Capítulo 14 — A poção

1612 Words
O primeiro teste da seleção foi anunciado ao amanhecer, quando o palácio ainda parecia suspenso entre a névoa e a luz fria que descia sobre os jardins. As candidatas foram reunidas em um grande salão circular, cujas paredes eram revestidas por pedra clara e tapeçarias antigas com símbolos dos dragões brancos. No centro, sobre um pedestal de mármore, havia uma bandeja de prata com vinte taças idênticas. O líquido dentro delas tinha uma tonalidade dourada e translúcida, quase bonita demais para inspirar confiança. Missy observou as taças em silêncio. Não gostava da forma como a sala estava organizada. Havia algo cuidadosamente teatral em tudo aquilo: a posição dos guardas, o círculo formado pelas candidatas, a quietude forçada dos servos, a presença de conselheiras em fileiras laterais. Não era apenas uma prova. Era uma demonstração de poder. Fallen estava de pé à frente delas, com a mesma postura elegante e inabalável do dia anterior. O rosto dela não transmitia impaciência nem dureza excessiva. Era pior do que isso. Havia controle. Como se já soubesse o que cada uma sentiria antes mesmo de elas perceberem. — Antes de iniciar a primeira etapa — disse Fallen, com voz clara —, preciso que compreendam o propósito desta seleção. As candidatas se endireitaram. — Ser esposa do príncipe Din não é apenas uma honra. É uma união com consequências. O vínculo matrimonial entre um dragão poderoso e sua companheira exige compatibilidade física, emocional e espiritual. A energia de um dragão da linhagem branca não é simples de suportar. Muitas mulheres acreditam que desejam esse lugar. Poucas estão preparadas para o peso real que ele impõe. Algumas candidatas trocaram olhares. Fallen ergueu levemente uma das mãos. — A poção à sua frente não é mortal. Não é veneno. Não é uma armadilha. Ela foi preparada pelos alquimistas do palácio para testar a resistência do corpo à pressão energética necessária para sustentar o vínculo com um dragão poderoso. Quem não conseguir suportá-la vai desmaiar temporariamente. Quem permanecer consciente demonstrará possuir estrutura suficiente para continuar. Um murmúrio atravessou a sala. Missy olhou para uma das taças novamente. Poção. Vínculo. Energia. Tudo isso soava extremamente inconveniente. Ela não queria estar ali para ser medida pela capacidade de resistir a um efeito mágico que não tinha relação alguma com o que sentia ou desejava. E, no entanto, entendia a lógica c***l da prova. O palácio não estava interessado em romantismo. Estava interessado em compatibilidade. Fallen continuou: — Uma a uma, vocês beberão. E, após a ingestão, aguardaremos o efeito. Quando a reação passar, os guardas conduzirão as que não puderem prosseguir. As demais seguirão para a próxima etapa. Ela fez uma pausa breve. — Que comecemos. Os servos se moveram com precisão e entregaram as taças às candidatas por ordem de posição. A primeira jovem, da região norte, pegou a bebida com as mãos trêmulas. Levou a taça aos lábios, hesitou por um instante e então bebeu de uma vez. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Depois, seu rosto perdeu a cor. Os joelhos cederam. Ela tentou apoiar-se no ar, mas já era tarde. Dois guardas a ampararam antes que caísse completamente. Missy observou a cena sem expressão. A segunda candidata bebeu com coragem aparente, como se quisesse provar algo ao salão inteiro. Resistiu por um momento maior que a primeira, mas logo fechou os olhos e tombou para o lado, desacordada. A terceira soltou um som de incredulidade quase no instante em que o líquido desceu pela garganta. Cambaleou, tentou se recompor, mas caiu de joelhos antes que os guardas se aproximassem. Uma a uma, as jovens iam bebendo. Algumas se mantinham de pé por um curto tempo. Outras desmaiavam imediatamente. Algumas tremiam, outras choravam em silêncio, outras tentavam esconder o medo. Missy esperava sua vez com os braços relaxados ao lado do corpo, embora por dentro estivesse em uma tensão silenciosa. Não estava preocupada apenas com a prova. Estava preocupada com o que poderia acontecer caso a poção interagisse de algum modo com a magia do selo. Kim não estava ali para reforçá-lo. Pela primeira vez desde que deixou a vila, ela estava sozinha diante de uma situação que poderia revelar mais do que queria. Ao fundo, uma das conselheiras observava tudo com atenção crítica. Outra anotava o nome das candidatas que resistiam por mais tempo. Fallen permanecia em pé, impassível, registrando cada reação com o olhar treinado de quem já conhecia de antemão a natureza do teste. Quando uma jovem da família de um dos territórios vizinhos caiu sem forças após apenas tocar a taça com os lábios, um silêncio mais pesado se espalhou entre as que ainda aguardavam. A seleção não era simbólica. Era real. E o palácio não teria piedade. Missy notou que algumas candidatas já começavam a se