Missy piscou, incrédula.
Uma semana?
Aquilo não era uma prova.
Era uma provocação.
Ou uma punição.
Din ergueu os olhos, claramente irritado antes mesmo de Fallen terminar de falar.
— Mãe — disse ele, sem esconder a impaciência na voz. — Isso é uma perda de tempo.
Fallen olhou para ele com serenidade absoluta.
— Não para mim.
— Nenhuma delas precisa ficar uma semana ao meu lado para descobrir se é apta ou não.
— É exatamente o que você pensa — respondeu Fallen. — Mas não é assim que o palácio avalia uma união de longo prazo.
Din soltou um suspiro visivelmente contido, como se a ideia toda o ofendesse por princípio.
Missy cruzou os braços.
— Isso é ridículo — murmurou, baixa o suficiente para não interromper a mãe do príncipe, mas clara o bastante para ser ouvida por quem estivesse perto.
Lyra a olhou de relance, como se concordasse em silêncio.
Fallen ouviu mesmo assim.
Seu olhar pousou rapidamente em Missy, mas não houve reprimenda. Apenas atenção.
— Ridículo ou não — disse Fallen —, a seleção continuará.
As candidatas se entreolharam, inquietas.
A ideia de passar sete dias com Din parecia ter quebrado algo no entusiasmo de muitas delas. Antes, a seleção ainda guardava o verniz de um ritual desejável. Agora, a verdade se revelava em sua forma mais c***l: não bastava agradá-lo por um momento. Era preciso suportá-lo.
E Din, pelo pouco que haviam visto, não fazia qualquer esforço para ser suportável.
Ele cruzou os braços e encarou Fallen com frieza.
— Eu já disse que não preciso disso.
— Você precisa de uma escolha legítima — respondeu ela. — E eu preciso saber quem pode permanecer ao seu lado sem desmoronar.
Din franziu o cenho.
— Eu não pedi uma esposa que me suporte por uma semana.
— Não — concordou Fallen. — Você pediu uma esposa que produza um herdeiro e permaneça firme diante do que vem depois. A semana existe para isso.
Missy quase deixou escapar uma risada incrédula.
Din lançou a ela um olhar breve, já acostumado à resistência dela, e isso bastou para que ela fechasse a boca. Não queria dar a ele mais um motivo para irritação naquele momento.
Mas a verdade era que ela também achava a prova absurda.
Sete dias próximas de Din?
Sete dias sendo observada, testada, medida, avaliada?
Sete dias ao lado de um homem que m*l escondia sua insatisfação com todo o processo?
Não parecia uma seleção.
Parecia uma forma polida de tortura.
E, pela expressão de várias candidatas, não era a única a pensar assim.
Uma garota do norte foi a primeira a recuar, erguendo a mão timidamente.
— Senhora Fallen… eu… eu retiro minha participação.
O salão silenciou.
Fallen virou-se para ela com calma.
— Tem certeza?
A jovem engoliu em seco.
— Sim. Eu não creio que consiga suportar… isso.
— O príncipe? — perguntou uma das conselheiras, seca.
A candidata baixou os olhos.
— A situação.
Din pareceu achar a desistência quase natural. Não demonstrou surpresa.
— Próxima — disse, com impaciência.
Mas as desistências começaram antes mesmo de qualquer outra candidata ser chamada.
Uma.
Depois outra.
E mais uma.
Algumas não queriam passar uma semana confinadas sob a atenção direta do príncipe.
Outras disseram que precisavam voltar às famílias.
Houve também quem confessasse, com muito menos coragem do que esperavam de si mesmas, que não estavam preparadas para aquela proximidade.
Uma delas chegou a murmurar:
— Eu pensei que era uma seleção. Não uma sentença.
Missy observou tudo em silêncio.
As meninas estavam desistindo antes mesmo de irem.
Não por falta de interesse.
Mas por medo.
Por cansaço.
Por perceberem, tarde demais, que Din não oferecia o tipo de sonho com o qual tinham chegado ao palácio.
Fallen deixou que algumas saíssem.
Depois mais algumas.
Por fim, restaram apenas três candidatas.
Missy, Lyra e uma jovem de território vizinho cujo nome Missy não havia memorizado.
Fallen observou o pequeno grupo restante e então falou, com uma firmeza que não admitia discussão:
— Reconsiderem.
A candidata desconhecida pediu para voltar para casa.
Lyra hesitou por um segundo mais.
Missy a olhou de lado, sem dizer nada.
A outra jovem respirou fundo, depois abaixou a cabeça.
