O dia em que as fadas chegaram à vila começou como qualquer outro, envolto pela neblina fria que descia das montanhas e se espalhava pelos telhados de pedra como um véu pálido. As ruas ainda estavam vazias, as portas fechadas, e o som mais alto vinha do vento soprando entre os sinos pendurados nas varandas.
Missy ajudava uma das senhoras da vila a separar panos antigos para reaproveitamento quando o ar mudou.
Não foi um som. Não foi um brilho. Foi uma sensação.
Uma espécie de pressão leve sobre a pele, como se algo delicado e estranho tivesse atravessado os limites da vila sem pedir permissão.
As pessoas começaram a sair de suas casas.
Primeiro uma. Depois outra. Em poucos instantes, pequenos grupos se formaram nas trilhas de pedra, e todos olhavam na mesma direção: o portão principal.
Kim foi o primeiro a reconhecê-las.
As fadas vieram em número de três, flutuando poucos centímetros acima do chão, envoltas por um brilho dourado tão sutil que parecia dissolver a própria luz do sol. Suas asas eram translúcidas, finas como pétalas de gelo, e suas vestes esvoaçavam ao menor movimento do ar. Não eram criaturas comuns. Mesmo entre os dragões, falava-se pouco sobre elas. As fadas serviam aos antigos pactos, às mensagens seladas, aos anúncios que não podiam ser alterados por mãos humanas.
Quando uma delas se adiantou, a vila inteira mergulhou em silêncio.
Ela abriu as mãos diante do peito e, de dentro da luz, surgiu um envelope branco com lacre vermelho, marcado com o símbolo do palácio.
— Mensagem oficial da Senhora Fallen, mãe do príncipe Din, o Dragão Branco — anunciou a fada, com voz límpida e sem emoção. — Que todos ouçam.
As mulheres próximas trocaram olhares inquietos.
Kim permaneceu imóvel.
A fada desenrolou o pergaminho e começou a ler:
— “Por decisão do palácio, convocam-se jovens de vinte a vinte e cinco anos, de linhagem compatível, espírito firme e presença digna, para participar da seleção destinada a encontrar a futura esposa do príncipe Din, herdeiro do trono dos Dragões Brancos.”
O murmúrio começou antes mesmo de a leitura terminar.
Uma seleção.
Uma esposa para o príncipe.
Kim sentiu o peso daquilo se formar dentro do peito muito antes de qualquer outra pessoa na praça compreender o alcance da notícia.
A fada continuou:
— “As candidatas serão submetidas a provas determinadas pelo palácio, a fim de avaliar coragem, disciplina, resistência, inteligência e capacidade de permanecer ao lado do futuro rei. A seleção ocorrerá dentro de um ciclo lunar. Todas as participantes deverão se apresentar ao chamado em data definida pelo selo oficial.”
O pergaminho se fechou com um leve movimento das mãos da fada.
— A presença das jovens convocadas é esperada — concluiu ela. — A recusa injustificada poderá ser interpretada como afronta à corte.
Depois disso, as fadas se entreolharam e, sem mais nenhuma palavra, ergueram-se no ar e desapareceram na névoa da manhã como se nunca tivessem existido.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Então os comentários explodiram.
— Uma seleção?
— Para esposa do príncipe?
— Vinte jovens?
— Isso só pode ser absurdo.
— Din não pretende se casar? Dizem que nunca demonstrou interesse por ninguém. Ele só vive para a guerra, é c***l demais, porém as jovens praticamente estão sendo obrigadas a irem.
— E quem teria coragem de ficar ao lado dele?
Os nomes começaram a ser sussurrados. As idades, comparadas. As famílias, analisadas.
Missy permaneceu em silêncio, observando tudo da entrada do pátio. Tinha ouvido histórias sobre o príncipe Din desde criança — histórias contraditórias, quase sempre perigosas. Dragão Branco. Filho de Fallen. Guerreiro impecável. Hábil nas batalhas. Frio, impiedoso, distante. Um homem que parecia ter nascido para governar, não para amar.
A ideia de uma seleção destinada a escolher sua esposa lhe pareceu tão estranha quanto uma tempestade de verão no auge do inverno.
Kim, por sua vez, não disse nada.
Recebeu o pergaminho das mãos de uma das senhoras quando ela o entregou com reverência nervosa e o levou consigo para casa sem abrir até chegar ao escritório. Sentou-se diante da mesa de madeira e permaneceu olhando para o lacre vermelho por longos minutos.
