que havia passado um dia a mais do que o habitual desde a última renovação. Ele a encontrou na cozinha, sentada em uma banqueta alta, os pés balançando no ar enquanto tentava dobrar um pano de prato rasgado. Seus dedos pequenos se moviam com atenção, e o tecido, como tantas outras vezes, obedecia ao toque dela.
Kim sentiu um arrepio estranho quando a viu.
Naquela manhã, o selo ainda permanecia intacto. Mas, ao anoitecer, quando Missy foi ajudá-lo a arrumar os livros no escritório, ele notou um leve brilho avermelhado por um instante, quase como uma respiração presa sob a pele.
Kim parou.
Missy, distraída, continuou falando sobre uma senhora da vila que lhe havia dado maçãs secas. Só mais tarde ele se aproximou e fingiu ajustar a gola da roupa da menina, apenas para confirmar o que temia: a marca estava tentando voltar.
Ele renovou o selo naquela mesma noite.
Depois disso, o intervalo deixou de ser uma semana completa.
Passou a durar cinco dias.
Então quatro.
Depois três.
Kim começou a registrar cada alteração mentalmente, e mais tarde em pequenos traços discretos que fazia no verso de um velho pergaminho. Não queria admitir para ninguém, nem mesmo para si, que aquilo era mais do que um simples enfraquecimento. Havia algo vivo naquela instabilidade, uma resistência invisível que não vinha da magia dele, mas da própria menina.
O destino de Missy.
A ideia surgiu como uma lâmina fria.
Kim sabia que o destino não era um conceito abstrato entre os dragões. Era força, direção, influência. Havia pessoas cuja existência parecia alinhar caminhos ao redor de si, como rios obedecendo à gravidade da montanha. Outras, raríssimas, possuíam destinos tão fortes que conseguiam alterar os de todos ao seu redor.
Missy era assim.
Ou pior.
Ela parecia não seguir caminho algum — e ainda assim, o mundo ao redor dela dobrava-se lentamente para encontrá-la.
A cada ano, o selo se tornava mais curto em sua duração. Aos doze anos, Kim já precisava renová-lo de três em três dias. Aos quinze, a marca começava a pulsar com maior frequência, mesmo ocultada. Aos dezoito, bastava um único descuido para que a proteção se enfraquecesse antes do tempo. E então, pela primeira vez, Kim sentiu medo verdadeiro.
Não o tipo de medo que surgia diante de uma ameaça imediata.
Mas o medo lento, corrosivo, que cresce quando se percebe que o inevitável está se aproximando.
Missy tinha dezoito anos quando o selo passou a durar apenas dois dias.
Kim estava no jardim, cortando ramos de ervas, quando ela apareceu com um vestido azul simples e os cabelos presos de qualquer maneira. Havia uma expressão pensativa no rosto dela, algo que se tornava mais comum com a idade.
— Kim — chamou ela, parando a alguns passos de distância. — Posso perguntar uma coisa?
Ele ergueu os olhos.
— Você sempre pode.
Missy hesitou antes de continuar.
— Por que você me mantém escondida?
A pergunta veio calma demais, direta demais.
Kim apertou os ramos entre os dedos, e o cheiro amargo das folhas esmagadas subiu ao ar.
— Eu já expliquei isso.
— Não, você explicou o suficiente para uma criança — retrucou ela, sem agressividade, mas com aquela firmeza que o fazia perceber o quanto Missy havia crescido. — Eu não sou mais uma criança.
Kim se levantou devagar.
Missy sustentou o olhar dele sem vacilar.
— Todos na vila sabem que eu não posso me afastar muito — continuou ela. — Todos sabem que não participo das cerimônias, nem das reuniões no salão principal, nem dos rituais de inverno. Eu passei anos aceitando isso. Mas agora eu quero saber a verdade.
O vento mexeu as folhas ao redor dos dois.
Kim ficou em silêncio por tempo demais.
Missy cruzou os braços.
— É por causa da marca, não é?
A tensão atravessou o corpo dele como um choque.
Ela percebeu.
Talvez não a natureza exata do que escondia, mas certamente havia notado que algo em seu pescoço era tratado como um segredo perigoso.
— Missy…
— Eu vi seu rosto — disse ela. — Toda vez que você me toca o pescoço. Toda vez que você muda a gola da minha roupa. Toda vez que eu passo um pouco mais de tempo fora de casa e você fica olhando para mim como se estivesse esperando que eu desaparecesse.
Kim desviou o olhar por um instante.
Ela estava certa.
E isso era o pior.
Missy soltou o ar lentamente.
— Eu não quero te magoar. Mas eu também não quero continuar vivendo como se fosse uma coisa quebrada.
A palavra atingiu Kim com força.
Quebrada.
Ele deu um passo em direção a ela, mas parou antes de tocar sua mão.
— Você não é quebrada.
— Então por que parece que todo mundo tem medo de me dizer quem eu sou?
Kim a observou em silêncio. O rosto dela já não tinha nada da bebê encontrada na floresta. Missy tinha traços firmes, olhos atentos, uma beleza discreta e intensa que crescia junto com sua inquietação. Havia dignidade nela, e também uma melancolia que ele começava a reconhecer como consequência dos anos de restrição.
Ele respirou fundo.
— Porque existe algo em você que os outros não aceitariam.
— E você? — perguntou ela, quase num sussurro. — Você aceita?
A pergunta o desarmou por completo.
Kim tinha vivido tempo suficiente para compreender o peso das verdades não ditas. Ele tinha visto reis ruírem, casas se perderem, famílias se quebrarem por causa de segredos menores que aquele.