Capítulo 7 — O destino que não existe

1681 Words
Ele quase sorriu, mas a preocupação o impediu. Porque ela estava certa. Missy começava a tocar algo que escapava à compreensão comum. E, quanto mais ele observava, mas percebia que seu dom talvez estivesse ligado ao mesmo mistério que envolvia a marca em seu pescoço. Mais tarde, quando ficou sozinha, Kim a viu no corredor observando os próprios dedos como se quisesse decifrar neles uma verdade oculta. E ele percebeu, com crescente certeza, que o dom dela não seria pequeno. Não seria limitado. Não seria apenas útil. Seria perigoso. Não porque destruísse. Mas porque podia tocar aquilo que havia sido perdido. E, em um mundo de dragões, selos e destinos ocultos, restaurar o que foi quebrado podia ser uma forma de alterar a ordem das coisas para sempre. Kim fechou a porta de seu escritório e permaneceu ali por alguns segundos, em silêncio, sentindo o peso da própria dúvida. Se Missy fosse capaz de restaurar um objeto que pertence a uma pessoa, talvez também pudesse restaurar lembranças, juramentos, marcas… ou até mesmo partes do destino. E, se isso fosse verdade, então o futuro dela era muito mais vasto do que ele imaginara. Muito mais perigoso. Muito mais importante. Porque talvez Missy não tivesse apenas o dom de consertar o que estava quebrado. Talvez ela tivesse nas mãos o poder de devolver ao mundo aquilo que o mundo acreditava ter perdido para sempre. Quando Missy se aproximou dos vinte anos, a casa de Kim já não parecia a mesma de quando ela era criança. As janelas continuavam voltadas para o jardim de ervas, o chão ainda rangia nos mesmos pontos e o cheiro de madeira antiga permanecia preso às paredes. Mas havia algo diferente no ar. Algo silencioso e denso, como se o próprio espaço soubesse que o tempo estava se esgotando. Kim percebia isso em tudo. Na forma como Missy demorava um pouco mais para prender o cabelo pela manhã. No jeito como passava os dedos pelo pescoço quando sentia o selo escondido sob a pele. Na maneira como seus olhos, antes só curiosos, agora carregavam perguntas que ela ainda não havia ousado formular em voz alta. Ele também sabia que não podia adiar a verdade por muito mais tempo. Durante anos, Kim havia protegido Missy do olhar da vila, da crueldade dos outros e, principalmente, daquilo que ele mais temia: o momento em que a marca vermelha se tornaria visível novamente. O selo ainda funcionava, mas já não como antes. Antes escondia a marca por dias inteiros. Depois, por horas. Agora, Kim renovava a proteção com uma frequência que o mantinha em constante vigilância, quase sem descanso. E, por mais que tentasse, havia algo que ele não conseguia controlar. O destino dela. Kim sabia ler caminhos. Sempre soubera. Quando olhava para alguém, via a linha invisível que se desdobrava à frente daquela pessoa: encontros, perdas, escolhas, rupturas. Algumas vidas eram longas e fluidas; outras, curtas e violentas. Algumas se cruzavam com dezenas de outras, formando teias complexas que só ele conseguia compreender. Em toda a vila, muito poucos escapavam à sua visão. Mas Missy… Missy era um vazio. Não um vazio comum, daqueles que apenas indicam ausência de decisão ou futuro ainda não formado. Como se ali houvesse uma lacuna no próprio tecido do mundo. Kim se sentou diante dela muitas vezes em silêncio, observando-a sem que ela percebesse, tentando forçar a visão, tentando alcançar qualquer fragmento de caminho. Mas tudo o que encontrava era nada. Nenhum fio, nenhuma bifurcação, nenhuma luz de direção. E isso o apavorava. Naquela noite, a lua já estava alta quando ele a chamou para o escritório. Missy entrou devagar, fechando a porta atrás de si. — Você queria falar comigo? Kim estava de pé junto à mesa, com as mãos apoiadas na superfície de madeira. Sobre ela havia pergaminhos antigos, um tinteiro seco e o pequeno anel com o selo que usava para ocultar a marca dela. Ele não se virou de imediato. — Sente-se — disse, num tom calmo demais para ser natural. Missy franziu o cenho, mas obedeceu. Sentou-se na cadeira diante da mesa e o observou com atenção. Havia algo no rosto de Kim que ela não via havia muito tempo. Não era apenas preocupação. Era uma espécie de cansaço profundo, como se ele tivesse carregado um peso por anos e finalmente tivesse chegado a um limite. Quando ele se voltou para ela, Missy endireitou a postura. — O que aconteceu? Kim demorou alguns segundos para responder. — Você vai fazer vinte anos em breve. Missy sustentou o olhar dele, cautelosa. — Eu sei. — E com isso o selo vai continuar enfraquecendo. Ela não pareceu surpresa. Apenas baixou os olhos por um instante. — Eu também sei disso. Kim respirou fundo. Aquilo tornava a conversa ainda mais difícil. Missy já intuía a gravidade da situação, mas ainda não conhecia a verdade inteira. Ele puxou a cadeira oposta e sentou-se diante dela. — Há algo que