Aos poucos, Missy passou a ser vista na Vila dos Dragões Brancos como uma jovem discreta demais para alguém que carregava tantas perguntas dentro de si.
Ela não chamava atenção pelo temperamento, porque nunca fora explosiva. Também não se destacava pela rebeldia, porque aprendera cedo demais que desafiar certas regras podia custar caro. Mas havia nela algo difícil de ignorar: uma calma estranha, quase inacessível, como se Missy estivesse sempre escutando alguma coisa que os outros não conseguiam ouvir.
Os moradores da vila a conheciam desde criança. Sabiam que fora criada por Kim. Sabiam também que passava boa parte do tempo entre tecidos, linhas, remendos e pequenos consertos. Muitas das mulheres mais velhas passaram a lhe ensinar pontos, dobras, reforços de bainha e truques para recuperar roupas gastas pelo frio e pelo uso constante. Missy aprendia rápido.
Mais do que rápido, ela parecia entender.
Enquanto outras jovens se irritavam com linhas embaraçadas e agulhas tortas, Missy permanecia paciente, os olhos atentos, os dedos delicados trabalhando com uma precisão quase natural. Em pouco tempo, ela era capaz de recuperar mantos antigos, costurar rasgos em aventais e transformar pano velho em algo novamente útil. As senhoras da vila começaram a procurá-la com frequência.
— Você tem mãos de bênção, menina — dizia uma delas, sorrindo ao ver um casaco recuperado.
— Ou de artesã — completava outra.
Missy sempre sorria de volta, mas sem grande alarde. Não sabia exatamente o que havia de especial em seu toque. Só sentia que, quando se concentrava, era como se o mundo pedisse para ser reorganizado.
Kim observava tudo em silêncio.
Durante anos, ele acreditara que o dom dela se limitaria àquilo que já havia visto na infância: pequenas reparações, tecidos que se recompunham, costuras que se fechavam sozinhas sob seus dedos. Mas, com o tempo, aquilo começou a mudar.
No início foram detalhes quase imperceptíveis.
Uma manta desbotada voltou a apresentar cor depois de alguns instantes nas mãos dela. Um prato de cerâmica com uma trinca fina pareceu mais firme quando Missy o segurou por acidente. Uma fita rasgada, que antes estava condenada ao descarte, retornou ao estado original depois de ela a enrolar distraidamente entre os dedos.
Kim começou a desconfiar.
Não disse nada a princípio. Apenas a observava de longe, com a discrição de quem já se acostumou a esconder preocupações atrás de hábitos tranquilos. Mas havia algo de novo no modo como ele acompanhava Missy pelos corredores da casa, pelo jardim, pelos ateliês simples da vila e até pelas feiras de troca de panos e utensílios danificados.
Ele queria entender até onde ia aquele dom.
E, principalmente, o que ele significava.
Numa tarde fria, Missy foi até o depósito de tecidos da casa de Kim para escolher uma faixa de linho com a qual pretendia consertar uma capa de chuva. O cômodo ficava nos fundos, iluminado por pequenas janelas altas que deixavam entrar uma luz suave e fria. Havia rolos de tecido empilhados, caixas de madeira com botões antigos, agulhas, linhas coloridas e pedaços de pano guardados em sacos de linho.
Ela se agachou diante de uma prateleira baixa e puxou um pedaço de tecido azul-escuro, rasgado de um lado e gasto nas bordas.
— Este ainda pode servir — murmurou para si mesma.
Sentou-se no chão e começou a trabalhar.
Costurou primeiro as extremidades, unindo as partes com cuidado. Depois passou os dedos sobre a trama, alisando as fibras. Como sempre, sentiu aquela estranha quietude se formar dentro do peito. Era uma sensação serena, como se o objeto diante dela estivesse esperando por sua atenção.
Missy fez uma leve pressão com a ponta dos dedos sobre o r***o central.
Nada aconteceu de imediato.
