Lila Anderson
Desde o almoço na casa dos pais de Asher, m*l o vejo. Ele sai cedo, volta tarde, e eu já tentei esperar ele chegar, porém, nunca consigo, sempre acabo dormindo no sofá. A parte estranha? Sempre acordo na cama. E até onde eu sei, não sou sonâmbula. Então, ou os móveis da sala ganharam pernas e me carregaram, ou foi ele. E se foi ele... por que faz isso e ainda assim me evita durante o dia?
Eu juro que tentei ficar acordada várias vezes pra tirar isso a limpo, mas o cansaço sempre ganha. No fundo, acho que tenho medo da resposta. Talvez ele tenha dado ouvidos à irmã. Talvez tenha percebido que não combina comigo, com o meu jeito, com as minhas roupas simples e a vida que levo, talvez ele tenha percebido que esse acordo, é uma péssima ideia.
Outro dia, Sônia apareceu e me levou pra almoçar. Foi incrível. Ela é doce, conversa de um jeito que faz a gente se sentir da família. Insistiu em comprar algumas coisas pra mim, mesmo eu dizendo que não precisava. O pai de Asher também é um amor. Aí fico pensando: se os dois são assim, de quem a Rafaella puxou aquele veneno todo?
Hoje decidi que chega. Vou perguntar o que está acontecendo. Pra ganhar coragem, peguei uma garrafa de vinho da adega dele — o mais caro, segundo o Google, porque se for pra ter DR, que seja com estilo. Metade da garrafa já se foi, e eu me sinto... leve. Talvez leve demais.
O relógio marca duas da manhã quando a porta se abre. Asher entra, tenso, o terno ainda impecável. Ele me encara por alguns segundos, os olhos alternando entre a taça na minha mão e a garrafa vazia sobre a mesa.
- Você... bebeu? – ele pergunta, arqueando uma sobrancelha.
Assinto com um sorrisinho torto.
- Bebi. Uma garrafa inteira. Sozinha. – a minha voz sai embolada, e o "sozinha" parece mais dramático do que o necessário.
Ele suspira, fechando a porta.
- Você está bêbada.
- Não estou bêbada – protesto, me levantando, embora o tapete pareça ligeiramente em movimento. – Estou... alegre.
Asher tenta esconder o riso, e isso me irrita um pouco.
- Alegre, é?
- É. Alegre o suficiente pra perguntar por que você anda me evitando! – digo, cruzando os braços, o que faz um pouco do vinho respingar no chão. — Você sai cedo, volta tarde, e... e eu sei que é você quem me leva pra cama!
O silêncio que segue é pesado. Só quando o canto da boca dele se ergue é que percebo o duplo sentido do que acabei de dizer.
- Quer dizer... pra minha cama. Sozinha! Eu durmo sozinha! – começo a gaguejar, sinto o meu rosto quente até as orelhas. – Eu só quis dizer que eu não sou sonâmbula e... ai, deixa pra lá.
Ele ri. Um riso baixo, rouco, que me faz querer sorrir e socá-lo ao mesmo tempo.
- Lila... – ele começa, mas eu o interrompo.
- Não! Eu preciso falar! – ergo o dedo em um gesto nada autoritário. – Se eu fiz alguma coisa que te incomodou, você precisa me dizer. A sua mãe me contou que o noivado do seu primo é essa semana, e se você quiser que o nosso acordo dê certo, a gente precisa parecer um casal! Você não pode continuar me evitando, ou a noiva dele vai perceber que é tudo falso!
Os olhos dele se estreitam.
- A noiva do meu primo?
- É! A Ivone! – digo, triunfante, como se tivesse desvendado um segredo de Estado. – A sua mãe me contou que vocês já namoraram. Então é por causa dela, não é? Você ainda sente alguma coisa e quer fazer ciúmes pra ela!
A risada dele ecoa pela sala, baixa e incrédula.
- Fazer ciúmes pra Ivone?
- Claro! – dou de ombros. – É óbvio. Você quer provar que seguiu em frente. Que está com alguém também. – ergo a taça, como se brindasse à minha teoria.
Ele balança a cabeça, divertido.