eu preciso te contar — disse. Missy ergueu o rosto. O silêncio se alongou por alguns segundos. O vento bateu de leve nas janelas. O fogo na lareira estalou. Então Kim falou: — Você não possui um destino que eu possa ver. A frase pareceu pousar entre os dois como uma pedra. Missy piscou, sem entender de imediato. — Como assim? Kim manteve a voz baixa, precisa, como se cada palavra exigisse esforço. — Eu consigo ver os caminhos da maioria das pessoas desta vila. Vejo seus encontros, seus casamentos, suas perdas, suas mortes. Vejo de onde vêm e para onde vão. Mas quando tento olhar para você… não há nada. Apenas vazio. Missy ficou imóvel. O rosto dela perdeu a cor aos poucos, não de imediato, mas como quem vai compreendendo a extensão de algo terrível. — Nada? — repetiu, quase num sussurro. — Nada. Ela se recostou devagar na cadeira, processando aquilo com a mesma concentração que usava para consertar tecidos rasgados. Mas agora não havia pano, linha ou agulha capazes de unir as partes daquilo que acabara de ouvir. — Isso é impossível — disse ela, por fim. Kim assentiu com amargura. — Eu sei. — Você está dizendo que eu não tenho futuro? — Não. — Ele respondeu rápido demais, quase com firmeza desesperada. — Estou dizendo que o seu futuro não se apresenta de forma comum. Não consigo vê-lo. Missy olhou para as próprias mãos. Essas mãos que remendavam, que restauravam, que pareciam devolver forma às coisas perdidas. Ela as observou como se fossem estranhas. Como se talvez escondessem a resposta para algo que nem sequer sabia que precisava perguntar. — Então por que você me escondeu por tanto tempo? — perguntou. Kim passou a mão pelo rosto. — Porque, se a marca for descoberta, você será expulsa da vila. Ela ergueu os olhos imediatamente. — Exilada. — Sim. — Mesmo depois de tudo? — Principalmente por causa de tudo — respondeu ele, amargo. — A Vila dos Dragões Brancos não perdoa o que considera anormal. Uma marca de dragão vermelho em uma bebê abandonada já era suficiente para condená-la. O fato de você ter crescido sem um destino visível só tornaria as coisas piores. Missy ficou em silêncio. Kim continuou, com um cuidado que quase parecia medo. — Eles diriam que você é uma ameaça. Que a sua existência rompe a ordem. Que alguém sem destino não pode permanecer entre os nossos. A jovem apertou os dedos contra a saia. — E você? — perguntou de repente. — O que você diria? Kim a encarou, pegando de surpresa a intensidade da pergunta. — Eu diria que estão errados. — Só isso? — Eu diria que você não é uma ameaça. — A voz dele ficou mais firme. — Eu diria que você é uma vida. Uma vida que precisa ser protegida. Missy sustentou o olhar dele por um longo instante. Havia gratidão em seu rosto, mas também algo mais pesado. Algo que começava a crescer por trás da expressão calma. — Se o meu destino não pode ser visto… então talvez eu realmente não tenha um — disse ela, devagar. Kim negou. — Não. Talvez você precise encontrar o seu próprio destino. A frase fez Missy franzir o cenho. — Encontrar? — Sim. Há pessoas cujos caminhos estão prontos antes mesmo de nascerem. Outras… precisam construí-los. Talvez você seja uma delas. Missy baixou os olhos novamente. A ideia de construir o próprio destino parecia ao mesmo tempo libertadora e aterradora. Libertadora porque não significava ausência. Aterradora porque significava responsabilidade. Sem uma trilha pronta, tudo dependeria dela. De suas escolhas. De suas falhas. De sua coragem. E Missy sabia muito bem o quanto isso podia ser pesado. Ela respirou fundo. — E se eu não encontrar nenhum? Kim não respondeu. O silêncio que se seguiu foi muito pior do que qualquer palavra. Missy percebeu a hesitação dele no mesmo instante. Kim, que sempre tinha resposta para tudo o que dizia respeito à vila, às marcas, às regras e às consequências, agora nada tinha a oferecer. Seu olhar endureceu por um segundo antes de suavizar, quase imperceptivelmente. Mas ela já tinha visto. — Você não sabe — disse Missy. Kim desviou o rosto. — Não sei. — Então por que me contou agora? Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou as mãos. — Porque você está perto demais de completar vinte anos. E porque o selo não vai resistir para sempre. Missy ficou quieta. Essa era a outra verdade escondida, a que pairava sobre eles havia meses. Talvez anos. O tempo deixava de ser abstrato quando a descoberta de um segredo tinha data marcada. E o aniversário de vinte anos de Missy já não era apenas um marco. Era uma contagem regressiva. — Eu precisava que você soubesse antes — continuou Kim. — Se algo acontecer, quero que entenda que não foi porque você falhou. Nem porque eu falhei. Ela ergueu os olhos, lentamente. — Então por que vai acontecer? Kim respondeu com a voz mais baixa que antes: — Porque há coisas que não são decididas por nós.
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