Tudo bem. Vou agir como se me lembrasse dela e depois mantenho a distância. Deve ser simples.

967 Words
Ricardo tenta responder, mas Eleonora o interrompe. — A verdade? Ricardo não sabia. Nosso relacionamento era à distância. Ele só começou a conhecer minha vida de verdade depois que ficamos noivos… e logo depois aconteceu o seu acidente. — Ela solta um suspiro, me olhando com um misto de preocupação e carinho. — Ele não fazia ideia de quem era a Jéssica, Jason. Soube agora, quando me contou sobre a casa. Olho para Ricardo, tentando captar se ele sente culpa ou apenas desconforto. Ele responde com um olhar calmo, mas sério. — De fato, eu não sabia — confirma Ricardo, com a voz firme, mas serena. — Se tivesse conhecido mais da sua história, nunca teria feito isso, Jason. Observo os dois em silêncio, absorvendo a complexidade da situação. — Jéssica esteve sempre presente em sua vida... Acho que, de alguma forma, ela pode ajudar você a se reconectar com quem você era. — Ajudar? — pergunto, a voz rouca, quase inaudível. — E o que você acha que ela pode fazer por mim, Eleonora? — Ela fez parte da sua história. Antes do acidente, você ia bastante ao chalé dela...com a Sara. Ricardo sugere: — Se você quiser posso tentar cancelar sua estadia lá. Tenho certeza de que a senhora Williams irá entender. — Ah, ótima ideia. Você pode ficar conosco — diz Eleonora, com um sorriso encorajador. Deus! Ficar com eles é a última coisa que desejo. O pouco tempo que passei aqui já me perturba. Cada conversa, cada olhar, parece trazer o passado de volta, como uma corrente impossível de quebrar. Eles me enxergam através de uma lente que me desconcerta, sempre tentando encontrar o antigo Jason em tudo o que faço. E no chalé? Será que o passado também vai me assombrar ali? Mas, no fundo, sinto que é minha única chance de encarar as lembranças, e talvez entender essa ausência que tanto me atormenta. Respiro fundo, determinado a manter a firmeza. — Não. Eu fico com o chalé — digo, sem hesitar. Por mais que a casa de Eleonora ofereça amor e conforto, o chalé é o único lugar onde sinto que posso enfrentar essas memórias, por mais distantes e nebulosas que sejam. Eleonora me observa, o sorriso vacilando por um instante, mas logo se recompõe. — Certo… Se é isso o que você quer. Apesar do que eu disse, algo em mim ainda luta para resistir. É como se, ao aceitar o chalé, eu também estivesse aceitando enfrentar a verdade por trás desse vazio. Eleonora me observa com uma expressão preocupada, mas algo no olhar dela é ao mesmo tempo encorajador e cauteloso. — Tem certeza? — pergunta ela, tentando ver em mim alguma dúvida. — Sim, tenho — respondo, mantendo a calma. Ela suspira, resignada, mas respeita minha decisão. A tensão paira no ar, enquanto Ricardo, ao contrário dela, mantém o olhar sereno, como se já esperasse por minha resposta. — Olha, Jason — diz ele com um tom acolhedor —, eu entendo que você precisa desse tempo sozinho, mas saiba que não está desamparado. Eleonora e eu estamos aqui para o que você precisar. Pode contar conosco para qualquer coisa, sempre. A sinceridade na voz dele me pega de surpresa. Suas palavras parecem preencher aos poucos o vazio que carrego há tanto tempo. Tudo o que consigo fazer é assentir. Percebo o quanto me distanciei das pessoas que importam; parece que há tanto tempo lido com tudo sozinho que esqueci como é ter alguém ao meu lado, alguém que genuinamente se importa e que oferece apoio sem esperar nada em troca. — Obrigado, Ricardo — murmuro, sem saber bem como expressar minha gratidão. — Realmente, obrigado a vocês dois. — Faço uma pausa— E, durante esse mês, se quiserem passar pelo chalé, vão para a gente conversar. Não o tempo todo, preciso me desligar um pouco, mas… seria bom ter vocês por perto. Não quero me isolar completamente. Só preciso de paz, de um pouco de descanso em meio à natureza, longe de toda essa pressão. A verdade é que estou desgastado. Eleonora suaviza a expressão, e um leve sorriso se forma em seus lábios. Ela me observa com ternura, talvez vendo algo nos meus olhos que eu mesmo não sabia que estava ali. — Claro, Jason. Nós iremos sim — responde, com um tom tranquilizador. Aceno de volta, com um sorriso discreto de gratidão. Saber que não estou completamente isolado me traz um alívio inesperado. Mesmo que o chalé pareça o refúgio ideal para lidar com a solidão, o simples ato de ter minha família ao alcance me lembra de que ainda existem conexões que podem ser fortalecidas, mesmo entre as ruínas do que eu fui. Então, Eleonora se aproxima um pouco mais, e sua expressão muda para algo mais sério. — Você vai contar sobre a sua condição? — pergunta, com um ar preocupado. Passo a mão pelos cabelos, hesitante. É um assunto delicado, e as consequências me preocupam. — E ser olhado como se fosse um estranho? Ou, pior, como se eu fosse um lunático? Não, obrigado — respondo, tentando esconder o desconforto. — Você mesma me disse que ela é amiga de Sara… A última coisa que quero é que a história de que eu a dispensei por conta da minha condição caia nos ouvidos dela. Melhor manter isso para mim. Eleonora respira fundo, ponderando minha resposta. — Bem, você é quem sabe — ela diz, num tom suave. — Só… aja naturalmente. Ela não fazia parte do seu círculo próximo, então isso pode facilitar as coisas. Vocês m*l conversavam. A verdade, ela não gostava muito de você. Assinto, tentando adotar a mesma calma dela. — Tudo bem. Vou agir como se me lembrasse dela e depois mantenho a distância. Deve ser simples.
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