- Da onde você tira essas coisas?
- Da lógica, Asher! – rebato, apontando o dedo pra ele. – Vocês namoraram, o seu primo roubou a sua ex, e agora você quer mostrar que venceu. Eu vi isso em algum filme, isso sempre dá errado.
Ele suspira, abandona a pasta sobre a mesa e se aproxima, sério.
- Lila... não é por isso que eu te pedi pra fingir esse noivado.
- Ah, não? – cruzo os braços, tentando não balançar. – Então por quê?
- Porque eu não queria ir sozinho – ele responde, simples, mas a voz carrega algo mais fundo. – Não queria parecer que fiquei preso no passado.
- Então é por causa dela, sim! – exclamo, vitoriosa, mesmo com a língua enrolando um pouco. – Você quer provar que andou pra frente!
Ele ri outra vez, mas dessa vez sem humor.
- Você não entendeu.
- Então explica.
Ele passa a mão pelos cabelos e, por um instante, parece cansado.
- Ela e Frederico me traíram, Lila.
As palavras dele caem como um soco.
- O quê?
- Você ouviu. – ele se senta no sofá, o olhar distante. – Peguei os dois juntos. No meu apartamento.
A taça treme na minha mão e deixo ela na mesa.
- Meu Deus...
- Eu podia ter contado pra família, mas não quis magoar os meus tios. Então deixei que ela espalhasse a versão de que eu a traí. Foi mais fácil ser o vilão do que o homem traído.
Me aproximo e me sento ao lado dele, o coração apertado.
- Você não merecia isso.
Ele me encara, e aquele olhar me deixa sem ar.
- Você merece saber a verdade.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A tensão no ar é densa, quase palpável. E quando ele finalmente fala, a voz é baixa, rouca:
- Eu não te evitei porque estava bravo com você, ou porque fez algo. Te evitei porque... é difícil ficar perto de você e não fazer nada.
O meu coração erra o compasso. As palavras dele se infiltram na minha pele, deixando um calor diferente.
- O quê...? – sussurro, incapaz de desviar o olhar.
Ele se inclina um pouco, o rosto tão próximo que sinto o hálito quente de menta. O ar entre nós parece vibrar. O meu corpo inteiro desperta, pedindo algo que a minha razão tenta negar.
Sem pensar, as palavras escapam:
- Me beija.
Talvez seja o vinho. Talvez seja eu. Ou os dois. Mas quando ele roça o nariz no meu, não há espaço pra arrependimento.
O beijo acontece devagar, profundo, diferente do primeiro. É urgente e terno ao mesmo tempo, um misto de desejo contido e confissão silenciosa. As mãos dele seguraram o meu rosto, e a língua invade a minha boca, quente, firme, como se ele quisesse apagar qualquer dúvida que ainda restasse.
Os meus dedos se perdem nos cabelos dele, e o mundo inteiro desaparece. A intensidade cresce, o ritmo acelera. Sem perceber, já estou em seu colo, sentindo o corpo dele reagir, duro, quente, real.
Um gemido escapa da minha garganta, e começo a me mover, instintivamente. O beijo se torna mais voraz, e o ar rareia.
Mas então ele para.
Asher encosta a testa na minha, respirando ofegante.
- Quando eu tiver você na minha cama, vai ser com você sóbria.
A voz dele é grave, um sussurro firme que me arrepia por inteiro. Fico ali, imóvel, o coração disparado, o corpo pedindo o contrário do que a razão dele impõe.
Abro os olhos e o vejo sorrir de leve, quase em desculpa. Ele me ajuda a levantar, segurando a minha mão e diz baixinho:
- Vai dormir, Lila.
Não consigo responder. Apenas o observo caminhar até a escada e desaparecer pelo corredor.
Fico parada por um instante, tentando entender o que acabou de acontecer. O gosto do beijo ainda está nos meus lábios, quente, doce e confuso. Talvez eu tenha bebido demais. Talvez tenha sonhado.
Mas quando olho pro espelho da sala e vejo os meus lábios vermelhos e inchados, percebo que foi real. E o pior? Eu queria que tivesse continuado.