Capítulo 12

1163 Words
Lila Anderson Ter topado fingir um relacionamento com Asher, um homem que eu m*l conheço, deve ter sido a maior loucura da minha vida. Talvez até maior do que ter ajudado Emily a fugir de Ivan. Não sei se foi desespero ou simplesmente burrice, mas aceitei. Aceitei a proposta dele e, pior, aceitei também dividir o mesmo teto com ele. O mesmo teto! Só de pensar nisso, sinto o meu estômago embrulhar. Foram três dias intermináveis na estrada até chegarmos a Chicago. Três dias que pareceram três anos. Asher estava paranoico depois de perceber, na primeira noite, um carro suspeito nos seguindo. Decidiu que era melhor irmos com calma, mudando de hotel a cada noite, até ter certeza de que não havia rastros. Eu entendi, claro, afinal Ivan era capaz de qualquer coisa, mas não posso negar que parte de mim também ficou aliviada. Aquela distância forçada — cada um no seu quarto, cada um no seu espaço — me deu tempo para respirar. Para processar tudo. Porque, sinceramente, como se processa um beijo daqueles? Eu ainda não consigo entender o que se passou. Foi intenso demais, inesperado demais. Eu, que nunca tinha sido beijada antes, me vi sendo arrebatada de uma forma que só acontece em filmes. E logo por quem? Por Asher, esse homem que transborda confiança e que, de tão inacessível, parece pertencer a outro mundo. Me sinto uma completa idiöta por não conseguir esquecer, mas a verdade é que, a cada vez que fecho os olhos, sinto de novo o calor da boca dele na minha. E, como se já não fosse suficiente estar com a cabeça em frangalhos por isso, ainda aceitei morar com ele. Eu devo estar completamente louca e desesperada. É claro que parte de mim tenta se convencer de que posso encontrar outro emprego, que não preciso me submeter a esse plano insano. Mas quando lembro das contas hospitalares da minha mãe, dos remédios cada vez mais caros, do olhar cansado da minha tia tentando dar conta de tudo… eu sei que não tenho saída. Preciso mandar dinheiro. Preciso garantir que elas não afundem. Mesmo que isso custe a minha paz. Quando finalmente chegamos em Chicago, a primeira parada foi na casa do tal Logan, o homem que estava ajudando Emily. Meu coração batia descompassado, ansioso para vê-la. No fundo, sempre temi que Ivan tivesse dado um jeito de encontrá-la, que ela não tivesse conseguido escapar da sombra dele. Mas ali estava ela, diante dos meus olhos, viva, sorrindo… feliz. Abracei-a com força, sentindo a garganta apertar. - Eu achei que nunca mais iria te ver… – sussurrei contra o ombro dela. - Eu também achei, Lila. – ela respondeu, igualmente emocionada. – Mas estou bem agora. Juro que estou. Afastei-me só o suficiente para olhar nos seus olhos. Ela realmente parecia bem, melhor do que eu jamais tinha visto. E isso me arrancou um alívio que não cabia dentro de mim. - Ele nunca mais vai encostar em você, ouviu? Emily sorriu, aquele sorriso pequeno, mas verdadeiro. - Eu sei. Eu tenho o Logan agora. Posso confiar nele. Quis acreditar de imediato, mas a cautela falou mais alto. - Tem certeza? Podemos mesmo confiar nele? Ela assentiu sem hesitar. - Sim. Ele é… um bom homem, e tem me ajudado, Lila. De verdade. Olhei para ela por mais um instante e então percebi uma mulher se aproximando. Emily fez as apresentações: Cecília. Ela parecia simpática, carinhosa, com um jeito acolhedor que me deixou mais tranquila. Gostei de vê-la tratando Emily com tanto cuidado, como se fosse parte da família. Conversamos um pouco, porque logo Asher apareceu, acompanhado de um homem que percebi ser o tal Logan. Asher fez as apresentações formais. - Lila, esse é Logan. - Prazer. – murmurei, tentando ser educada, mas minha cabeça estava longe. Eu só conseguia pensar em como Emily parecia segura ao lado dele. Prometi a ela que voltaria outro dia com calma, e mesmo que tenha estranhado eu não ficar ali com ela, Emily não comentou nada. Melhor assim. Eu explicaria tudo depois, com calma, sem pressa. O caminho até a casa — ou melhor, o apartamento — de Asher foi em silêncio. Não sei se era pelo cansaço da viagem ou porque nenhum de nós tinha coragem de puxar assunto depois de tudo. De qualquer forma, agradeci pelo silêncio. Chegamos a um prédio imponente no centro de Chicago. Ele estacionou na garagem privativa e, sem dificuldade, carregou as nossas malas. Subimos de elevador até a cobertura, e quando as portas se abriram, o meu queixo quase caiu. O apartamento dele gritava luxo em cada detalhe. Cores claras dominavam os ambientes, desde as paredes até os sofás em tons de bege sofisticado. As janelas iam do chão ao teto, exibindo a cidade inteira como se fosse uma pintura. Havia quadros modernos nas paredes, vasos de cristal com arranjos impecáveis, móveis que eu jamais ousaria encostar. O tipo de lugar em que eu tinha medo até de respirar errado. - Fique à vontade. – Asher disse, colocando a minha mala perto de um corredor. – O seu quarto é o de hóspedes, logo ali. O banheiro já está com toalhas limpas, e se precisar de qualquer coisa, me avise. Assenti, apertando o zíper da minha jaqueta, como se aquilo fosse me proteger da sensação de deslocamento. - Obrigada. Ele apenas fez um aceno de cabeça e saiu, fechando a porta atrás de si. De repente, o silêncio do quarto me engoliu. Olhei em volta, encarando a cama perfeitamente arrumada, o guarda-roupa vazio esperando por roupas que eu não tinha, e senti um nó apertar no peito. Como vou fingir que pertenço a essa vida, a essa família, se eu nem consigo me sentir à vontade aqui dentro? Talvez seja só porque acabei de chegar, tentei me convencer. Talvez eu me acostume. Peguei uma peça de roupa limpa da minha mala e fui tomar banho. A água quente caiu sobre mim, mas, em vez de aliviar, pareceu trazer à tona toda a realidade que eu estava tentando afastar. Eu aceitei. Eu aceitei fingir ser a noiva de um homem que m*l conheço. Eu aceitei morar com ele. Isso é uma insanidade. Fechei os olhos enquanto passava shampoo no cabelo e, inevitavelmente, lá estava de novo: o beijo. O calor da boca de Asher contra a minha, a forma como nossas respirações se misturaram, a intensidade que me arrebatou por completo. Eu devia odiá-lo por isso. Devia ficar furiosa. Mas a verdade é que nunca senti nada parecido antes. E isso, por si só, me assusta mais do que qualquer coisa. Quando terminei o banho e me olhei no espelho, quase não me reconheci. Os meus olhos denunciavam o cansaço, mas também havia algo novo ali: medo. Medo de ter entrado em um jogo que eu não sei jogar. Suspirei, secando o rosto. - Você enlouqueceu, Lila. – murmurei para mim mesma. Mas já era tarde demais para voltar atrás.
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