Ela franziu o cenho e tentou novamente, dessa vez deixando a palma inteira repousar sobre o pano.
Então, de repente, um brilho quase invisível percorreu o tecido.
Missy se imobilizou.
O r***o começou a desaparecer diante de seus olhos.
As fibras se rearranjaram em silêncio. As bordas desfiadas voltaram ao lugar. A costura improvisada que ela havia feito momentos antes se dissolveu como se jamais tivesse existido. Em poucos segundos, o tecido azul-escuro estava inteiro, liso, sem qualquer sinal de dano.
Missy recuou as mãos de uma vez.
Seu coração acelerou.
Por um instante, pensou ter imaginado aquilo. Mas quando ergueu o pano contra a luz da janela, viu com clareza que não havia mais r***o algum.
Ela piscou, confusa.
— Isso não é possível…
Pegou outro pedaço de tecido, desta vez uma faixa velha e manchada. Havia um furo pequeno no centro, aberto pelo uso antigo. Ela respirou fundo, tocou a área danificada e se concentrou. O mesmo brilho tênue surgiu, e o furo se fechou lentamente até desaparecer por completo.
Missy deixou escapar um suspiro trêmulo.
Tentou novamente, agora com algo diferente.
Um lenço da cozinha, puído em uma ponta. Depois, um pedaço de saco de farinha. Depois, uma tira de couro usada para amarrar livros. Em todos os casos, o resultado foi o mesmo: a matéria se recompunha sob suas mãos, como se obedecesse a uma lembrança antiga daquilo que havia sido antes de quebrar.
Ela ficou sentada no chão por um bom tempo, imóvel, olhando para as próprias mãos.
Quando Kim entrou no depósito, encontrou Missy ainda em silêncio, cercada por tecidos restaurados e olhos arregalados.
Ele já sabia o que havia acontecido.
Apenas a observou por um instante, sem interrompê-la.
— Kim — disse ela por fim, a voz baixa. — Eu não fiz isso de propósito.
Ele se aproximou devagar.
— O que exatamente você fez?
Missy levantou o pano azul-escuro e mostrou a ele.
— Eu estava só tentando consertar. Mas… isso aconteceu.
Kim pegou o tecido entre os dedos e o examinou com atenção. Estava perfeito. Não havia costura aparente, não havia remendo, não havia diferença entre uma parte e outra. Era como se o dano nunca tivesse existido.
A expressão dele permaneceu serena, mas por dentro algo se moveu com força.
— Você já tinha conseguido fazer isso antes — disse ele, mais para confirmar do que para acusar.
Missy hesitou.
— Sim. Mas só com tecidos.
— E hoje?
Ela olhou para as próprias mãos.
— Hoje pareceu diferente.
Kim guardou o pano com cuidado e se sentou diante dela.
— Diferente como?
Missy franziu o cenho, tentando explicar algo que ainda nem ela compreendia.
— Normalmente eu só sinto vontade de ajeitar, de tornar as coisas melhores. Mas agora… parecia que o tecido sabia como voltar. Como se eu só estivesse ajudando.
Kim a observou em silêncio.
Aquela resposta era mais perturbadora do que qualquer confissão direta. Não se tratava apenas de habilidade manual. Não se tratava de boa coordenação ou sensibilidade. Havia algo mais profundo, algo ligado à própria estrutura das coisas. Como se Missy não apenas reparasse, mas lembrasse ao mundo como era ser inteiro.
Nos dias seguintes, Kim passou a observá-la com ainda mais atenção.
Sem que Missy percebesse, ele começou a testar discretamente os limites daquele dom.
Primeiro entregou a ela uma tigela de madeira com um lascado na borda. Missy a tocou por alguns segundos e o dano desapareceu.
Depois, um botão de metal amassado. Recuperado.
Depois, uma pulseira de couro endurecida pelo tempo. Suavizada, como nova.
Kim então foi além.
