Jason
Acelerando, sinto a urgência de chegar. Após anos imerso no concreto de Londres, a ideia de uma pausa na natureza se apresenta como uma promessa de alívio. Quem sabe essa viagem mude algo em mim, me traga uma nova perspectiva, quem sabe até redefina o que é viver? Cinco anos se passaram desde que deixei tudo para trás, e nunca mais voltei à minha cidade natal.
De certo modo, venci. Fugi dos problemas e mantive a minha mente ocupada. Mas a solidão, como uma velha amiga, me lembra constantemente do vazio que persiste. Sinto a necessidade de encontrar alguém que me faça sentir, que traga propósito à minha vida. A minha existência já é superficial o suficiente; o que eu quero agora é um vínculo genuíno, algo que reanime a minha alma e preencha esse vazio.
À medida que a paisagem muda ao meu redor, o verde crescente ao sair das vias principais, respiro mais fundo. Em breve, vou passar o dia com minha irmã e a família. Amanhã, vou para a casa que aluguei. Eleonora e o marido sempre me visitam, trazendo uma vitalidade que me falta. Eles são um alívio constante, um lembrete de que ainda posso sentir algo verdadeiro. Sorrio ao lembrar da bagunça que a minha irmã sempre deixa para trás, e de como Marta, minha governanta, tenta em vão manter tudo em ordem depois de uma visita.
Pego o GPS e sigo as instruções, entrando numa estrada de terra. Vinte minutos depois, diminuo a velocidade do BMW e avisto os pilares de pedra que marcam a entrada da casa de Eleonora. Estaciono entre dois carros, que parecem insignificantes comparados ao meu, e observo a casa com um misto de saudade e ansiedade.
Vejo Eleonora aparecer, com Adam nos braços. Ela sorri para mim, e logo atrás vem Ricardo, seu marido. A imagem deles, felizes e completos, faz o meu coração bater mais rápido. Desço do carro e, ao fazê-lo, uma leve tontura me atinge. Seguro na porta do carro por um instante, tentando disfarçar. Quando a sensação passa, fecho a porta e sigo em direção a eles. Sinto uma mistura de alegria e ansiedade, o meu peito apertado com a sensação de estar em casa, mas, ao mesmo tempo distante de mim mesmo.
Eleonora, emocionada, passa Adam para Ricardo e me abraça. Depois, Ricardo me puxa em outro abraço caloroso. Eu sorrio, sentindo o amor que emana deles.
— Você dirigindo? Edward não é seu motorista? — Ela pergunta, surpresa.
— Dei férias a ele — respondo, soltando uma risada.
— Incrível que você esteja dirigindo agora, sem traumas! — Eleonora exclama, o que me faz sorrir ainda mais.
Sigo em direção ao pequeno Adam, que me olha com curiosidade. Ele começa a chorar, e rapidamente o entrego de volta para Ricardo, que se diverte com a situação. Eleonora nos guia para dentro da casa, animada.
— Fiz tudo que você gosta — ela diz, me puxando como se eu fosse uma visita ilustre.
A sala me recebe com uma sensação de caos familiar — brinquedos de Adam espalhados pelo chão, sapatos deixados para trás e jornais empilhados de forma desordenada. É um reflexo perfeito de um lar cheio de vida. E, de alguma forma, é exatamente o que eu preciso. Sento-me no sofá, e Eleonora ocupa o espaço ao meu lado, me observando com uma expressão de carinho e preocupação.
— Você está bem, Jason? — Ela pergunta, estudando minhas olheiras e o meu semblante cansado.
Sorrio, tentando aliviar a sua preocupação.
— Estou ótimo, só cansado. Com o tempo, vou descansar e recuperar as energias. Prometo.
Ricardo se senta no sofá oposto, com Adam no colo, e Eleonora começa a falar sobre a casa que aluguei.
— Consegui uma casa tranquila para você. Você pode ficar conosco, claro, mas você preferiu se isolar...
— Não gostei nada de saber que você prefere uma casa alugada a ficar aqui conosco. — Ela diz, a tristeza evidente na voz.
Suspiro, tentando encontrar uma explicação que não os magoe.
— Eu preciso de paz, Eleonora. Preciso de um espaço só meu, onde eu possa descansar.
Enquanto falava, Adam começa a chorar no colo de Ricardo, e a cena nos arranca uma risada.
— Entende o que quero dizer? — Pergunto, tentando suavizar o momento.
— Está bem, querido. — Ela se levanta, pegando Adam e colocando a chupeta na sua boca. Ela volta para o meu lado, ainda com uma expressão preocupada. — Eu entendo, mas não gosto de ver você se afastando. Tem certeza de que precisa de tanto isolamento?
— Ando muito cansado, Eleonora. Preciso disso.
Ela balança Adam suavemente e, por um instante, me perco observando a forma como ela o olha com tanta adoração. A minha irmã está realizada, e é impossível não sentir uma pontada de nostalgia ao vê-la tão plenamente feliz.
— A casa que Ricardo arranjou fica a uns dez minutos a pé daqui — comento, tentando aliviar a tensão.
— Exatamente — responde Ricardo. — Você pode vir sempre que quiser.
Eleonora olha para ele, e em sua expressão, vejo um desconforto crescente.
— Mas, afinal, que casa é essa que você alugou para o Jason? Pois a única perto daqui é da Ester Williams.
Ricardo troca um olhar comigo, como se soubesse exatamente onde isso levaria.
— É essa mesma.
O nome de Ester Williams atinge-me como uma onda. Há algo familiar naquele nome, mas minha mente, nebulosa, não consegue se fixar na lembrança. A sensação é estranha, mas logo me sinto aliviado pela ação do remédio, que começa a me acalmar. Logo que eu cheguei o tomei, eu às vezes preciso desse recurso para me derrubar, e acabar com todo o stresse que o ambiente pode causar.