— Eu também preciso voltar.
Fallen não demonstrou decepção.
— Muito bem. Voltem para suas casas. Mas pensem com cuidado. Terão dois dias para retornar.
O salão murmurou de novo.
Dois dias.
Missy sentiu o peso imediato da informação.
Dois dias significavam o aniversário dela.
Dois dias significavam os vinte anos.
Dois dias significavam que o selo de Kim já estaria ainda mais fraco quando ela precisasse voltar.
Ela apertou os dedos contra a palma da mão, mantendo o rosto neutro por fora enquanto por dentro uma contagem silenciosa começava a se formar.
Kim.
A lembrança dele veio em seguida, como sempre vinha quando o risco se aproximava demais.
Ele diria que era perigoso.
Diria que ela não devia retornar.
Diria que o selo estava enfraquecendo.
E, provavelmente, estaria certo.
Mas Missy também sabia o quanto Kim vinha tentando esconder o medo que sentia. E se ele não dizia tudo, era porque já temia mais do que admitia. Nos últimos dias, ela havia sentido o selo reagindo de forma diferente. Pequenos formigamentos sob a pele. Uma ardência quase imperceptível na lateral do pescoço. O contorno da marca parecia mais vivo, mais presente, como se o dragão vermelho quisesse romper a camada de proteção e se anunciar ao mundo.
Ela não havia contado a ninguém.
Nem mesmo a Kim, em sua forma mais clara.
O anúncio de Fallen terminou com uma ordem simples: as candidatas deveriam retornar às suas origens, ponderar a decisão e voltar apenas se realmente desejassem continuar.
Din já parecia pronto para sair antes mesmo que as palavras cessassem.
— Isso é absurdo — murmurou ele, alto o bastante para ser ouvido.
Missy girou os olhos para ele.
— Finalmente concordamos em alguma coisa — disse, sem pensar.
A irritação no rosto de Din foi imediata.
Fallen, porém, ergueu a mão e encerrou o assunto com uma autoridade que não admitia réplica.
— Estão dispensadas.
E assim o salão se desfez.
As candidatas restantes se retiraram em silêncio.
Quando Missy voltou à casa de Kim, encontrou-o no escritório.
Ele estava de pé diante da mesa, as mãos apoiadas na madeira, os olhos fixos em um conjunto de pergaminhos e registros que já haviam sido abertos mais cedo. Quando a porta se fechou atrás dela, Kim ergueu os olhos imediatamente.
— Você voltou — disse ele, e havia algo de tenso na voz.
Missy tirou o manto com calma.
— Só por dois dias.
Kim já sabia.
Ela percebeu isso na forma como os olhos dele se estreitaram, como se tivesse acabado de confirmar uma suspeita que preferia não ter.
— O selo? — perguntou ele.
Missy hesitou.
— Está pior.
Kim fechou os olhos por um instante.
Não era preciso mais nada.
Ele atravessou a sala em dois passos e ficou diante dela, analisando seu rosto com a mesma atenção meticulosa com que examinava tecidos e objetos danificados. Dessa vez, porém, o exame era mais grave. Mais íntimo. Mais urgente.
— Mostre-me — disse ele.
Missy virou o rosto levemente e afastou parte do cabelo do pescoço.
Kim viu.
A marca vermelha parecia mais próxima da superfície da pele. Não totalmente revelada, mas suficientemente viva para que o brilho trêmulo denunciasse a fragilidade do selo. Havia um contorno mais definido, como se pequenas partes do dragão começassem a se insinuar através da proteção. Escamas minúsculas na base da marca. Uma linha mais escura. O desenho quase se movendo sob a pele.
O rosto de Kim se contraiu.
— Está começando.
Missy engoliu em seco.
— Eu sei.
— Quando isso começou?
— Faz dias.
— Por que não me contou?
Ela desviou o olhar.
— Porque você já estava preocupado demais.
Kim respirou fundo, visivelmente controlando o próprio temperamento.
— Missy, isso não é um detalhe menor.
— Eu sei disso também.
Ele a encarou por alguns segundos longos demais.
Então se afastou da mesa, passou a mão pelo rosto e ficou em silêncio, como se procurasse a maneira certa de dizer o que estava pensando sem permitir que o medo ocupasse o lugar da calma.
Missy observava tudo sem falar.
Por fim, Kim disse:
— Em dois dias, você completa vinte anos.
Ela assentiu.
— Sim.
— E o selo talvez não aguente até lá.
Missy não respondeu.
A confirmação já estava no corpo dela.