arrepender de ter vindo. Outras, porém, mantinham a postura firme, talvez convencidas de que a força física ou a determinação emocional bastariam. Havia até quem parecesse irritada por ter de enfrentar um teste tão humilhante. — Isso é ridículo — murmurou Elira, que estava algumas posições à frente. — Uma poção? Como se fosse isso que define uma esposa digna. A jovem de cabelo prateado, que Missy ainda não conhecia pelo nome, respondeu sem virar o rosto: — Pode parecer ridículo, mas a prova está descartando as fracas. — E você acha isso justo? — Não. — A resposta veio sem hesitação. — Mas não é sobre justiça. Missy quase sorriu com a franqueza inesperada. Quando chegou a vez de outra candidata, uma jovem do centro da vila, o salão inteiro pareceu prender a respiração. Ela bebeu a poção com a expressão fechada, tentando manter a postura. Resistiu tempo suficiente para despertar um murmúrio de aprovação, mas acabou vacilando poucos segundos depois, com os olhos desfocados e a mão procurando apoio no vazio antes de cair. Ainda restavam poucas. Missy percebeu, com uma calma crescente, que algo nela estava estranhamente quieto. Não era coragem. Não exatamente. Era uma espécie de clareza. Como se, ao contrário das outras, ela não estivesse ali para vencer a prova, mas para atravessá-la. Quando o nome dela foi chamado, a sala pareceu se reduzir. — Missy — anunciou uma serva, estendendo a taça com ambas as mãos. A jovem deu um passo à frente. Os olhos de várias candidatas se voltaram para ela. Algumas com curiosidade. Outras com desconfiança. Elira, que já estava sentada com a expressão abatida depois de ter suportado a poção e permanecido consciente, observou Missy de cima a baixo, como se quisesse antecipar o resultado. Fallen também a encarou. Não com surpresa. Ainda não. Mas com uma atenção diferente da que havia dedicado às outras. Missy recebeu a taça. O líquido dourado refletiu a luz do salão e brilhou por um instante como metal líquido. Ela o observou sem pressa. Sentiu o peso suave do vidro em uma mão, a pressão invisível de dezenas de olhares sobre si e, no fundo de tudo, uma sensação antiga e incômoda de estar sendo empurrada em direção a algo que ainda não compreendia. Ela ergueu os olhos. Fallen estava diante dela, muito ereta, com a serenidade de uma mulher acostumada a julgar o mundo sem tremer. Missy sustentou o olhar por um segundo a mais. Não havia intimidação suficiente naquela mulher para fazê-la baixar a cabeça. Talvez porque Missy já tivesse passado a vida inteira sendo escondida. Talvez porque, depois de sobreviver ao selo, à vila e aos anos de silêncio, o olhar de uma rainha-mãe não lhe parecesse tão assustador quanto deveria. A taça continuava em suas mãos. O salão estava em total silêncio. Missy ouviu sua própria respiração. Pensou em Kim por um instante — não por fraqueza, mas por memória. Pensou em como ele sempre tentara protegê-la do mundo, em como a havia orientado a não se revelar antes da hora, em como insistira que o caminho dela precisaria ser descoberto, não imposto. Pensou também em tudo o que abrira mão ao vir até ali. A vila. A segurança. A rotina. A aparência de uma vida sem grandes rupturas. E então olhou de novo para a poção. Ela não queria o poder que as outras desejavam. Não queria o prestígio. Não queria a chance de ser esposa de um príncipe só pelo que isso representava. Mas queria continuar viva. E, naquele momento, sobreviver significava avançar. Missy levou a taça aos lábios e bebeu. O líquido era morno, levemente amargo, com um fundo metálico quase imperceptível. Desceu pela garganta com uma estranha facilidade, e por um segundo nada pareceu acontecer. Ela sentiu apenas um calor suave se espalhando pelo peito, como se algo tivesse despertado no interior do corpo. As candidatas ao redor prenderam a respiração. Uma das guardas deu um passo à frente, como se esperasse que Missy cambaleasse já no instante seguinte. Mas isso não aconteceu. Missy continuou de pé. Seu rosto permaneceu calmo. Seu equilíbrio não vacilou. O calor se intensificou por um momento, subindo pela base do pescoço e espalhando-se pelos braços como uma onda silenciosa. Ela sentiu os dedos formigarem de leve, mas não houve dor. Não houve apagão. Não houve o colapso que o salão inteiro parecia aguardar. Alguns segundos se passaram. Depois mais alguns. A jovem permaneceu ereta. Elira abriu os olhos um pouco mais, surpresa. A candidata de cabelo prateado inclinou discretamente o rosto, interessada. Uma conselheira deixou a pena suspensa sobre o pergaminho, sem conseguir anotar imediatamente o resultado. Fallen, por sua vez, não moveu um músculo. Mas seus olhos se estreitaram apenas um pouco. Missy sentiu a sala mudar ao redor dela. Não de forma física, mas como muda o silêncio depois de uma palavra inesperada. Havia atenção. Havia avaliação.
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