Levou à mesa de Missy uma pequena caixa de música antiga, quebrada havia anos. A tampa não fechava direito, a mola interna estava travada e uma das extremidades de madeira tinha sido lascada por acidente. Missy a recebeu com curiosidade.
— Isso está muito danificado — comentou.
— Eu sei — respondeu Kim.
Ela apertou os lábios e examinou o objeto com cuidado. A seguir, tocou a madeira, as dobradiças, o mecanismo interno, uma peça por vez.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então, com um estalo suave, a tampa se alinhou. A madeira recuperou a superfície lisa. A mola interna pareceu destravar. E, logo depois, uma melodia fina, antiga e delicada começou a tocar, como se a caixa nunca tivesse estado em ruínas.
Missy arregalou os olhos e largou o objeto quase de imediato.
— Eu não sabia que isso podia tocar de novo!
Kim pegou a caixa com cuidado, ainda mais intrigado do que antes.
Não era apenas restauração física.
Era recuperação de função.
Recuperação de memória.
Ele não contou à menina o quanto aquilo o alarmava. Apenas agradeceu em voz baixa e, naquela noite, fechou-se em seu escritório por horas, consultando livros antigos sobre dons raros, marcas ocultas e relações entre magia e matéria. Poucos registros mencionavam algo semelhante. Havia relatos fragmentados de curadores, artesãos espirituais e pessoas capazes de restaurar objetos por contato. Mas nada que explicasse a extensão do que Missy demonstrava.
E então surgiu uma pergunta que o deixou inquieto.
Se Missy podia restaurar tecidos, madeira, metal e objetos partidos… poderia também restaurar algo que pertencesse a uma pessoa?
Na manhã seguinte, ele decidiu testar a hipótese com cautela.
Foi até o quarto de Missy enquanto ela ainda arrumava o cabelo diante do espelho de bronze. Sobre a mesa de madeira havia uma fita vermelha antiga, usada por ela durante a infância para prender os fios rebeldes. Uma das pontas estava desfiada, e o laço central tinha se soltado anos antes.
— Você pode tentar consertar isso? — perguntou Kim, oferecendo a fita.
Missy pegou o objeto com carinho.
— Posso tentar.
Sentou-se na cadeira, repousou a fita sobre a palma e a examinou por alguns instantes. O tecido era delicado, mas o vermelho havia desbotado com o tempo. Ela passou o polegar pela superfície e, como sempre, a concentração tomou conta de seu rosto.
Mas quando a fita começou a se recompôr, algo diferente aconteceu.
Missy levou a mão livre ao próprio pulso, piscando várias vezes.
— Kim…?
Ele se ergueu instantaneamente.
— O que houve?
Ela soltou a fita e tocou a ponta dos dedos, como se sentisse um calor leve correndo pelo braço.
— Quando eu fiz isso… pareceu que eu estava lembrando de algo que não era meu.
Kim ficou imóvel.
— Como assim?
Missy apertou o pulso e olhou para ele com inquietação genuína.
— Não sei explicar. Foi como se o objeto tivesse uma história muito forte. Como se o que eu consertei não fosse só o tecido, mas alguma coisa ligada à pessoa que usou isso.
Kim sentiu o sangue gelar.
Então era possível.
Talvez o dom dela não restaurasse apenas matéria. Talvez tocasse algo mais profundo: o vínculo entre um objeto e aquele a quem pertencia. Memória, intenção, essência. Se fosse assim, Missy poderia não apenas reparar coisas quebradas, mas também alcançar marcas deixadas pela existência de alguém.
Ele pegou a fita de volta e a guardou com cuidado.
— Não tente fazer isso sozinha até eu entender melhor — disse, num tom mais firme do que pretendia.
Missy estreitou os olhos.
— Você está com medo.
Não era uma pergunta.
Kim desviou o olhar por um segundo antes de responder.
— Estou tentando protegê-la.
Ela cruzou os braços.
— Isso não é a mesma coisa.