Jason
Enquanto caminho ao lado de Jéssica, sinto uma pressão crescente no peito, algo que não consigo explicar. É como se o ar aqui fosse diferente, mais pesado, carregado de uma história que não conheço por completo, mas que, de alguma forma, parece me pertencer. Tento afastar a sensação, forço minhas mãos trêmulas a permanecerem dentro dos bolsos, mas o desconforto é como uma sombra persistente.
Cada passo parece me levar mais fundo em um turbilhão de sentimentos desconexos. O caminho até o chalé se arrasta, cada detalhe ao meu redor amplificando a inquietação: o som das folhas ao vento, o cheiro úmido da terra, o brilho suave do sol filtrado pelas árvores. Tudo é familiar demais, e, ao mesmo tempo, me escapa. Já estive aqui antes. Mas por quê?
Quando o chalé surge à vista, sinto um alívio momentâneo, mas ele se dissolve rapidamente. O peso no peito não diminui, e minhas pernas parecem ceder. Apoio-me na parede, tentando recuperar o fôlego enquanto Jéssica, tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante, procura a chave no bolso do vestido. Ela finalmente destranca a porta, e entramos.
— Minha mãe pediu para ver se você precisava de algo. Acho que ela se preocupa demais com os hóspedes.
Seus olhos encontram os meus, e a semelhança entre mim e Jake se torna quase palpável. É um peso que não sei como carregar.
— E você? — pergunto, sem pensar, minha voz carregada de uma curiosidade que me surpreende. — Está tudo bem para você... eu estar aqui?
Ela hesita, e nesse momento sua fachada se quebra. A força que ela parecia carregar dá lugar a uma vulnerabilidade que quase me assusta.
— Sinceramente? Eu não sei. — Sua voz é baixa, quase um sussurro, mas cada palavra carrega uma honestidade crua. — Mas acho que o universo decidiu que eu precisava encarar isso.
Ela respira fundo, recolhendo-se como se tentasse reunir forças, e me lança um olhar que mistura determinação e tristeza.
— Seja bem-vindo, Jason. Espero que o chalé te ofereça o que você procura.
Antes que eu possa responder, ela se vira e caminha em direção à porta.
— Jéssica. — Minha voz a para, e ela se vira devagar. — Obrigado. Por não... sei lá, me mandar embora.
Ela ri, mas é um som curto, quase amargo.
— Isso não está exatamente nas minhas mãos, Jason. Nós precisamos do dinheiro. E... talvez seja o que eu preciso também. Assim, finalmente, abandono o passado.
É então que noto algo na mesa. Um porta-retratos antigo, com uma foto desbotada. Meus olhos são atraídos para a imagem, e meu coração parece parar. É Jake, com seu sorriso inconfundível, ao lado de Jéssica. Eles estão no jardim deste chalé, o mesmo onde estamos agora.
Minha mão treme ao pegar o porta-retratos. A foto é simples, mas carrega um peso avassalador. O reflexo do vidro sobre a imagem devolve meu próprio rosto, sobreposto ao de Jake. A visão é desconcertante, uma mistura de familiaridade e estranheza.
De repente, uma onda de náusea me atinge. Minha visão embaça, as bordas do quarto se misturam, e uma pressão intensa se forma em meu peito. Solto o porta-retratos sobre a mesa com um ruído abafado, incapaz de segurá-lo por mais tempo.
Tento inspirar fundo, mas o ar parece não preencher meus pulmões. Um suor frio escorre pela minha testa, e sinto minhas pernas vacilarem.
— Jason! — A voz de Jéssica é alarmada, trazendo-me de volta por um instante. Ela está ao meu lado, os olhos arregalados, as mãos hesitando antes de tocar meu braço. — O que aconteceu? Você está pálido!
Faço um gesto fraco com a mão, tentando afastar sua preocupação.
— Estou bem... — minha voz sai fraca, quase um sussurro. — Só... só me deu uma tontura.
Ela não parece convencida. Sua mão quente pousa em meu ombro, guiando-me até uma cadeira próxima.
— Você não está bem. Espere aqui, vou buscar água.
Antes que eu possa protestar, ela desaparece na pequena cozinha do chalé. O som da torneira correndo enche o silêncio enquanto tento estabilizar minha respiração. Fecho os olhos, mas as imagens da foto continuam a dançar na minha mente. Jake. Jéssica. O chalé. Tudo parece tão próximo, tão real, e ao mesmo tempo, fora de alcance.
Resolvo sair para respirar ar fresco. No degrau do lado de fora, tento me recompor, sentindo a respiração descompassada enquanto procuro o remédio no bolso. Coloco o comprimido debaixo da língua, esperando que alivie a pressão em meu peito.
Fecho os olhos, mas o desconforto persiste. Tento convencer a mim mesmo: Você está tendo uma crise de pânico. Vai passar. É só a sensação de estar em um lugar que já conhece. Mas a verdade é que nada parece suficiente para aliviar o aperto.
Um toque suave no meu ombro me faz abrir os olhos. Jéssica está ali, com um copo de água nas mãos.
— Aqui. Beba — ela diz, a voz firme, mas gentil.
Com mãos trêmulas, pego o copo e bebo, tentando me acalmar. A água desce gelada pela minha garganta, mas a sensação de vazio permanece. Jéssica senta-se ao meu lado, em silêncio, apenas esperando.
— Você deveria descansar — ela finalmente diz, ajoelhando-se ao meu lado. Seus olhos verdes e brilhantes encontram os meus, e vejo algo ali. Não é só preocupação. É dor, profunda e crua, refletida como um espelho.
— Jéssica... — começo, mas as palavras se perdem.
Tudo o que sei é que há algo aqui, algo maior do que eu consigo compreender. E enquanto encaro seus olhos, percebo que essa dor que compartilhamos é uma ponte entre nós — algo que, por mais que machuque, nos mantém conectados.