Missy apareceu na porta algum tempo depois, com passos leves.
— O que era aquilo? — perguntou.
Kim não ergueu os olhos imediatamente.
— Um convite do palácio.
— Eu ouvi o anúncio.
Ele assentiu uma vez.
Missy cruzou os braços.
— E o que querem da vila?
Kim rompeu o lacre com cuidado.
— Jovens mulheres. Entre vinte e vinte e cinco anos. Para uma seleção.
Missy franziu o cenho.
— Seleção para quê?
Kim ergueu o pergaminho e leu em voz baixa o trecho final, embora já soubesse o conteúdo de cor:
— “Encontrar a futura esposa do príncipe Din.”
Missy ficou em silêncio.
Então soltou um riso curto, incrédulo.
— Esposa? Estão escolhendo uma esposa como quem escolhe um cavalo de guerra?
Kim fechou o pergaminho devagar.
— O palácio sempre tratou alianças como estratégia.
— E esse príncipe concorda com isso?
Kim apoiou os cotovelos na mesa.
— Pelo que dizem, ele não se importa com amor. Apenas com dever.
Missy pareceu pensar nisso por um instante, e o rosto dela assumiu uma expressão quase impaciente.
— Que maneira c***l de casar alguém.
— É o modo como os dragões funcionam.
Ela caminhou até a janela e olhou para o pátio externo, onde algumas mulheres ainda comentavam o anúncio com excitação ou medo.
— Então vão convocar garotas da vila inteira?
— Sim.
— E quem vai aceitar?
Kim a observou de perfil.
— Muitas. Algumas por ambição. Outras por dever. Outras porque não terão escolha.
Missy virou o rosto para ele.
— E você? O que acha disso?
Kim demorou a responder. Em outras circunstâncias, teria ignorado o convite, dobrado o pergaminho e guardado a mensagem como mais uma formalidade distante do palácio. Ele tinha assuntos mais urgentes. Uma marca proibida. Um selo enfraquecendo. Uma jovem que ainda vivia escondida do mundo.
Mas enquanto olhava o documento, algo lhe chamou a atenção.
Havia um selo dourado no rodapé do pergaminho. E dentro do selo, finíssimo, quase imperceptível, um traço que se dividia em dois caminhos antes de desaparecer.
Kim se levantou de repente.
Missy o observou com surpresa.
— Kim?
Ele se aproximou da mesa e inclinou o pergaminho à luz. A marca do palácio não era apenas decorativa. Era um símbolo de passagem. De escolha. De possibilidade.
E, por um instante, muito breve, ele viu algo que não via havia anos.
Não era o destino completo. Não era uma visão clara. Era apenas um fragmento.
Um caminho.
Pequeno, tênue, mas real.
Ligado a Missy.
Kim congelou.
Missy deu um passo em sua direção.
— O que foi?
Ele não respondeu de imediato.
Olhou para o pergaminho, depois para ela.
E então entendeu.
Talvez aquele anúncio não fosse uma ameaça.
Talvez fosse uma a******a.
Talvez, pela primeira vez, o vazio ao redor de Missy estivesse se rasgando o bastante para revelar uma trilha.
Kim sentiu a respiração travar.
— Não pode ser… — murmurou.
— O quê? — insistiu Missy.
Ele ergueu os olhos lentamente.
— Eu vi um caminho.
Ela franziu o cenho.
— Um caminho?
— Para você.
Missy ficou completamente imóvel.
Kim voltou a olhar o pergaminho, como se temesse que a visão desaparecesse caso piscasse.
— Talvez… talvez isso seja o primeiro sinal.
A jovem se aproximou, cautelosa, como se não quisesse assustá-lo.
— Sinal de quê?
Kim levou alguns segundos para responder.
— De que o seu destino não está ausente.
Missy o encarou, sem entender completamente.
— Então onde ele estava?
Kim passou a mão pelo rosto, perturbado.
— Talvez escondido. Talvez bloqueado. Talvez apenas esperando o momento certo para surgir.
Missy olhou para o pergaminho.
— E esse momento seria agora?
Kim não respondeu.
Porque havia um detalhe ainda mais importante.
Se o anúncio do palácio havia despertado um caminho para Missy, então talvez o mundo estivesse reagindo à proximidade de algo maior do que ele podia prever.
A marca no pescoço dela. O selo. O príncipe Din. A seleção.
Tudo parecia começar a se ligar.
Como se a vida de Missy, por fim, tivesse encontrado uma porta.
Mas as portas também levavam a perigos.